História do Brasil
Em 1909, Carlos Chagas descreveu parasito, vetor e uma nova doença, num feito tido como único na história da medicina
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 14 de abril de 1909, no povoado mineiro de Lassance, o médico Carlos Chagas encontrou o Trypanosoma cruzi no sangue de Berenice, uma menina febril de dois anos, o primeiro caso conhecido da doença que hoje leva o seu nome. Antes, em dezembro de 1908, ele havia achado o protozoário no intestino do barbeiro, inseto comum nas casas de pau a pique da região. Identificar o vetor, o parasito e a doença num curto espaço de tempo foi considerado um feito único na história da medicina.
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas nasceu em 9 de julho de 1879, numa fazenda perto de Oliveira (MG), e formou-se em medicina em 1903. Médico da Diretoria Geral de Saúde Pública, então dirigida por Oswaldo Cruz, combateu a malária em Itatinga (SP) e em Xerém (RJ). Em junho de 1907 foi enviado ao norte de Minas, onde uma epidemia de malária paralisava a extensão da Estrada de Ferro Central do Brasil, e em Lassance improvisou um laboratório num vagão de trem. Ali examinou macacos, o barbeiro e, por fim, as pessoas. Em Manguinhos, a nova espécie de tripanossomo recebeu o nome de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre. A descoberta trouxe prestígio ao Instituto Oswaldo Cruz e deu origem a décadas de estudos sobre a doença de Chagas.
O que foi de Berenice
Berenice viveu até 1981. No início dos anos 1960, uma mulher que dizia ser a menina examinada por Chagas foi encaminhada a pesquisadores da UFMG; após investigação, a identidade foi confirmada. Ela foi acompanhada por vinte anos, e nada indica que sua morte tenha sido causada pela doença de Chagas.
O laboratório no vagão
Em junho de 1907, Oswaldo Cruz designou Chagas para combater uma epidemia de malária no norte de Minas Gerais, que paralisava a extensão da Central do Brasil. Em Lassance, onde se construía uma estação, ele armou um laboratório num vagão de trem e dormia ali mesmo. Enquanto coordenava a profilaxia, examinava animais da região, num interesse crescente pela entomologia. Foi nesse improviso que a investigação mudou de objeto.
Do sagui ao barbeiro
Chagas havia descrito um tripanossomo em saguis da região quando se interessou pelo barbeiro, inseto que se escondia nas frestas das paredes de barro e picava os moradores à noite. Viu flagelados no intestino do inseto e mandou exemplares a Manguinhos, onde Oswaldo Cruz os fez picar saguis criados em laboratório. Cerca de um mês depois, apareceram tripanossomos no sangue de um deles. Era outra espécie, que Chagas chamou de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre.
Berenice e a doença
De volta a Lassance, Chagas fez exames de sangue nos moradores e achou o parasito num gato. Em 14 de abril de 1909, encontrou-o no sangue de uma criança febril de dois anos, Berenice. A nota enviada à imprensa médica falava de um caso de tripanossomíase humana, cujo transmissor seria o barbeiro. Em 26 de outubro de 1910, Chagas apresentou à Academia Nacional de Medicina o quadro clínico, com imagens cinematográficas feitas em Lassance.
Reconhecimento e sanitarismo
A descoberta lhe rendeu o Prêmio Schaudinn (1912), duas indicações ao Nobel (1913 e 1921) e, em 1921, o título de doutor honoris causa de Harvard, o primeiro dado a um brasileiro. Entre 1912 e 1913 chefiou uma expedição científica à Amazônia cujo relatório denunciou o abandono médico e social das populações rurais. A partir de 1917, até morrer em 1934, dirigiu o Instituto Oswaldo Cruz.
Como sabemos
Conferido na página biográfica do Instituto Oswaldo Cruz e no portal histórico da doença de Chagas, ambos da Fiocruz.
Em debate: A ideia de que Chagas descobriu tudo “sozinho” é uma simplificação. A Fiocruz o descreve como o único cientista a identificar parasito, vetor e doença, mas o mesmo relato registra Oswaldo Cruz fazendo o experimento de infecção em saguis, Arthur Neiva estudando o barbeiro e Gaspar Vianna contribuindo com a histopatologia.
- Fato estabelecido: Carlos Chagas nasceu em 9 de julho de 1879 numa fazenda perto de Oliveira (MG) e formou-se em medicina em 1903. [1]
- Fato estabelecido: Em junho de 1907, Oswaldo Cruz designou Chagas para combater uma epidemia de malária que paralisava a extensão da Estrada de Ferro Central do Brasil no norte de Minas; em Lassance ele improvisou um laboratório num vagão de trem, que usava também como dormitório. [1] [2]
- Fato estabelecido: Examinando o intestino do barbeiro, inseto hematófago que vivia nas paredes de barro das casas, Chagas identificou em dezembro de 1908 um protozoário flagelado. [1] [2]
- Fato estabelecido: Chagas enviou insetos infectados a Manguinhos; Oswaldo Cruz os fez picar saguis criados em laboratório, e cerca de um mês depois encontrou tripanossomos no sangue de um dos animais doentes. [2]
- Fato estabelecido: Experiências em Manguinhos mostraram tratar-se de uma nova espécie de tripanossomo, chamada Trypanosoma cruzi em homenagem a Oswaldo Cruz. [1] [2]
- Fato estabelecido: Em 14 de abril de 1909, em Lassance, Chagas encontrou o parasito no sangue de Berenice, criança febril de dois anos, considerada o primeiro caso da nova doença. [1] [2]
- Consenso científico: O fato de o mesmo pesquisador identificar, em curto espaço de tempo, o vetor, o parasito e uma nova enfermidade foi considerado único na história da medicina. [1] [2]
- Fato estabelecido: O barbeiro foi investigado a fundo por Arthur Neiva, e dados de histopatologia de Gaspar Vianna foram fundamentais para o primeiro quadro clínico, apresentado por Chagas em outubro de 1910. [2]
- Fato estabelecido: Em 26 de outubro de 1910, Chagas foi admitido como membro titular da Academia Nacional de Medicina. [2]
- Fato estabelecido: Em 1912 recebeu o Prêmio Schaudinn de protozoologia, concedido pelo Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo. [1]
- Fato estabelecido: Chagas foi indicado ao Prêmio Nobel em 1913 e em 1921, e em 1921 tornou-se o primeiro brasileiro a receber o título de doutor honoris causa de Harvard. [1]
- Fato estabelecido: Em fevereiro de 1917, com a morte de Oswaldo Cruz, Chagas assumiu a direção do Instituto Oswaldo Cruz, que exerceu até a própria morte, em 1934. [1]
- Interpretação: Em 1907, Chagas formulou a noção de infecção domiciliar da malária, considerada contribuição pioneira à malariologia e base para o uso extensivo de inseticidas sintéticos como o DDT a partir da década de 1940. [1]
Avaliação historiográfica do IOC sobre o alcance da contribuição. - Fato estabelecido: Berenice (1907–1981) foi acompanhada clinicamente por vinte anos, e não há indício de que sua morte, em 1981, tenha sido causada pela doença de Chagas. [2]
Fontes
- Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) — Carlos Chagas
consultada em 04/10/2026 - Portal da Doença de Chagas (Fiocruz) — Discovery
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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