Fenômenos naturais

Chuvas de 2024 no RS: a análise de atribuição apontou chance cerca de 2 vezes maior, com incerteza grande

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A análise rápida do World Weather Attribution (junho de 2024) estimou que 1,2 °C de aquecimento global aumentou em cerca de 2 vezes a probabilidade da chuva extrema de abril e maio no Rio Grande do Sul e em 6% a 9% sua intensidade; o El Niño de 2023/24 também contribuiu. As faixas de incerteza são largas (a da probabilidade vai de 0,25 a 25 vezes). Existe uma versão revisada por pares, de 2026, cujos números podem diferir.

Atribuição de eventos extremos compara a probabilidade e a intensidade de um evento no clima de hoje com as de um clima sem aquecimento. No Rio Grande do Sul, a equipe estudou a chuva máxima de 4 e de 10 dias em março a maio, somando observações e modelos climáticos. Entre 24 de abril e 4 de maio de 2024 caíram mais de 420 mm no estado, e o período de retorno foi estimado em 100 a 250 anos. Dois fatores entram na conta: o aquecimento global de 1,2 °C e o El Niño de 2023/24. Esta página trata do resultado e de suas incertezas, não do balanço dos danos.

Três das maiores cheias em nove meses

Segundo o relatório da análise rápida, das quatro maiores cheias já registradas em Porto Alegre, três ocorreram nos nove meses anteriores a maio de 2024. A segunda maior é de 1941; a maior foi a de maio de 2024.

O que a atmosfera fez

Uma alta pressão persistente sobre o leste do Brasil e o Atlântico Sul reforçou o fluxo de umidade do centro do país até o Rio Grande do Sul pelo jato de baixos níveis (SALLJ). A mesma alta bloqueou frentes que vinham de latitudes mais altas, e elas ficaram sobre a região, acumulando chuva. O El Niño de 2023/24 ajudou a ampliar essa alta, e o Atlântico tropical estava anormalmente quente. É a descrição dos autores, feita a partir de reanálise e de trajetórias do ar.

Como sabemos: observações, modelos e uma síntese

A equipe calculou, em conjuntos de dados de chuva e em modelos climáticos, a chance de uma chuva como a de 2024 em três condições: clima atual, clima sem o aquecimento observado e El Niño comparado a uma fase neutra. Os resultados de observações e modelos foram combinados numa síntese. Como as séries são curtas, usaram o evento de 1 em 100 anos como referência, e não o valor exato de 2024, que é ainda mais raro. O método está explicado no post sobre razão de probabilidade.

Uma análise rápida, não uma revisão final

O estudo de junho de 2024 foi feito em poucas semanas, depois do evento, e a página da equipe indica que uma versão revisada por pares saiu em 2026 no npj Natural Hazards. Os números deste post são os da análise rápida, com as faixas de incerteza que ela própria informa: cerca de 2 vezes na probabilidade (0,25 a 25) e 6% a 9% na intensidade. Quem for citar o resultado deve conferir também a versão revisada.

Quanto é El Niño e quanto é aquecimento

As faixas dos dois fatores se sobrepõem, e a síntese não permite dizer qual pesou mais: na análise rápida, cerca de 3 vezes na probabilidade para o El Niño e cerca de 2 vezes para o aquecimento, ambos com incerteza larga. Os autores reconhecem que a relação entre o aquecimento e a chuva extrema na região tem incerteza muito alta, por uma oscilação de décadas nas séries que não souberam explicar.

Como sabemos

Resultados do estudo vêm da própria equipe de atribuição, mas a incerteza estatística é grande e a versão revisada por pares de 2026 não entra com números.

Fontes

  1. World Weather Attribution (Imperial College London, KNMI, Red Cross Red Crescent Climate Centre) — Climate change, El Niño and infrastructure failures behind massive floods in southern Brazil (página de resumo)
    World Weather Attribution · 2024-06-03 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  2. Governo do Estado do Rio Grande do Sul — Defesa Civil atualiza balanço das enchentes no RS - 24/4
    Defesa Civil do Rio Grande do Sul · 2025-04-25 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Imperial College London / World Weather Attribution (repositório Spiral) — Climate change, El Niño and infrastructure failures behind massive floods in southern Brazil (relatório completo)
    Clarke, B.; Barnes, C.; Rodrigues, R.; Zachariah, M.; Alves, L. M.; et al. · 2024-06 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.25561/111882
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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