História do Brasil

Chiquinha Gonzaga, pianista de choro e regente, compôs em 1899 a primeira música criada para o Carnaval carioca

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847 e morreu na mesma cidade em 28 de fevereiro de 1935. Separou-se do marido em 1869, foi expulsa de casa pela família e passou a viver de aulas de piano e de música. Entrou na roda do choro como pianista, tornou-se compositora de teatro musicado e é tida como a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Em 1899 escreveu “Ó Abre-Alas” para o cordão Rosa de Ouro, a primeira composição feita para o Carnaval carioca.

Filha de um oficial do Exército e de uma mulher cuja mãe fora escravizada e alforriada, Chiquinha estudou piano com Elias Álvares Lobo e começou a compor aos 11 anos. Casou-se em 1863, separou-se seis anos depois e foi proibida de levar dois dos três filhos. Passou a lecionar piano e entrou no conjunto do flautista Joaquim Callado, o Choro Carioca, onde o piano era novidade e ela virou a “pianeira”. Em 1877 editou a polca “Atraente”, que teve 15 edições em nove meses. Nos anos 1880 usou o dinheiro das partituras para apoiar a abolição e a República e, em 1885, estreou no teatro musicado com a opereta “A Corte na Roça”.

O maxixe no Catete

Em 1914, “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga, foi tocado numa recepção no Palácio do Catete, considerada a primeira vez em que a música popular brasileira soou num salão nobre. Os jornais comentaram, e no Senado Rui Barbosa atacou o maxixe como a mais grosseira das danças.

Uma separação que custou caro

Chiquinha recebeu educação rígida, com contato com a música erudita e os valores do Rio imperial, que reservavam à mulher o casamento e a maternidade. Casou-se em 1863, com um oficial da Marinha Mercante, e a Agência Brasil registra que o casamento foi imposto quando ela tinha 16 anos. Seis anos depois a separação a levou a ser expulsa de casa e proibida de levar consigo dois dos três filhos. Foi, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, o rompimento com a sociedade patriarcal e o início de uma nova fase.

A pianeira do choro

Para se manter, passou a dar aulas de piano e entrou no cenário popular do Rio por meio do flautista Joaquim Callado, que a incluiu no Choro Carioca, grupo de flauta, cavaquinho e dois violões. Com o piano dela, o conjunto inovou, e ela passou a ser reconhecida como pianeira. Na época o choro ainda não era gênero musical, e sim um modo “chorão” de tocar tangos, polcas e valsas europeias. Em 1877 editou a polca “Atraente”, de grande sucesso editorial, que lhe deu fama e desgostou a família.

Palco, abolição e censura

Nos anos 1880 Chiquinha usou o dinheiro das partituras para apoiar o abolicionismo e o republicanismo. A opereta “Viagem ao Parnaso” (1883) não foi encenada porque, na época, não se admitia peça musicada por mulher; em 1885 estreou “A Corte na Roça”, e em 1888 regeu pela primeira vez uma orquestra. Em 1893, a cançoneta “Aperte o Botão” foi considerada ofensiva pelo governo de Floriano Peixoto e rendeu ordem de prisão e a apreensão das partituras.

Carnaval, Catete e direitos autorais

Em 1899, compôs “Ó Abre-Alas” para o cordão Rosa de Ouro. Foi a primeira composição criada para o Carnaval carioca e definiu um novo estilo, a marcha-rancho. Em 1912, a opereta “Forrobodó” levou a gíria carioca ao palco, e em 1914 o maxixe “Corta-Jaca” tocou no Palácio do Catete. Chiquinha integrou o grupo fundador da SBAT, entidade de defesa dos direitos de autores teatrais. Seu aniversário, 17 de outubro, é o Dia da Música Popular Brasileira desde a Lei 12.624, de 2012.

Como sabemos

Biografia conferida na Enciclopédia Itaú Cultural e em duas matérias da Agência Brasil; números de obras variam e estão marcados como estimativa.

Em debate: Quanto ela compôs não é consenso: a Enciclopédia Itaú Cultural fala em mais de 77 peças de teatro e cerca de 2 mil músicas, e entrevistas ao público citam números maiores de operetas. A contagem depende do que se considera obra autoral.

Em debate: O título de primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil é repetido pelas fontes biográficas, mas se apoia em registros de época de teatro musicado; vale tratá-lo como reconhecimento histórico, não como contagem exaustiva.

Fontes

  1. Enciclopédia Itaú Cultural — Chiquinha Gonzaga
    consultada em 04/10/2026
  2. Agência Brasil (EBC) — Chiquinha Gonzaga, a criadora da primeira marchinha de carnaval
    consultada em 04/10/2026
  3. Radioagência Nacional (EBC) — História Hoje: Conheça a trajetória da compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga
    consultada em 04/10/2026
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