Zoologia
Chimpanzés têm culturas: grupos diferentes usam ferramentas e gestos diferentes, e não é só por genes ou ambiente
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 1999, pesquisadores reuniram dados de sete comunidades de chimpanzés selvagens, somando 151 anos de observação. Encontraram 39 comportamentos, como ferramentas de caça e formas de catação, que são habituais em algumas comunidades e ausentes em outras sem que o ambiente explique a diferença. Cada comunidade tem um repertório próprio, algo antes associado só a culturas humanas.
Cultura, aqui, tem definição operacional: um comportamento que se espalha por aprendizado social e se torna costume de um grupo, não da espécie inteira. O estudo de 1999, publicado na Nature, comparou comunidades dos sítios de Bossou, Taï, Gombe, Mahale, Kibale e Budongo. Classificou cada comportamento como ausente, presente, habitual ou costumeiro em cada grupo e separou os casos em que a ecologia local poderia explicar a diferença. Sobraram 39 padrões que variam sem esse tipo de explicação. Entre eles estão o uso de gravetos para coletar formigas, a quebra de nozes com martelo e bigorna, a pesca de cupins, o aperto de mãos durante a catação e o corte de folhas. Estudos posteriores testaram a explicação genética e ampliaram a análise para mais comunidades.
Pilhas de pedras sem uso de alimento
Em 2016, pesquisadores descreveram chimpanzés da África Ocidental que batem e arremessam pedras contra árvores ou dentro de ocos, formando pilhas. Foi o primeiro registro repetido de uso de pedras por esses animais sem relação com extrair alimento.
Uma definição de trabalho
Na primatologia, cultura não exige linguagem nem arte. O critério usado no estudo de 1999 é que o comportamento seja costumeiro ou habitual em uma comunidade, ausente em outra e que a diferença não se explique pelo ambiente. Isso deixa de fora comportamentos universais da espécie e os que dependem só de o recurso existir no local.
Por que ambiente e genes foram testados
Duas explicações concorrem com a cultura: genes diferentes entre populações e ambientes diferentes. O estudo de 1999 tratou da segunda ao filtrar os padrões. Em 2007, uma análise cladística tratou da primeira e concluiu que a hipótese genética não explicava a variação melhor do que o aprendizado social.
O ambiente continua importando
O estudo de 2020 comparou 144 comunidades e mostrou que ambientes mais variáveis têm maior diversidade de comportamentos, entre eles os mais distantes dos refúgios florestais do Pleistoceno. Os autores sugerem que a variabilidade estimulou inovação, e que mais da metade desses comportamentos provavelmente é cultural.
Comportamentos que ainda surgem
Em 2016, o grupo do programa PanAf descreveu chimpanzés da África Ocidental batendo e arremessando pedras contra árvores ou em ocos, formando acúmulos. Foi o primeiro registro repetido de uso de pedras sem relação com alimento, e não aparecia em 17 sítios de longo prazo, o que mostra que o repertório conhecido ainda cresce.
Como sabemos
Números centrais vêm de artigos científicos revisados por pares abertos diretamente; a interpretação 'cultura' é o consenso dos autores, com debate sobre o peso do ambiente.
Em debate:
- Fato estabelecido: O estudo de 1999 na Nature sintetizou dados de sete comunidades de chimpanzés em estudos de longo prazo, somando 151 anos de observação. [1]
- Fato estabelecido: Foram identificados 39 padrões de comportamento, incluindo uso de ferramentas, catação e cortejo, que são habituais ou costumeiros em algumas comunidades e ausentes em outras, sem explicação ecológica. [1]
- Fato estabelecido: O repertório combinado de padrões em cada comunidade é distintivo, característica antes associada à cultura humana. [1]
- Fato estabelecido: A variação foi descrita como mais extensa do que a documentada em qualquer outra espécie animal, exceto a humana. [1]
- Fato estabelecido: Os sítios comparados nos 39 padrões foram Bossou, Taï, Gombe, Mahale (grupos K e M), Kibale e Budongo. [2]
- Fato estabelecido: Os padrões incluem coleta de formigas com gravetos, quebra de nozes com martelo e bigorna, pesca de cupins, aperto de mãos na catação e corte de folhas. [2]
- Evidência forte: Análise cladística de 2007 mostrou ajuste pior à árvore genética no nível continental do que no regional, contrariando a hipótese de que genes determinam a variação. [2]
Resultado de um único método (cladística) aplicado ao mesmo conjunto de 39 comportamentos. - Interpretação: Os autores de 2007 concluíram que os padrões são produto de aprendizado social. [2]
Inferência a partir de padrões de distribuição, não observação direta da transmissão em todos os casos. - Fato estabelecido: Em 2016, quatro populações da África Ocidental (Guiné-Bissau, Guiné, Libéria e Costa do Marfim) foram descritas batendo e arremessando pedras contra árvores ou em ocos, formando acúmulos de pedras. [3]
- Fato estabelecido: Foi o primeiro registro de observações repetidas de chimpanzés usando pedras com finalidade diferente de extrair alimento; o comportamento não havia sido visto em 17 sítios de longo prazo. [3]
- Fato estabelecido: Um estudo de 2020 com 144 comunidades e 31 comportamentos mostrou maior diversidade comportamental em ambientes mais variáveis, como os mais distantes dos refúgios florestais do Pleistoceno. [4]
- Interpretação: Os autores de 2020 afirmam que mais da metade dos comportamentos analisados provavelmente é cultural. [4]
Os próprios autores usam 'provavelmente'.
Fontes
- Nature (registro na Universidade de St Andrews) — Cultures in chimpanzees
consultada em 06/10/2026 - PNAS (PubMed Central) — Phylogenetic analyses of behavior support existence of culture among wild chimpanzees
consultada em 06/10/2026 - Scientific Reports (PubMed Central) — Chimpanzee accumulative stone throwing
consultada em 06/10/2026 - Nature Communications (PubMed Central) — Environmental variability supports chimpanzee behavioural diversity
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão