Zoologia
Chimpanzés sabem o que o outro vê e sabe? Balanço de trinta anos de experimentos sobre teoria da mente
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Em experimentos de competição por comida, chimpanzés subordinados pegam com frequência o alimento que o dominante não vê e agem de modo coerente com o que o rival presenciou. Em testes de crença falsa com escolha ativa, porém, eles falham. Um teste de 2016 com rastreio ocular em grandes primatas reacendeu o debate: indicaria compreensão implícita, mas há explicações mais simples.
Teoria da mente é a capacidade de atribuir estados mentais, como percepções, conhecimento e crenças, a outros indivíduos. Em 2008, no aniversário de trinta anos da pergunta de Premack e Woodruff sobre chimpanzés, Call e Tomasello fizeram um balanço da área. Como o animal não responde por palavras, os experimentos medem escolhas: o que um chimpanzé subordinado faz quando um dominante, que costuma tomar toda a comida visível, pode ou não ter visto onde ela está. Crença falsa é a crença de alguém sobre algo que deixou de ser verdade, por exemplo procurar um objeto onde ele estava antes de ser removido na ausência da pessoa. Entendê-la exige separar o que o outro acredita do que é real.
O teste dos óculos
Num experimento de 2019, uma barreira nova parecia a mesma de longe, mas era opaca para alguns grandes primatas e translúcida para outros, que a experimentaram antes. Só os que a sentiram como opaca anteciparam o erro do ator atrás dela.
O experimento de competição: o que ele mede
No arranjo de Hare e colegas, um chimpanzé dominante e um subordinado disputam duas porções de comida. Os dominantes obtinham praticamente toda a comida que viam e alcançavam. O que importa, então, é o que o subordinado consegue quando só ele vê a comida. Como o subordinado pode apenas estar acompanhando o movimento do dominante, o grupo acrescentou uma condição em que ele escolhe antes de o rival ser solto.
Saber e ignorar, sim; crença falsa, não (2008)
Em 2008, Kaminski e colegas testaram chimpanzés e crianças de 6 anos no mesmo paradigma de competição. Os dois grupos distinguiram saber de ignorar, mas só as crianças acertaram o caso de crença falsa. Na revisão do mesmo ano, Call e Tomasello resumiram o quadro como uma psicologia de percepção e objetivo, e não de crença e desejo, e disseram que essa era a conclusão para aquele momento.
O teste de 2016 e por que o método importa
O estudo de 2016 mudou a medida: em vez de pedir uma escolha, registrou o olhar antecipatório dos animais diante de vídeos. O desenho foi adaptado de um teste com bebês humanos, e a comparação com crianças ajuda a entender a diferença. Segundo Kano e colegas, crianças menores de 2 anos passam em versões com medida de olhar, enquanto os testes verbais tradicionais só são passados depois dos 4 anos, e os grandes primatas ainda não passaram em testes de escolha ativa.
O que continua em disputa
Dois pontos seguem abertos. Primeiro, se o olhar antecipatório reflete compreensão implícita de crenças ou processos mais simples: segundo Kano e colegas, Heyes propôs a segunda via. Segundo, se os animais leem estados mentais ou regras de comportamento, questão que o teste dos óculos de 2019 tentou separar usando a experiência própria do animal. Os resultados valem para grandes primatas em ambientes de pesquisa, e um único estudo não fecha a questão.
Como sabemos
Os resultados centrais foram lidos em resumos de periódico; o debate de interpretação segue aberto e parte dele vem de segunda mão.
Em debate: Parte dos pesquisadores vê nos resultados de competição e de rastreio ocular sinais de que grandes primatas representam o que o outro sabe ou acredita. Outros sustentam que os animais respondem a pistas de comportamento ou a processos gerais de aprendizagem, sem atribuir estados mentais.
- Fato estabelecido: Nos experimentos de competição em que um chimpanzé dominante e um subordinado disputavam duas porções de comida, os dominantes obtinham praticamente toda a comida que podiam ver e alcançar, e os subordinados tiveram sucesso com frequência quando tinham melhor acesso visual à comida que o dominante. [2] Resumo
Contexto: Chimpanzés (Pan troglodytes) em competição pareada por comida, em experimentos publicados em 2000. · Limitações: Só o resumo foi lido; tamanho da amostra e estatística não foram conferidos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num dos controles, os subordinados recebiam uma pequena vantagem de partida e tinham de escolher entre a comida que ambos viam e a que só eles viam antes de o dominante ser solto, o que afasta a explicação de que apenas acompanhavam o movimento do rival. [2] Resumo
Contexto: Controle metodológico do estudo de 2000; a ressalva de monitoramento direto vale para as condições sem vantagem de partida. · Limitações: Resumo apenas. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Os autores concluíram que chimpanzés sabem o que membros da própria espécie podem e não podem ver e usam esse conhecimento em situações naturais de competição por comida. [2] Resumo
Contexto: Interpretação dos autores do estudo de 2000, em competição com outros chimpanzés. · Limitações: É a leitura dos autores; outros pesquisadores propõem explicações alternativas (ver a10 e a11). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No mesmo paradigma de competição com um rival da espécie, crianças de 6 anos entenderam tanto a diferença entre saber e ignorar quanto a crença falsa, enquanto os chimpanzés entenderam saber versus ignorar, mas não a crença falsa. [3] Resumo
Contexto: Dois estudos de 2008 com chimpanzés e crianças de 6 anos, com a mesma lógica de competição. · Limitações: Resultado de ausência de desempenho não prova ausência de capacidade; os autores discutem explicações para a falha na tarefa de crença falsa. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Os autores concluíram que, pelo menos em algumas situações, chimpanzés sabem o que os outros sabem. [3] Resumo
Contexto: Conclusão de Kaminski, Call e Tomasello (2008) após descartar explicações alternativas. · Limitações: Conclusão restrita a situações de competição; os autores não afirmam o mesmo para todos os contextos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na revisão de 2008, Call e Tomasello apontaram evidência sólida, vinda de vários paradigmas, de que chimpanzés entendem objetivos, intenções, percepção e conhecimento dos outros, mas nenhuma evidência então disponível de que entendam crenças falsas. [1] Resumo
Contexto: Estado da evidência em 2008, ano da revisão. · Limitações: A frase sobre crença falsa descreve 2008; estudos posteriores, como o de 2016 (a8), mudaram parte do quadro. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Os autores da revisão propuseram que os chimpanzés entendem os outros por uma psicologia de percepção e objetivo, e não por uma psicologia plena de crença e desejo como a humana. [1] Resumo
Contexto: Conclusão provisória de 2008, escrita pelos autores como válida para o momento. · Limitações: Proposta anterior ao teste de rastreio ocular de 2016. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2016, num teste de olhar antecipatório, três espécies de grandes primatas olharam, antes da ação, para o local onde um ator acreditava erroneamente estar um objeto, embora os próprios animais soubessem que o objeto não estava mais lá. [4] Resumo
Contexto: Chimpanzés, bonobos e orangotangos assistindo a vídeos com rastreador ocular. · Limitações: Medida de olhar, não de escolha ativa; vale para grandes primatas em geral, não só para chimpanzés. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Os autores do teste de 2016 interpretaram o resultado como indício de que grandes primatas também entendem crenças falsas, ao menos de forma implícita. [4] Resumo
Contexto: Interpretação dos autores; o estudo usou um desenho adaptado de um teste originalmente feito com bebês humanos. · Limitações: Explicações alternativas de mecanismo mais simples foram propostas (ver a11). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No estudo de rastreio ocular, 41 participantes entre bonobos, chimpanzés e orangotangos assistiram a filmes curtos num monitor, enquanto seu olhar era registrado automaticamente por um rastreador ocular. [5] Three key milestones
Contexto: Descrição do próprio grupo de autores do estudo de 2016, em artigo de 2017 que detalha o desenvolvimento do teste. · Limitações: Artigo de 2017 do mesmo grupo; não é replicação independente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em humanos, só depois dos 4 anos as crianças passam em testes tradicionais de crença falsa com resposta verbal, mas crianças com menos de 2 anos passam em versões modificadas que medem o olhar. Os grandes primatas ainda não passaram em testes de crença falsa que exigem escolha ativa. [5] Discussão
Contexto: Comparação feita pelos autores de 2017; o limite de idade vale para os testes verbais tradicionais. · Limitações: Os psicólogos do desenvolvimento ainda debatem o que diferenças entre medidas de olhar e de escolha significam, segundo o próprio artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Segundo Kano e colegas, Heyes propôs que processos gerais de aprendizagem, chamados de submentalização, podem explicar os resultados do teste de 2016 sem que os animais atribuam crenças. [5] Future directions
Contexto: Crítica citada de segunda mão: foi lida em Kano et al. (2017), não no texto de Heyes. · Limitações: Descrita pelos autores do estudo criticado; a proposta original de Heyes não foi lida. · Hipótese alternativa levantada na literatura, descrita aqui pelos autores do estudo a que ela responde. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num teste de óculos de 2019, só os grandes primatas que haviam experimentado a barreira como opaca anteciparam que o ator procuraria o objeto no lugar errado, o que sugere uso da própria experiência de ver ou não ver através da barreira. [6] Resumo
Contexto: Estudo com grandes primatas (chimpanzés, bonobos e orangotangos) em rastreio ocular, barreira nova idêntica à vista nas duas condições. · Limitações: Resultado de um único estudo; ainda sem replicação independente citada nas fontes lidas. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Segue controverso se alguma espécie não humana possui teoria da mente, em parte porque a conta da regra de comportamento sustenta que os animais respondem a pistas do comportamento alheio e não a estados mentais. [6] Resumo
Contexto: Estado do debate descrito pelos autores em 2019. · Limitações: Descrição de 2019; não verifiquei se houve mudança posterior. · Há divergência real publicada entre pesquisadores sobre o que os testes comportamentais demonstram. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O artigo de revisão de 2008 foi publicado no aniversário de trinta anos do artigo de Premack e Woodruff que perguntava se chimpanzés têm teoria da mente. [1] Resumo
Contexto: Marco histórico da pergunta; o ano do artigo original não é dado no resumo. · Limitações: Trecho curto; o ano de 1978 do artigo original não aparece no texto lido e por isso não é afirmado. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Trends in Cognitive Sciences — Does the chimpanzee have a theory of mind? 30 years later
Call, J.; Tomasello, M. · 2008 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.tics.2008.02.010 - Animal Behaviour — Chimpanzees know what conspecifics do and do not see
Hare, B.; Call, J.; Agnetta, B.; Tomasello, M. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1006/anbe.1999.1377 - Cognition — Chimpanzees know what others know, but not what they believe
Kaminski, J.; Call, J.; Tomasello, M. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.cognition.2008.08.010 - Science — Great apes anticipate that other individuals will act according to false beliefs
Krupenye, C.; Kano, F.; Hirata, S.; Call, J.; Tomasello, M. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aaf8110 - Communicative & Integrative Biology — Eye tracking uncovered great apes' ability to anticipate that other individuals will act according to false beliefs
Kano, F.; Krupenye, C.; Hirata, S.; Call, J. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1080/19420889.2017.1299836 - Proceedings of the National Academy of Sciences — Great apes use self-experience to anticipate an agent's action in a false-belief test
Krupenye, C.; Call, J. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1910095116
Histórico de alterações
- Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)