Astronomia

Cecilia Payne mostrou em 1925 que as estrelas são feitas sobretudo de hidrogênio e hélio

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

Em 1925, na tese de doutorado em Harvard, a astrônoma Cecilia Payne concluiu que as estrelas são compostas principalmente de hidrogênio e hélio, e não de elementos como os da Terra. Henry Norris Russell, que contradisse o resultado, chegou à mesma conclusão por outro método em 1929. Payne acrescentou à tese a ressalva de que as abundâncias eram "quase certamente irreais", mas manteve os cálculos.

Antes de Payne, a visão dominante era que Sol e estrelas teriam composição parecida com a da Terra, ricos em metais. Em Harvard, Annie Jump Cannon havia classificado espectros de estrelas em classes (O, B, A, F, G, K, M), mas ninguém sabia o que a diferença entre elas significava. Payne usou a equação de ionização do físico indiano Meghnad Saha (1920) para corrigir o efeito da temperatura: uma linha fraca no espectro pode significar pouco elemento ou um elemento ionizado demais para absorver naquela linha. Corrigido o efeito, o hidrogênio e o hélio apareciam como dominantes. Na época isso parecia absurdo, e o astrônomo que dominava o assunto, Henry Norris Russell, de Princeton, discordou.

A ressalva que registrou a prioridade

Sob pressão de seus orientadores, Payne escreveu na tese que a abundância de hidrogênio e hélio era "quase certamente irreal". Os cálculos ficaram na página. Quatro anos depois, Russell publicou resultado semelhante, e por décadas muitos livros o citaram como autor da descoberta.

O catálogo que ninguém sabia ler

No Observatório de Harvard, Annie Jump Cannon (1863-1941) classificou espectros de estrelas em classes de tipo O, B, A, F, G, K e M, num esquema publicado no início do século XX. A classificação era empírica: ordenava as estrelas pela aparência das linhas de absorção, sem dizer por que elas variavam. Era a base de dados que Payne tinha em mãos quando chegou a Harvard em 1923, depois de estudar física em Cambridge.

A ferramenta indiana

A peça que faltava veio do físico indiano Meghnad Saha, que em 1920 publicou a equação que liga temperatura e grau de ionização de um gás. Com ela, Payne pôde corrigir o efeito da temperatura nas linhas de cada elemento. Sem essa correção, uma linha fraca de hidrogênio parecia dizer que havia pouco hidrogênio; corrigida, indicava o contrário, porque o hidrogênio estava em um estado de energia que quase não absorve naquela linha.

O desacordo com Russell

Henry Norris Russell, de Princeton, era a maior autoridade do assunto e sustentava que as estrelas teriam composição metálica como a da Terra. Contradisse o resultado de Payne, e ela incluiu na tese a ressalva de que as abundâncias eram quase certamente irreais. Em 1929 Russell chegou a conclusão semelhante por outro caminho, e o crédito passou a ir para ele, por décadas.

Depois da tese

Payne ficou em Harvard e deu aulas por mais de 20 anos sem o título de professora. Foi assistente técnica de Shapley em 1927 e astrônoma só em 1938. Em 1956 foi promovida a professora titular, a primeira mulher na Faculdade de Artes e Ciências, e chefiou o departamento de Astronomia até 1960. Depois da aposentadoria, trabalhou no Observatório Astrofísico Smithsonian.

Como sabemos

O núcleo (tese de 1925, oposição de Russell, ressalva, primeira titular em 1956) está em fontes abertas; detalhes como o ano de 1929 e a frase de Russell vêm de fonte secundária.

Em debate: Russell chegou a conclusão semelhante em 1929 por outro método e por décadas foi citado como autor; historiadores apontam que Payne chegou primeiro, em 1925, e que a ressalva na tese foi uma concessão à pressão dos orientadores, não uma retratação.

Fontes

  1. Science History Institute — Cecilia Payne-Gaposchkin
    consultada em 11/10/2026
  2. MacTutor, Universidade de St Andrews — Cecilia Helena Payne-Gaposchkin
    consultada em 11/10/2026
  3. American Physical Society — Cecilia Payne-Gaposchkin
    consultada em 11/10/2026
  4. National Women's History Museum — Cecilia Payne-Gaposchkin
    consultada em 11/10/2026
  5. NASA — Sun Facts
    consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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