Astronomia

Chandrasekhar calculou aos 19 anos o limite de massa das estrelas anãs brancas, e Eddington o chamou de absurdo

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em 1930, aos 19 anos, o indiano Subrahmanyan Chandrasekhar aplicou a relatividade restrita ao gás de elétrons de uma anã branca e viu que a pressão que sustenta a estrela deixa de crescer depressa o bastante. O resultado é uma massa máxima: cerca de 1,4 massa solar com a composição hoje adotada. Em janeiro de 1935, diante da Royal Astronomical Society, Arthur Eddington rejeitou a conclusão. Os físicos concordaram com Chandrasekhar, mas quase só em particular.

Uma anã branca é um astro de densidade extraordinária. Em 1926, Ralph Fowler explicou que o que a segura contra a gravidade é a pressão quântica dos elétrons, a degenerescência. Chandrasekhar, nascido em Lahore em 1910 e estudante em Madras, leu Fowler, aprendeu a estatística de Fermi com artigos de Sommerfeld e percebeu o que Fowler não tratara: nas anãs mais pesadas, os elétrons do centro andam perto da velocidade da luz. A relação entre pressão e densidade muda de potência 5/3 para 4/3 e o raio tende a zero ao chegar a uma massa-limite. Fowler e Milne resistiram à ideia, e o artigo só saiu em julho de 1931, no Astrophysical Journal. Em 11 de janeiro de 1935, Eddington o atacou em público. Chandrasekhar passou a se dedicar a outros temas e, em 1937, já estava em Chicago.

Um limite que já tinha rascunhos

Chandrasekhar não foi o primeiro a esbarrar no teto. Em 1928, o soviético Yakov Frenkel estimou um máximo de massa, e ninguém notou. Em 1929 e 1930, Wilhelm Anderson, na Estônia, e Edmund Stoner, em Cambridge, trataram do problema. Stoner achou cerca de 1,1 massa solar, com densidade uniforme.

De onde veio a ideia

Em 1928, o físico Arnold Sommerfeld visitou Madras e deu a Chandrasekhar provas de um artigo sobre elétrons em metais. Era a estatística de Fermi, que o estudante ainda não conhecia. Ele leu também o livro de Eddington sobre a estrutura interna das estrelas e o artigo de Fowler sobre anãs brancas. Percebeu que ali havia um problema que ele conseguia atacar.

O que o cálculo mostrou

Num gás de elétrons degenerado, a pressão depende da densidade. Se os elétrons andam devagar, a pressão sobe com a potência 5/3. Perto da velocidade da luz, a potência cai para 4/3, e o raio vai a zero quando a massa chega a um valor-limite. Acima dele, esse tipo de pressão não sustenta uma anã branca.

Por que Eddington resistiu

Eddington julgava que a fórmula relativística combinava relatividade com teoria quântica não relativística, e por isso desconfiava do alicerce físico. Uma estrela acima do limite continuaria encolhendo sem parar, o que ele considerou absurdo. Chandrasekhar contou depois que os astrônomos o viam como um Dom Quixote tentando matar Eddington. Ele mudou de tema.

O que ficou

Em 1939, Chandrasekhar reuniu a teoria no livro An Introduction to the Study of Stellar Structure. Em 1983, recebeu o Nobel de Física. Ele próprio disse que Eddington poderia ter previsto estrelas colapsadas e que a ideia teve de esperar trinta anos. Hoje o limite costuma ser citado como cerca de 1,4 massa solar.

Como sabemos

Fatos centrais confirmados em artigo de história da ciência, biografia do MacTutor e página do astrofísico Jonathan McDowell; datas e citações cruzadas.

Em debate: Eddington sustentou em 1935 que a fórmula relativística da degenerescência era errada. Chandrasekhar, Møller e os físicos de seu círculo defenderam a fórmula. Os físicos concordaram com Chandrasekhar; entre os astrônomos, Eddington ainda era visto como autoridade.

Fontes

  1. Luisa Bonolis, Max Planck Institut für Wissenschaftsgeschichte · European Physical Journal H — Stellar structure and compact objects before 1940: Towards relativistic astrophysics
    consultada em 06/10/2026
  2. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Subrahmanyan Chandrasekhar
    consultada em 06/10/2026
  3. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Chandrasekhar and Eddington
    consultada em 06/10/2026
  4. Jonathan McDowell, Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics — Subrahmanyan Chandrasekhar
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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