História da Ásia

Bagdá traduziu a ciência grega séculos antes da Renascença; o papel da Casa da Sabedoria nisso é debatido

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Entre meados do século VIII e o fim do X, tradutores em Bagdá passaram para o árabe quase toda a ciência e a filosofia gregas que ainda circulavam, de Aristóteles a Galeno. A tradição põe esse trabalho numa Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma), obra do califa al-Ma'mun. As fontes da época, porém, falam pouco dela. Para o historiador Dimitri Gutas, era a biblioteca do palácio, num modelo herdado dos persas, e não o centro das traduções do grego. Outros autores ainda a descrevem como academia.

Bagdá foi fundada em 762 pelos abássidas, e o movimento de tradução começou com ela. Durou mais de dois séculos e foi pago por toda a elite: califas e príncipes, funcionários, chefes militares, mercadores, banqueiros e sábios. Muitos tradutores eram cristãos de tradição siríaca, e boa parte dos textos passou do grego para o siríaco antes de chegar ao árabe. O mais produtivo foi Hunayn ibn Ishaq (808–873), cristão nestoriano de al-Hira: pela conta dele mesmo, fez 95 versões siríacas e 34 árabes de obras de Galeno. Os Banu Musa, três irmãos criados sob a tutela de al-Ma'mun, pagavam, segundo um relato do século X, 500 dinares por mês a Hunayn, ao sobrinho dele, Hubaysh, e a Thabit ibn Qurra para traduzirem em tempo integral. E não ficaram na tradução: por ordem do califa, mediram um grau de latitude no deserto do norte da Mesopotâmia e calcularam o ano em 365 dias e 6 horas.

Meio livro em Damasco

O trabalho mais difícil era achar os manuscritos gregos. Hunayn contou que procurou um texto médico 'pela Mesopotâmia, Síria, Palestina e Egito, até chegar a Alexandria' e só encontrou cerca de metade dele, em Damasco. Gutas observa que, nesse relato, Hunayn nunca diz ter procurado na Casa da Sabedoria, que ficava na mesma cidade.

Uma elite inteira pagando traduções

Para Dimitri Gutas, o movimento de tradução não foi projeto de um califa nem de um grupo. Durou mais de dois séculos, a partir da fundação de Bagdá em 762, e foi financiado por califas, príncipes, funcionários, militares, mercadores e banqueiros. Os abássidas herdaram da administração persa a ideia de recuperar o saber antigo traduzindo-o. Sob al-Ma'mun, que reinou de 813 a 833, o primeiro grande grupo de tradutores, em torno do filósofo al-Kindi, mantinha relação próxima com a corte.

Hunayn e a oficina de tradução

Hunayn ibn Ishaq, cristão nestoriano de al-Hira, estudou medicina em Bagdá e se tornou especialista em grego, provavelmente numa temporada em Alexandria. Trabalhava com o sobrinho Hubaysh e o filho Ishaq, que traduziu os Elementos de Euclides. Fazia versões em siríaco e em árabe, buscava manuscritos em várias regiões e, só de Galeno, contou 95 versões siríacas e 34 árabes. Sob al-Mutawakkil foi médico-chefe da corte.

Além da tradução

Os irmãos Banu Musa, criados sob a tutela de al-Ma'mun, financiaram tradutores e fizeram ciência própria. A pedido do califa, mediram um grau de latitude no norte da Mesopotâmia; observaram o Sol e a Lua em Bagdá e calcularam o ano em 365 dias e 6 horas. O tratado deles sobre medida de figuras geométricas foi traduzido para o latim como Liber trium fratrum de geometria. Hunayn, por sua vez, escreveu um manual de medicina que a Europa usaria por séculos.

1258 e a lenda

Em fevereiro de 1258, o exército mongol de Hulagu tomou Bagdá. Houve uma semana de saque e massacre, e o califa al-Musta'sim foi executado com a maior parte da família, o que encerrou o califado abássida em Bagdá. O astrônomo Nasir al-Din al-Tusi, conselheiro de Hulagu, havia incentivado o ataque. É comum ler que os mongóis destruíram ali a Casa da Sabedoria, mas não se sabe se ela ainda existia como instituição: autores posteriores já a tratavam como a biblioteca de al-Ma'mun.

Como sabemos

Os fatos do movimento de tradução, de Hunayn, dos Banu Musa e de 1258 estão bem apoiados em fontes acadêmicas, mas a natureza da Casa da Sabedoria é debatida e o post se apoia sobretudo em Gutas para a leitura mínima.

Em debate: Natureza da Casa da Sabedoria. Dimitri Gutas (Greek Thought, Arabic Culture, 1998) faz uma leitura mínima: as fontes confiáveis são poucas, a expressão traduz o nome sassânida de biblioteca real, a instituição já existia sob Harun al-Rashid (talvez desde al-Mansur), traduzia do persa e, sob al-Ma'mun, abrigou astrônomos e matemáticos; não era academia nem centro das traduções do grego. A Stanford Encyclopedia of Philosophy (Cristina D'Ancona) segue essa linha, citando também Balty-Guesdon (1992), Micheau (1997) e Di Branco (2012), com ênfases diferentes. Obras gerais, como a MacTutor, mantêm a imagem de academia fundada por al-Ma'mun onde trabalharam Hunayn, os Banu Musa e Thabit ibn Qurra.

Em debate: Fundação e fim. Datas exatas de fundação (como 830) aparecem em obras de referência, mas Gutas afirma que nenhuma fonte confiável registra uma 'fundação'. Também não se sabe se a instituição ainda existia quando os mongóis tomaram Bagdá em 1258.

Fontes

  1. Routledge (consultado no Internet Archive) — Greek Thought, Arabic Culture: The Graeco-Arabic Translation Movement in Baghdad and Early 'Abbasid Society (2nd–4th/8th–10th centuries), Routledge, 1998 (pp. 1–2, 53–60, 133–138)
    consultada em 05/10/2026
  2. Stanford Encyclopedia of Philosophy — Greek Sources in Arabic and Islamic Philosophy (revisão de 23/03/2026)
    consultada em 05/10/2026
  3. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Banu Musa brothers
    consultada em 05/10/2026
  4. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Hunayn ibn Ishaq
    consultada em 05/10/2026
  5. U.S. National Library of Medicine — Islamic Medical Manuscripts at the National Library of Medicine: Bio-Bibliographies (H)
    consultada em 05/10/2026
  6. Encyclopaedia Iranica — Hulāgu Khan
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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