Fenômenos naturais
Maré vermelha não tem a ver com maré: é uma floração de algas, e a cor depende da espécie
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
O que se chama de maré vermelha é uma floração de algas microscópicas que se multiplicam muito além do normal. Luz, calor, nutrientes, salinidade e correntes favorecem o crescimento. A água pode ficar vermelha, marrom ou, no caso de cianobactérias, verde-azulada, conforme a espécie. Algumas florações liberam toxinas; outras só consomem o oxigênio da água quando morrem e se decompõem.
A NOAA, agência oceânica dos Estados Unidos, prefere o termo floração de algas nocivas (HAB, na sigla em inglês), porque o fenômeno não é uma maré. A cor vem do pigmento da espécie que domina: há florações avermelhadas, amarronzadas e, em águas doces ou salobras, verdes por causa de cianobactérias. Nem toda floração é perigosa, e nem toda floração perigosa muda a cor da água. Os danos chegam por dois caminhos: toxinas que atingem o sistema nervoso e outros órgãos, e a queda do oxigênio dissolvido quando a massa de algas morre e é decomposta. Sem cor visível, a única forma de saber é medir a água.
No Brasil, a água vermelha nem sempre é a tóxica
Em janeiro de 2025, o INPE detectou por satélite uma mancha vermelha entre São Sebastião e Ilhabela (SP), causada por Mesodinium rubrum, que não é tóxico. Ele serve de alimento a Dinophysis, gênero que pode produzir toxinas perigosas em mariscos.
Por que o nome engana
Maré, em oceanografia, é a subida e descida do nível do mar causada por Lua e Sol. A floração de algas não tem relação com isso. A NOAA usa floração de algas nocivas justamente por esse motivo, e porque a água nem sempre fica vermelha: depende do organismo dominante, que pode tingi-la de marrom ou, no caso das cianobactérias, de verde ou azul-esverdeado.
O que faz as algas explodirem
Calor, luz abundante, nutrientes, salinidade e correntes influenciam o crescimento. Nutrientes vindos de rios, esgoto e agricultura podem sustentar uma floração depois que ela chega perto da costa. Por isso a mesma baía pode ter anos tranquilos e anos de floração, conforme chuva, temperatura e vento mudam.
Dois modos de matar
O primeiro é a toxina. A brevetoxina da Karenia brevis, na Flórida, prende canais de sódio das células nervosas em estado ativo e atrapalha a transmissão do impulso. O segundo é o oxigênio: quando a floração morre, a decomposição consome o gás dissolvido, e peixes e invertebrados fogem ou sufocam. Em águas estratificadas, o fundo não recebe oxigênio novo, e surge uma zona morta, com 2 mg/L ou menos.
Do mar ao prato
Mariscos filtram a água e acumulam toxinas sem adoecer da mesma forma. Quem os come pode sofrer intoxicação, e por isso autoridades fecham áreas de cultivo durante florações. No litoral brasileiro, a vigilância combina satélite, como o do INPE, e análises de água. Uma mancha vermelha não indica sozinha se há toxina.
Como sabemos
Mecanismos gerais confirmados em NOAA e revisão científica; os dados brasileiros vêm de reportagem que cita o INPE, não de fonte primária aberta.
- Fato estabelecido: A NOAA prefere o termo floração de algas nocivas a maré vermelha, porque o fenômeno não é uma maré. [1]
- Fato estabelecido: Floração de algas nocivas é o crescimento descontrolado de algas que produz efeitos tóxicos ou nocivos para pessoas, peixes, moluscos, mamíferos marinhos e aves. [1]
- Consenso científico: Temperatura da água, luz, nutrientes, salinidade e padrão de correntes influenciam o desenvolvimento das florações. [1]
- Fato estabelecido: A cor da água varia conforme a espécie: florações marinhas podem deixá-la vermelha ou marrom; cianobactérias costumam deixá-la verde ou azul-esverdeada. [1]
- Fato estabelecido: Florações matam organismos por toxinas que atacam sistema nervoso e órgãos e por esgotamento do oxigênio da água. [1]
- Fato estabelecido: A decomposição das algas pode baixar o oxigênio a ponto de os animais fugirem da área ou morrerem. [1]
- Fato estabelecido: A floração da Flórida é causada pelo crescimento rápido de Karenia brevis, que produz neurotoxinas potentes. [2]
- Fato estabelecido: A Karenia brevis pode deixar a água de um vermelho intenso e provocar mortandade de peixes, tartarugas, aves e mamíferos marinhos. [2]
- Fato estabelecido: As brevetoxinas ligam-se a canais de sódio dependentes de voltagem das células nervosas, causando ativação persistente e interferindo na transmissão nervosa. [3]
- Fato estabelecido: Moluscos filtradores acumulam brevetoxinas e podem causar intoxicação neurotóxica em quem os come; por isso há fechamento de áreas de coleta. [2] [3]
- Fato estabelecido: Hipóxia, base das zonas mortas, é definida como 2 mg/L de oxigênio ou menos junto ao fundo. [5]
- Consenso científico: Excesso de nitrogênio e fósforo (agricultura, queima de combustíveis, esgoto) estimula algas; sua morte e decomposição consome o oxigênio, e a estratificação da água limita a reposição. [5]
- Fato estabelecido: Em janeiro de 2025, o INPE detectou por satélite uma mancha vermelha na região de São Sebastião e Ilhabela (SP), atribuída a Mesodinium rubrum. [4]
- Fato estabelecido: Mesodinium rubrum não é tóxico, mas serve de alimento a Dinophysis, que pode produzir toxinas perigosas à saúde humana. [4]
- Fato estabelecido: Em 2016, uma floração de Dinophysis levou a embargos comerciais de ostras e mexilhões no litoral de São Paulo e Santa Catarina. [4]
Fontes
- NOAA National Ocean Service — Harmful Algal Blooms
consultada em 06/10/2026 - NOAA National Ocean Service — Harmful Algal Blooms in the Gulf region (Florida red tide)
consultada em 06/10/2026 - Ecotoxicology (Pierce e Henry, Mote Marine Laboratory), 2008, via PubMed Central — Harmful algal toxins of the Florida red tide (Karenia brevis): natural chemical stressors in South Florida coastal ecosystems
consultada em 06/10/2026 - CNN Brasil (reportagem com dados do INPE e do CEBIMar-USP) — Maré vermelha deixa litoral norte de SP em alerta; entenda
consultada em 06/10/2026 - NOAA National Ocean Service — Hypoxia and Dead Zones
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão