Ecologia
Cerrado e fogo: um bioma cujas plantas evoluíram com as chamas
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
No Cerrado, o fogo não é um visitante recente. Pesquisadores estimam que queimadas ocorrem ali há pelo menos 4 milhões de anos, e muitas plantas lenhosas carregam essa história no corpo: casca grossa, que protege as gemas, e órgãos subterrâneos de onde a planta rebrota. Estudo com espécies lenhosas mostrou que elas combinam as duas estratégias, em vez de escolher uma só.
Nas savanas do Cerrado, a casca grossa isola do calor os tecidos vivos e as gemas do tronco. Abaixo do solo, estruturas como rizomas lenhosos, xilopódios e coroas de raiz guardam gemas que sobrevivem à queimada e rebrotam depois. Em um estudo no Estado de São Paulo, espécies de savana produziram cerca de três vezes mais casca do que espécies de floresta do mesmo bioma. Entre as ervas, uma parte floresce estimulada pelo fogo. Mas adaptação não significa que mais fogo seja melhor: queimadas bienais repetidas no Distrito Federal estimularam rebrota, reduziram a biomassa aérea e aumentaram a mortalidade de plantas.
Nem a flor depende sempre do fogo
A erva Bulbostylis paradoxa era tida como dependente do fogo para florescer. Em teste, floresceram 65,7% das plantas queimadas, 48,6% das cortadas e 11,4% das intactas. O fogo estimula, mas não é condição obrigatória.
Proteger e esconder
Um estudo com espécies lenhosas do Cerrado, publicado na revista Flora em 2023, mostrou que as plantas não escolhem entre proteger e esconder. Elas produzem casca espessa acima do solo e mantêm órgãos de rebrota abaixo dele. Assim, resistem a queimadas de intensidades diferentes, segundo os autores: a casca protege as gemas do tronco e os órgãos enterrados garantem a rebrota.
Duas formas de rebrotar
Os pesquisadores distinguiram a rebrota clonal, com rizomas lenhosos que originam novos ramos a distância, da persistência no lugar, com xilopódios e coroas de raiz. O xilopódio não promove crescimento clonal. Espécies clonais produziram mais casca e cresceram mais do que as não clonais, no estudo conduzido na Estação Ecológica de Santa Bárbara, em São Paulo.
Flor depois do fogo
Parte das ervas e gramíneas do Cerrado floresce com mais frequência depois de uma queimada. Um estudo de 2024 testou a erva Bulbostylis paradoxa, antes classificada como dependente do fogo. Ela floresceu também sem queima, em menor proporção. Por isso, os autores a tratam como estimulada pelo fogo, não dependente dele, o que mostra o valor de testar classificações antigas.
Adaptado não é imune
Na Embrapa, queimadas bienais repetidas no Distrito Federal foram comparadas a uma área protegida do fogo até um incêndio acidental em 1994. Nas queimadas frequentes, as plantas rebrotaram mais, mas a biomassa aérea e o recrutamento caíram e a mortalidade subiu. O bioma convive com o fogo, mas a frequência da queima importa para a vegetação.
Como sabemos
Achados de estudos publicados lidos em sumário institucional e PMC; os 4 milhões de anos são estimativa mínima.
- Estimativa: Queimadas ocorrem no Cerrado há pelo menos 4 milhões de anos. [3]
Valor citado no artigo da PLoS One 2024; é estimativa mínima, não data exata. - Evidência forte: Casca grossa, gemas protegidas e rebrota a partir de órgãos subterrâneos são traços associados à adaptação ao fogo no Cerrado. [1] [3]
- Evidência forte: Espécies lenhosas do Cerrado combinam proteção (casca) e rebrota por órgãos subterrâneos, em vez de usar só uma estratégia. [1]
- Fato estabelecido: A produção de casca chegou a até 0,9 mm por unidade de crescimento nas espécies estudadas. [1]
- Fato estabelecido: Foram identificadas duas formas de rebrota: clonal (rizomas lenhosos) e no lugar (xilopódios e coroas de raiz). [1]
- Fato estabelecido: Espécies de savana produziram cerca de três vezes mais casca do que espécies de floresta, na Estação Ecológica de Santa Bárbara (SP). [2]
- Estimativa: Entre 12% e 33% das espécies do estrato herbáceo apresentam floração relacionada ao fogo. [3]
Faixa citada no artigo; varia entre estudos. - Fato estabelecido: Em Bulbostylis paradoxa, floresceram 65,7% das plantas queimadas, 48,6% das cortadas e 11,4% das controles intactas. [3]
- Fato estabelecido: Queimadas bienais em 1988, 1990 e 1992 em Planaltina (DF) estimularam a reprodução assexuada por rebrota. [4]
- Fato estabelecido: Essas queimadas frequentes reduziram a biomassa aérea e o recrutamento e aumentaram a mortalidade de plantas. [4]
- Interpretação: Os autores do estudo de Santa Bárbara defendem queima controlada em zonas e rotações, e não queima indiscriminada. [2]
Fontes
- Agência FAPESP — Plants in the Cerrado combine at least two strategies to survive fire, study shows
consultada em 06/10/2026 - Agência FAPESP — Árvores de savana do Cerrado produzem três vezes mais casca do que espécies presentes em área de floresta
consultada em 06/10/2026 - PLoS One / PubMed Central — Beyond fire: Flower production naturally occurs and is also influenced by leaf removal in a Neotropical savanna herb
consultada em 06/10/2026 - Embrapa — Dinâmica pós-fogo da vegetação arbóreo-arbustiva em cerrado sentido restrito no Distrito Federal
consultada em 06/10/2026
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