Evolução

Capim-amargoso resistente ao glifosato: como a seleção em lavouras brasileiras espalhou a resistência

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

O capim-amargoso (Digitaria insularis) tornou-se resistente ao glifosato porque o herbicida, usado repetidamente, deixava vivas as plantas que toleravam a dose, e eram elas que deixavam descendentes. No Brasil, populações resistentes foram relatadas em 2008, em soja e milho. Marcadores genéticos indicam fluxo de genes de sul para norte, provavelmente com máquinas agrícolas, e o mecanismo da resistência ainda não está esclarecido.

O glifosato mata a planta ao bloquear a EPSPS, enzima da via do chiquimato, que ela usa na síntese de compostos essenciais. Resistência aqui significa sobreviver a uma dose que mata a maioria. Ela evolui por seleção: variantes raras, que já existiam ou surgiram por mutação, sobrevivem à aplicação, se reproduzem e ficam mais comuns a cada safra. O capim-amargoso favorece esse processo. É uma gramínea perene, de fecundação cruzada, que se propaga por sementes, levadas pelo vento ou presas a máquinas, e por rizomas, caules subterrâneos que rebrotam. Por muito tempo o glifosato foi o principal método de controle da espécie, e a repetição das aplicações aumentou a pressão de seleção.

Um risco que parecia baixo

Nos primeiros anos do glifosato, alguns cientistas o consideravam de risco extremamente baixo para resistência, com base numa frequência estimada de alelos de cerca de 5 × 10⁻⁸. O primeiro caso confirmado saiu em 1996, na Austrália, mesmo ano da primeira lavoura resistente ao herbicida.

Um filtro aplicado a cada safra

A resistência não é uma reação da planta ao herbicida. A revisão de Vila-Aiub (2019) afirma que mutações de resistência podem já existir na população ou surgir espontaneamente, que a taxa é muito baixa e que elas são traços raros onde não há herbicida. O glifosato age como filtro: onde era a principal ferramenta, as plantas capazes de tolerar a dose deixavam descendentes e as outras não. Netto et al. (2021) atribuem a seleção no Paraguai, em 2005, ao uso excessivo do glifosato; o primeiro relato brasileiro é de 2008.

O que se sabe do mecanismo no capim-amargoso

Em muitas plantas daninhas, a resistência ao glifosato vem de alterações na EPSPS ou de mais cópias do gene. No capim-amargoso, o quadro é menos claro. Netto et al. (2021) resumem que há populações resistentes sem mutação no gene da enzima-alvo, algumas com menor movimento do herbicida na planta e outras sem nenhuma das duas características, o que sugere mecanismos fora do alvo. Cintra et al. (2025), em contraste, descrevem a tolerância como ligada principalmente ao alvo. Quem está certo, ou se ambos valem para populações diferentes, segue em aberto.

Como sabemos: marcadores genéticos e rastros de migração

Para reconstruir o caminho da resistência, Netto et al. (2021) coletaram sementes em 12 lavouras de soja de quatro estados e testaram a resistência com glifosato em plantas cultivadas em casa de vegetação. Genotiparam milhares de pontos do genoma (SNPs) e compararam populações: 1.134 SNPs foram considerados neutros e 687 mostraram sinal de seleção positiva. A estatística de migração indicou fluxo predominante de sul para norte. O limite: é inferência genética de 12 locais, que associa o padrão às máquinas sem observar o transporte.

O custo de ser resistente

Uma ideia da genética de populações é que a resistência cobra um preço quando o herbicida não está presente. Vila-Aiub (2019) mostra que esse custo não é universal: em Eleusine indica, a mutação Pro-106-Ser não alterou a EPSPS, enquanto a dupla TIPS teve custo alto. No capim-amargoso, Pereira et al. (2017) compararam em vasos um biótipo resistente (fator 2,96) e um suscetível de Cascavel (PR): o suscetível fez mais perfilhos e produziu 32,4% mais inflorescências por dia, com massa seca total parecida. É um único par de biótipos de campos diferentes, então não prova custo em toda a espécie.

Como sabemos

Os fatos gerais e a datação dos primeiros relatos estão bem documentados, mas o mecanismo molecular, as origens da resistência e o custo de aptidão no capim-amargoso repousam em poucos estudos.

Em debate: Qual mecanismo predomina no capim-amargoso: alterações no alvo (a EPSPS) ou mecanismos fora do alvo, como menor movimento do herbicida na planta. As fontes lidas divergem na ênfase.

Em debate: Se a resistência surgiu uma vez no sul e se espalhou, ou surgiu várias vezes de forma independente.

Fontes

  1. Pest Management Science — Population genomics of Digitaria insularis from soybean areas in Brazil
    Gonçalves Netto, A.; Cordeiro, E. M.; Nicolai, M.; de Carvalho, S. J.; Ovejero, R. F. L.; Brunharo, C. A.; Zucchi, M. I.; Christoffoleti, P. J. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ps.6577
  2. Frontiers in Genetics — Genomic characterisation and dissection of the onset of resistance to acetyl CoA carboxylase-inhibiting herbicides in a large collection of Digitaria insularis from Brazil
    Sehgal, D.; Oliveira, C.; Mathioni, S.; Widdison, S.; Plumb, W.; Campos, B.; Kaundun, S. S. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fgene.2024.1340852
  3. Pest Management Science — Thirty years of glyphosate-resistant crops and weeds: Current situation and future prospects
    Alcántara-de la Cruz, R.; Guidi, Y. M.; Ramirez-Castillo, M.; Adegas, F. S.; Carbonari, C. A.; Velini, E. D.; De Prado, R.; Duke, S. O. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ps.70742
  4. Plants (Basel) — Fitness of Herbicide-Resistant Weeds: Current Knowledge and Implications for Management
    Vila-Aiub, M. M. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/plants8110469
  5. Frontiers in Plant Science — RNAi spray-induced gene silencing of EPSPS by topical application of dsRNA in the weed Digitaria insularis
    Cintra, L. A.; Da Rosa, J.; De Assis, R.; Marin, S. R. R.; Adegas, F. S.; Rech, E. L.; Nepomuceno, A. L.; Mertz-Henning, L. M. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fpls.2025.1688755
  6. Planta Daninha (SciELO Brasil) — Growth and Development of Digitaria insularis Biotypes Susceptible and Resistant to Glyphosate
    Pereira, G. R.; Costa, N. V.; Moratelli, G.; Rodrigues-Costa, A. C. P. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/s0100-83582017350100025
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos