Ecologia

Como o fungo Cryphonectria parasitica tirou a castanheira-americana do dossel das florestas do leste dos EUA

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

O fungo Cryphonectria parasitica, nativo do leste da Ásia e provavelmente introduzido em Nova York em 1904, mata a casca da castanheira-americana, mas não as raízes. A árvore, antes co-dominante em florestas do leste dos EUA, passou a rebrotar do toco; os brotos costumam morrer antes de alcançar o dossel ou de se reproduzir. Uma estimativa fala em 4 bilhões de árvores mortas. Na Europa, um vírus que enfraquece o fungo atenuou o dano; nos EUA, ele nunca se estabeleceu naturalmente.

A castanheira-americana (Castanea dentata) era uma das árvores mais abundantes das florestas decíduas do leste da América do Norte. O fungo que a atinge, Cryphonectria parasitica, forma cancros, isto é, lesões mortas na casca que cercam o tronco ou o galho e secam tudo o que fica acima delas. Como a infecção fica na casca, o sistema de raízes sobrevive e emite brotos novos, que por sua vez são reinfectados. O fungo também hospeda um hipovírus (Cryphonectria hypovirus 1, ou CHV1), um vírus de RNA que o torna menos agressivo, fenômeno chamado hipovirulência. Esse vírus ajudou a conter a doença na Europa, onde o fungo chegou depois, mas não se estabeleceu por conta própria na América do Norte.

Raízes vivas, árvore morta

O fungo não invade as raízes, e por isso a castanheira-americana nunca desapareceu: ainda emite brotos do toco. Em um cânion da Virgínia, a equipe achou 176 brotos em 20 horas de busca em 1977 e só 42 em 40 horas em 2021.

Como um fungo de casca derruba uma árvore e a mantém em rebrota

O fungo entra por ferimentos na casca e mata o câmbio, a camada viva que forma o tecido condutor novo. A lesão resultante, o cancro, cerca o galho ou tronco e leva à murcha de tudo o que está acima [a3]. Como a infecção fica acima das raízes, elas continuam vivas e emitem brotos; o broto que chega a 5–6 m é anelado e morre antes de alcançar o dossel ou de se reproduzir [a3]. Por isso a espécie sobrevive como brotos de toco [a6], mas deixou de ser árvore dominante [a4].

De onde veio e por onde se espalhou

O fungo é nativo do leste da Ásia e foi levado a outros continentes em plantas de castanheira infectadas [a1]. Foi registrado em Nova York em 1904 e em 1926 já estava em toda a área nativa da castanheira-americana [a2]. Estima-se que tenha matado 4 bilhões de árvores, número citado em revisão e tratado aqui como ordem de grandeza [a5]. Na Europa foi detectado em 1938, na Itália, e a invasão se deu por várias introduções, da Ásia e da América do Norte [a13].

O vírus que enfraquece o fungo, e por que não pegou nos EUA

O hipovírus CHV-1 infecta o fungo e reduz seu crescimento e sua esporulação [a11]. Linhagens com o vírus foram isoladas pela primeira vez em 1964, na Itália; inocular cancros com elas levou à cicatrização [a12]. Na Europa, isso ajudou a castanheira a se recuperar [a13], mas o vírus nunca foi detectado nas populações americanas do fungo, salvo onde introduzido de propósito [a14]. Uma hipótese é a diversidade de tipos de compatibilidade vegetativa, que freia a passagem do vírus [a15]; ela não foi demonstrada.

Como sabemos: um cânion medido três vezes em um século

Dados de antes da doença são raros [a8]. Em White Oak Canyon, a botânica Lucy Braun registrou 719 árvores de 17 espécies antes de 1930; em 1977 e em 2021 outra equipe repetiu o levantamento em 10 locais [a8]. Em 1977 a castanheira já não estava no dossel, mas o resto era parecido; as grandes mudanças vieram depois, com menos carvalhos [a9] e cerca de dez vezes menos brotos [a7]. O cânion é um só, e clima, pragas e cervos também mudaram, por isso o estudo não atribui tudo ao fungo [a10].

Como sabemos

O mecanismo e a história da invasão são bem documentados, mas o número de 4 bilhões de árvores é uma estimativa citada de segunda mão e a razão de o vírus não ter pegado nos EUA é hipótese.

Fontes

  1. Molecular Plant Pathology (Swiss Federal Institute for Forest, Snow and Landscape Research, WSL) — Cryphonectria parasitica, the causal agent of chestnut blight: invasion history, population biology and disease control
    Rigling, D.; Prospero, S. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/mpp.12542
  2. eLife — Emergence and diversification of a highly invasive chestnut pathogen lineage across southeastern Europe
    Stauber, L.; Badet, T.; Feurtey, A.; Prospero, S.; Croll, D. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7554/elife.56279
  3. Evolutionary Applications — Multiple introductions and recombination in Cryphonectria hypovirus 1: perspective for a sustainable biological control of chestnut blight
    Feau, N.; Dutech, C.; Brusini, J.; Rigling, D.; Robin, C. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/eva.12157
  4. PLoS One — Floristic changes following the chestnut blight may be delayed for decades
    Karban, R.; Karban, C. C. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0306748
  5. Frontiers in Plant Science — European and American chestnuts: An overview of the main threats and control efforts
    Fernandes, P.; Colavolpe, M. B.; Serrazina, S.; Costa, R. L. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fpls.2022.951844
Histórico de alterações
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