Fenômenos naturais
Catarina, 2004: como um ciclone extratropical virou furacão perto do Brasil e por que o nome foi disputado
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
O Catarina nasceu em 19 de março de 2004 como um ciclone extratropical fraco ao largo do Sul do Brasil. Um bloqueio atmosférico o fez voltar para oeste, rumo a uma região de pouco vento em altitude, onde ganhou estrutura tropical e, por análise de satélite, chegou a furacão. Atingiu Santa Catarina e o norte do Rio Grande do Sul em 27 e 28 de março. O nome "furacão" foi alvo de debate científico.
Ciclone extratropical, segundo um levantamento da UFSC, é um distúrbio atmosférico que se propaga ao longo de frentes polares e é relativamente comum no Atlântico Sul. O Catarina começou assim, mas ao fim de uma semana tinha olho e circulação em espiral nas imagens de satélite. Este post conta o caso: a sequência de 19 a 28 de março, a disputa pelo nome, os danos e a previsão. O bloqueio atmosférico que mudou o rumo da tempestade é explicado na primeira seção. As condições gerais de formação de ciclones tropicais e o motivo de eles serem raros no Atlântico Sul estão em posts próprios.
No olho, calmaria; depois, o vento voltou do lado oposto
Em Balneário Arroio do Silva (SC), pesquisadores da UFSC que acompanharam a passagem descrevem três fases: ventos do sul, a calmaria do olho, com baixa pressão e calor, e ventos do norte ainda mais destrutivos.
De uma baixa fraca a um furacão em nove dias
O precursor saiu da costa Sul do Brasil em 19 de março de 2004 e seguiu para leste-sudeste. Ao encontrar um bloqueio em dipolo, o avanço parou e o sistema voltou para oeste. Na região de cisalhamento fraco que o bloqueio criou, iniciou a transição tropical sobre mar de cerca de 25 °C, com ar frio em altitude sustentando a intensidade potencial. A saída de ar quente das trovoadas reforçou o bloqueio e acelerou o sistema rumo a Santa Catarina. Na análise dos autores, chegou à categoria 1 em 26 de março e tocou a costa em 28 de março.
Furacão, extratropical ou híbrido
A UFSC resume o impasse: muitos pesquisadores defendiam que o Catarina foi um ciclone tropical, outros o chamavam de extratropical ou híbrido. McTaggart-Cowan e colegas usaram "hurricane" de propósito, e pesquisadores do INPE o descrevem como o primeiro com características de furacão na fase madura. Um workshop no INPE em junho de 2005 concluiu, segundo reportagem citada pela UFSC, que foi classificado como furacão sem ter exibido características típicas na formação. O nome "Catarina" nunca foi oficial.
O que o vento fez
Segundo o levantamento da UFSC com os formulários oficiais de danos, 53.728 edificações foram danificadas e 2.194 destruídas na região Sul catarinense, com perdas de R$ 211,5 milhões. A NOAA cita US$ 350 milhões e três mortes; a UFSC conta 2 vítimas fatais em terra e outras no mar; o INPE cita 4 mortes e 7 marinheiros desaparecidos. O INPE situa os efeitos no sul de Santa Catarina e no norte do Rio Grande do Sul.
Como sabemos: a força de uma tempestade que ninguém mediu por dentro
McTaggart-Cowan e colegas estimam 85 nós de vento máximo com base sobretudo em imagens de satélite. A UFSC fez o caminho inverso: percorreu 22 municípios, aplicou 161 questionários, classificou cerca de 260 pontos com GPS pelo grau de destruição e comparou com a escala Saffir-Simpson, chegando à classe 2. A estação oficial de Siderópolis, a 50 km do olho, marcou 146,7 km/h. Cada método tem limite próprio, e por isso a categoria exata segue discutida.
Previsão: o que falhou e o que funcionou
Os modelos numéricos subestimaram a intensidade: o ETA do CPTEC produziu um centro de baixa pressão da ordem de 1009 mb. McTaggart-Cowan e colegas lembram que nunca antes se registrara furacão ali e que o mar estava abaixo da média, o que complicou a previsão. A UFSC registra que moradores se confundiram com previsões divergentes na TV, mas que 96% dos entrevistados sabiam do furacão.
Como sabemos
A sequência meteorológica vem de um artigo revisado lido na íntegra, e danos e debate de dois documentos brasileiros; a classificação e o papel do oceano seguem em debate e o artigo de Pezza e Simmonds não foi lido.
Em debate: Entre 2004 e 2006 especialistas brasileiros e estrangeiros divergiram sobre o enquadramento do Catarina; os estudos citados aqui o tratam como furacão de categoria 1 ou 2, e a transição de extratropical a tropical é descrita como incomum.
Em debate: McTaggart-Cowan e colegas destacam o ar frio em altitude sobre mar abaixo da média; um estudo do INPE destaca o aquecimento pela Corrente do Brasil.
Em debate: A categoria depende de como se estima o vento: satélite aponta categoria 1 no pouso; o levantamento de danos da UFSC aponta classe 2.
- Consenso científico: O Catarina, em março de 2004, marcou a primeira vez em que a existência de um furacão foi confirmada por análise e imagens de satélite na bacia do Atlântico Sul; antes disso, a NASA registrava só dois ciclones tropicais ali, nenhum furacão. [1] Abstract [5] Texto principal
Contexto: Era dos satélites; a NASA escreve em abril de 2004, logo após o evento. · Limitações: "Primeiro" vale para a confirmação por análise e imagens de satélite, como a fonte delimita ("to our knowledge"); a classificação como furacão é discutida (a7). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O Catarina começou como um precursor extratropical que saiu da costa Sul do Brasil em 19 de março de 2004 e seguiu para leste-sudeste; ao encontrar um bloqueio em dipolo a leste da América do Sul, o avanço para leste parou e o sistema foi empurrado de volta para oeste, rumo à costa brasileira. [1] Abstract
Contexto: Análise de um único evento. Bloqueio em dipolo é um par formado por um ciclone isolado em latitude mais baixa e um anticiclone em latitude mais alta. · Limitações: A definição de bloqueio em dipolo é nossa leitura da explicação do artigo (um ciclone isolado de baixa latitude preso a um anticiclone de latitude alta). Datas em UTC. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na região de cisalhamento vertical fraco que o bloqueio criou, o Catarina iniciou o processo de transição tropical, isto é, a mudança de estrutura de ciclone extratropical para tropical. [1] 1. Introduction
Contexto: Cisalhamento vertical é a variação do vento com a altitude; quando é fraco, as trovoadas conseguem se organizar em torno de um centro. · Limitações: A explicação é a proposta pelos autores para este caso. A definição de cisalhamento é conceito geral (ver o post sobre a raridade de furacões no Atlântico Sul). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A transição ocorreu sobre água de cerca de 25 °C, 0,5 °C abaixo da média do local, e o ar frio em altitude do bloqueio sustentou uma intensidade potencial elevada. [1] Abstract
Contexto: Centro do Catarina, março de 2004. Intensidade potencial é a intensidade máxima que o ambiente térmico permite a um ciclone. · Limitações: Há divergência sobre o papel do mar (a9): a NOAA descreve o Catarina sobre águas quentes e um estudo do INPE destaca a Corrente do Brasil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A saída de ar quente das trovoadas do sistema reforçou a parte de alta pressão do bloqueio e acelerou o Catarina para oeste, em direção a Santa Catarina. [1] Abstract
Contexto: Convecção é a subida de ar úmido que forma as trovoadas; o artigo descreve a retroalimentação entre o furacão e o bloqueio. · Limitações: Resultado de diagnóstico de um caso, com análises numéricas de resolução de 1 grau; não é uma medição direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Segundo McTaggart-Cowan e colegas, o Catarina atingiu a categoria 1 da escala Saffir-Simpson em 26 de março, chegou a ventos máximos estimados de 85 nós em 28 de março e tocou a costa por volta das 0900 UTC desse dia, enfraquecendo logo depois; a intensidade se baseia sobretudo em imagens de satélite. [1] 5. Summary and discussion
Contexto: Estimativas de pico e hora do pouso para o sistema como analisado pelos autores; horários em UTC (Brasília está 3 horas atrás). · Limitações: O próprio artigo registra pequenas diferenças de horário entre a seção 3a (categoria 1 às 0000 UTC) e o resumo final (0600 UTC) de 26 de março. 85 nós equivalem a cerca de 157 km/h (cálculo nosso, 1 nó = 1,852 km/h). O artigo chama de "nominal category-1" o furacão no pouso, após o enfraquecimento. · Intensidade estimada por satélite, sem medição direta no núcleo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: A classificação do Catarina gerou controvérsia na comunidade científica: muitos pesquisadores o defenderam como ciclone tropical (furacão), outros como ciclone extratropical ou fenômeno híbrido; McTaggart-Cowan e colegas dizem usar "hurricane" de propósito, e um workshop no INPE em junho de 2005 concluiu, segundo reportagem citada pela UFSC, que foi classificado como furacão. [2] Introdução [1] 1. Introduction
Contexto: Debate de nomenclatura de 2004 a 2006, no Brasil e no exterior. · Limitações: A conclusão do workshop de 2005 é de segunda mão: a UFSC cita o Jornal da Ciência nº 2802, de 1 de julho de 2005, que não lemos. Notas de órgãos brasileiros chamando o sistema de ciclone extratropical foram noticiadas, mas não confirmadas aqui (ver verificacao.pendencias). · Divergência real e publicada entre especialistas; o nome "furacão" é usado nas fontes científicas lidas, mas não é consenso formal. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Pesquisadores do CPTEC/INPE descrevem o Catarina como o primeiro ciclone com características de furacão da categoria 1 na fase madura, e deduzem, por análise de satélites e pelos danos, intensidade de furacão de categoria 1 ou de categoria 2 menos intensa. [3] 1. Introdução
Contexto: Artigo de pesquisadores do INPE e da Universidade Federal de Santa Maria, em análise preliminar. · Limitações: O texto fala em "análise subjetiva" das imagens; é leitura de pesquisadores, não classificação oficial. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Um estudo do CPTEC/INPE concluiu preliminarmente que a interação do ciclone com as águas quentes da Corrente do Brasil foi importante para a intensificação e para o deslocamento atípico para oeste, o que contrasta com a ênfase no ar frio em altitude de McTaggart-Cowan e colegas. [3] Abstract
Contexto: Resultados descritos como preliminares, com análise do NCEP e simulações do modelo BRAMS. · Limitações: Os dois estudos não são incompatíveis, mas dão pesos diferentes ao oceano. Hipótese de trabalho de um estudo preliminar, não resultado consolidado. · Hipótese de estudo preliminar. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Segundo a UFSC, o Catarina danificou 53.728 edificações e destruiu 2.194 na região Sul catarinense, 36,4% das edificações da região; as perdas somaram R$ 211,5 milhões. O norte do Rio Grande do Sul também foi atingido. As fontes divergem sobre mortes e valores. [2] Análise dos danos e prejuízos [3] 1. Introdução [6] Texto principal
Contexto: Dados dos formulários oficiais de avaliação de danos (AVADANs) homologados pelo governo de Santa Catarina; o estudo cobre a região Sul catarinense. · Limitações: A NOAA fala em US$ 350 milhões e três mortos; o INPE cita 4 mortes e 7 marinheiros desaparecidos, e a UFSC acrescenta 2 mortos e 8 desaparecidos no mar. Valores em reais de 2004 (R$ 211.474.277,30, ou US$ 67 milhões na cotação de 16/06/2004, segundo a UFSC). Danos no Rio Grande do Sul não foram quantificados. · Números de danos e mortes variam entre fontes institucionais. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A equipe da UFSC classificou o Catarina como furacão de classe 2 da escala Saffir-Simpson a partir dos danos e dos ventos estimados no local (cerca de 180 km/h), pois a estação oficial mais próxima, em Siderópolis, registrou 146,7 km/h e 993 hPa a cerca de 50 km do olho. [2] Considerações finais
Contexto: Litoral sul de Santa Catarina; levantamento de 260 pontos com GPS e 161 questionários. · Limitações: Intensidade inferida de danos em edificações, não medida por instrumento no local de maior impacto. Os autores dizem que o estudo não pretende classificar o fenômeno. · Estimativa por danos; difere da leitura de categoria 1 de outros estudos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A previsão foi difícil: segundo McTaggart-Cowan e colegas, o mar a leste do Brasil estava abaixo da média e nunca antes se registrara furacão ali; segundo o INPE, os modelos numéricos subestimaram a intensidade, e a UFSC registra que moradores se confundiram com previsões divergentes na televisão, apesar dos alertas da Defesa Civil. [1] 5. Summary and discussion [4] 1. Introdução [2] Monitoramento in loco
Contexto: O trecho do INPE (Veiga) relata o que foi levantado na 26ª Conferência de Furacões e Meteorologia Tropical; o modelo ETA do CPTEC produziu um centro de baixa pressão da ordem de 1009 mb. · Limitações: Informação do INPE é de segunda mão (relato de uma conferência de 2004, Silva Dias et al.). A pesquisa de campo da UFSC fala em 96% de entrevistados informados do furacão, mostrando que houve alerta, ainda que confuso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em Balneário Arroio do Silva, a equipe da UFSC descreveu três fases: ventos fortes do quadrante sul, a calmaria do olho com baixa pressão, ausência de chuva e temperatura elevada, e ventos do quadrante norte com rajadas de cerca de 180 km/h. [2] Monitoramento in loco
Contexto: Observação local, em um único ponto do litoral sul catarinense, na madrugada de 28 de março de 2004. · Limitações: Relato de equipe em campo com valores estimados; não é medição instrumental contínua. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O nome "Catarina" é não oficial: foi tirado da província de Santa Catarina, onde a tempestade chegou à costa, porque não há listas oficiais de nomes para ciclones tropicais do Atlântico Sul. [6] Texto principal
Contexto: Nomenclatura de 2004; a lista de nomes para o Atlântico Sul só surgiu em 2011 (ver post sobre a raridade de furacões na região). · Limitações: A página da NOAA diz "province" para o estado de Santa Catarina. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Ciclone extratropical é um distúrbio atmosférico que se propaga ao longo de frentes polares e é relativamente comum no oceano Atlântico Sul. [2] Introdução
Contexto: Descrição geral dada pela UFSC para a região Sul catarinense. · Limitações: Definição simplificada, de um artigo de geografia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Monthly Weather Review (American Meteorological Society) — Analysis of Hurricane Catarina (2004)
McTaggart-Cowan, R.; Bosart, L. F.; Davis, C. A.; Atallah, E. H.; Gyakum, J. R.; Emanuel, K. A. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1175/MWR3330.1 - Universidade Federal de Santa Catarina (Grupo de Estudos de Desastres Naturais); revista Geografia (Rio Claro) — Impacto do furacão Catarina sobre a Região Sul Catarinense: monitoramento e avaliação pós-desastre
Marcelino, E. V.; Rudorff, F. M.; Marcelino, I. P. V. O.; Goerl, R. F.; Kobiyama, M. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - INPE / CPTEC e Universidade Federal de Santa Maria — Catarina cyclone: a hurricane-like cyclone over South Atlantic
Gan, M. A.; Dal Piva, E.; Rao, V. B. · s.d. · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - INPE / CPTEC — Estudo preliminar da energética de área limitada para o caso Catarina
Veiga, J. A. P. · s.d. · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - NASA Earth Observatory — "Hurricane" Catarina hits Brazil
NASA Earth Observatory · 2004-04-05 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - NOAA / Atlantic Oceanographic and Meteorological Laboratory — 10th Anniversary of Cyclone Catarina
NOAA / AOML · 2014-03-27 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)