Paleontologia

As provas de que um asteroide atingiu a Terra há cerca de 66 milhões de anos

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em 1980, uma equipe liderada por Luis e Walter Alvarez mostrou que uma fina camada de argila, depositada na época da extinção em massa que encerrou o Cretáceo, tem irídio em quantidade muito acima da normal na crosta terrestre. O elemento é mais comum em meteoritos. A hipótese era a de um impacto gigante. A prova veio depois: a cratera de Chicxulub, no México, com 180 a 200 km de diâmetro, tem a mesma idade da camada.

Os Alvarez mediram irídio de 20 a 160 vezes acima do nível de fundo em calcários marinhos da Itália, da Dinamarca e da Nova Zelândia, exatamente no nível da extinção. Faltava o local do impacto. A pista veio do Haiti: ali o limite entre o Cretáceo e o Paleógeno tem cerca de 46 cm de esférulas de rocha fundida, contra cerca de 1 cm no Colorado e no Novo México, o que apontava para a região do Golfo do México. A estrutura soterrada na península de Yucatán já era conhecida por levantamentos geofísicos e poços da petroleira Pemex, mas fora tomada por vulcânica. Em 1991, amostras do poço Yucatán-6 mostraram quartzo e feldspato chocados e rocha fundida, marcas de impacto. A estrutura foi então reconhecida como cratera e ligada ao limite K-Pg.

A cratera foi perfurada em 2016

A expedição 364 perfurou o anel de picos de Chicxulub e recuperou testemunho de 505,7 a 1.334,7 m abaixo do fundo do mar, com recuperação acima de 99%. Em 2021, quatro laboratórios acharam irídio nos sedimentos logo acima do anel, sob o primeiro calcário do Daniano: a assinatura da camada global, dentro da própria cratera.

A camada de irídio

Metais do grupo da platina são raros na crosta terrestre em comparação com a abundância cósmica. Por isso, um aumento de irídio em sedimentos sugere material extraterrestre. Em 1980, Luis Alvarez, Walter Alvarez, Frank Asaro e Helen Michel registraram esse pico em três países, no nível exato da extinção, e afastaram a hipótese de uma supernova próxima. A explicação proposta foi um asteroide de cerca de 10 km.

A assinatura de um impacto

O irídio sozinho não bastava. O quartzo chocado, com camadas de vidro ao longo de planos do cristal, só se forma sob pressões extremas e é diagnóstico de impacto. Quando as esférulas de rocha fundida e esses grãos apareceram no Haiti em camada espessa, a hipótese ganhou um endereço provável: uma região de crosta continental perto do Golfo do México, e não um impacto no oceano profundo, como muitos pensavam até então.

Reconhecer a cratera

A estrutura circular de Yucatán fora detectada por geofísica e poços exploratórios, mas descrita como vulcânica. Em 1991, amostras do poço Yucatán-6, de 1,2 e 1,3 km de profundidade, mostraram feições que só um impacto produz. O trabalho foi apresentado por Kring, Hildebrand e Boynton, no mesmo congresso em que Penfield e Camargo descreveram a geofísica. A energia do impacto foi estimada em cerca de 100 milhões de megatons de TNT.

O que ainda se discute

Na mesma época do impacto, o Decã, na Índia, despejava enormes volumes de basalto. A síntese publicada na Science em 2010 reuniu os registros globais e concluiu que o impacto de Chicxulub desencadeou a extinção: o depósito de ejeta é o mesmo em todo o mundo e coincide com o início das perdas. O papel do vulcanismo, como fator de estresse que pode ter agravado o quadro, continua em estudo.

Como sabemos

A ligação entre o impacto de Chicxulub e o limite K-Pg é consenso apoiado por irídio, quartzo chocado, ejeta global e perfuração direta da cratera; só o papel do vulcanismo do Decã permanece em debate.

Em debate: Antes da descoberta da cratera, parte dos geólogos atribuía a extinção ao vulcanismo do Decã (Índia), que ocorreu na mesma época. A síntese de Schulte e colegas (Science, 2010) concluiu que o impacto desencadeou a extinção, mas o vulcanismo é considerado por muitos um fator de estresse ambiental somado ao impacto; o peso relativo de cada causa segue em estudo.

Em debate: A data do evento mudou com o tempo: 65 milhões de anos em 1980, cerca de 66 milhões de anos hoje, com refinamentos de datação.

Fontes

  1. Science — Extraterrestrial cause for the Cretaceous-Tertiary extinction
    consultada em 04/10/2026
  2. Science — The Chicxulub asteroid impact and mass extinction at the Cretaceous-Paleogene boundary
    consultada em 04/10/2026
  3. Lunar and Planetary Institute (USRA) — Chicxulub Impact Event: Discovery
    consultada em 04/10/2026
  4. GSA Today, Geological Society of America — Chicxulub and the Exploration of Large Peak-Ring Impact Craters through Scientific Drilling
    consultada em 04/10/2026
  5. Science Advances — Globally distributed iridium layer preserved within the Chicxulub impact structure
    consultada em 04/10/2026
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