Zoologia
Como o casco da tartaruga se formou: fósseis da África do Sul, Alemanha e China mostram o caminho
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
O casco da tartaruga não é uma armadura colada ao corpo: sua base vem das costelas, que se alargaram e se fundiram à coluna. Três fósseis mostram etapas disso: Eunotosaurus, da África do Sul, de cerca de 260 milhões de anos, com costelas largas; Pappochelys, da Alemanha, com barriga protegida por ossos em barra; e Odontochelys, da China, com casco só na barriga.
Tartarugas têm a omoplata (escápula) dentro da caixa torácica, algo que não existe em outros vertebrados com costelas. Durante décadas, o casco foi um enigma sem passos intermediários. Os fósseis preencheram parte da lacuna. Eunotosaurus, do Karoo sul-africano, tinha costelas largas e rígidas, mas nenhum casco. Pappochelys, do Triássico Médio alemão, já tinha a barriga reforçada por ossos em barra, alguns fundidos. Odontochelys, do Triássico Superior chinês, tinha barriga completa e costelas começando a alargar, sem carapaça completa. Há debate: alguns pesquisadores acham que Odontochelys pode ter tido uma carapaça mole e reduzida, e a posição de Eunotosaurus na árvore das tartarugas tem apoio forte, mas não é unânime.
A primeira função pode ter sido cavar
Um estudo de 2016 propôs que as costelas largas de Eunotosaurus não serviam de proteção: davam rigidez ao tronco para as patas dianteiras, com dedos largos, escavarem tocas. Para os autores, o casco teria começado como suporte de escavação.
Costelas, não armadura
Uma ideia antiga dizia que o casco vinha de placas ósseas da pele (osteodermas) fundidas às costelas. Odontochelys, sem osteodermas e com costelas começando a alargar, favorece a outra hipótese: as próprias costelas se expandiram e se fundiram à coluna, formando a base da carapaça.
A omoplata dentro das costelas
Em embriões de tartaruga, as costelas ficam travadas na parte dorsal e crescem em leque até a crista carapacial. Ao mesmo tempo, a parede do corpo se dobra para dentro junto com a omoplata. O resultado é uma omoplata encaixada sob as costelas, de um desenvolvimento que começa como o de aves e camundongos.
Barriga primeiro
Em Pappochelys, os ossos em barra da barriga, alguns já fundidos, sugerem como o plastrão se formou, a partir de elementos como costelas ventrais e partes do cíngulo do ombro. Em Odontochelys o plastrão está completo, e em embriões modernos o plastrão endurece antes da carapaça.
O papel dos fósseis africano e chinês
Eunotosaurus, do Karoo, mostra que costelas largas existiam cerca de 40 milhões de anos antes de Odontochelys. O fóssil chinês, de Guizhou, mostra o passo seguinte, uma barriga completa. Juntos, com o alemão Pappochelys entre eles, formam a sequência mais concreta que se tem do casco.
Como sabemos
Os fósseis e a origem pelas costelas são bem apoiados; pontos como a carapaça de Odontochelys e a função inicial do casco seguem em debate.
Em debate:
- Fato estabelecido: Eunotosaurus africanus, do Karoo sul-africano, tem cerca de 260 milhões de anos e costelas distintamente alargadas. [2] [5]
- Evidência forte: Eunotosaurus não tinha músculos entre as costelas, tinha costelas ventrais pareadas e desenvolvimento especializado das costelas, traços de tartarugas; o estudo de 2013 o coloca no início do ramo das tartarugas. [2]
Posição filogenética apoiada por estudos de 2013 e 2015, mas nem todos os especialistas consideram o tema encerrado. - Fato estabelecido: Pappochelys rosinae viveu há cerca de 240 milhões de anos no sul da Alemanha, media cerca de 20 cm e tinha a barriga coberta por ossos em barra, alguns fundidos. [3]
- Evidência forte: Pappochelys foi descrito em 2015 na Nature por Rainer Schoch e Hans-Dieter Sues, e fica entre Eunotosaurus e Odontochelys. [3]
- Fato estabelecido: Odontochelys semitestacea, de cerca de 220 milhões de anos, da China, tinha plastrão mas não carapaça completa, e tinha dentes. [1]
- Evidência forte: Odontochelys não tinha osteodermas, o que argumenta contra a origem do casco em placas ósseas da pele fundidas. [1]
- Interpretação: Odontochelys tinha costelas superiores começando a alargar e saliências ósseas na coluna (placas neurais); a equipe vê nelas o início da carapaça. [1]
- Em debate: Reisz e Head sugerem que Odontochelys pode ter tido uma carapaça mole e reduzida, como as tartarugas de casco mole. [1]
Interpretação alternativa à da equipe que descreveu o fóssil. - Fato estabelecido: Em tartarugas, a omoplata fica dentro da caixa torácica, ventral às costelas, ao contrário de outros vertebrados. [4]
- Evidência forte: Em embriões de tartaruga, as costelas crescem lateral e anteriormente, confinadas dorsalmente, em leque até a crista carapacial, e a parede do corpo se dobra para dentro junto com a omoplata. [4]
- Teoria científica: A estrutura corporal das tartarugas modernas resultaria de desenvolvimento tardio das costelas em um ancestral semelhante a Odontochelys. [4]
- Hipótese: Em 2016, pesquisadores propuseram que o casco começou como suporte para escavar, pois Eunotosaurus tinha dedos dianteiros largos e tronco rígido. [5]
Proposta de um estudo de 2016 na Current Biology, ainda em discussão.
Fontes
- National Geographic (Phenomena) — Heroes in a half-shell show how turtles evolved
consultada em 11/10/2026 - Smithsonian / ScienceDaily — Evolutionary Origin of the Turtle Shell (Lyson et al., Current Biology, 2013), comunicado
consultada em 11/10/2026 - Sci-News (sobre Schoch e Sues, Nature, 2015) — Pappochelys: New Turtle Ancestor Discovered in Germany
consultada em 11/10/2026 - RIKEN — Comunicado sobre a origem da posição da omoplata e do casco (Nagashima et al., Science, 2009)
consultada em 11/10/2026 - Universidade de Zurique — Origin of the turtle shell lies in digging (Lyson et al., Current Biology, 2016)
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão