Zoologia

Olfato do cão: bem acima do humano, mas raça farejadora não prova nariz melhor e o condutor enviesa o alerta

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

O olfato do cão é muito mais sensível que o humano: cerca de 20% dos genes de receptores olfativos são inativos nele, contra mais de 50% em nós. Mas numa comparação de 30 raças, as farejadoras como o bloodhound não tinham mais genes nem mais osso olfativo que as outras, e em testes com 18 duplas de detecção o que o condutor acreditava mudou onde o cão alertava.

Receptores olfativos são proteínas nas células do nariz que se ligam a moléculas de cheiro; cada célula usa um tipo, e o cérebro lê o padrão de células ativadas. O número de genes que fabricam esses receptores (genes OR) serve de medida indireta da capacidade olfativa. O ar que o cão cheira passa por conchas etmoidais, lâminas ósseas enroladas cobertas por epitélio olfativo, no fundo do nariz. Esses números descrevem capacidade, não desempenho: um cão de trabalho também depende de treino, de motivação e de quem conduz a busca.

Capacidade não é habilidade

Mouton e colegas evitam de propósito a palavra habilidade olfativa. Habilidade pode ser limiar de detecção, discriminação ou identificação, medidas diferentes, e o estudo compara só componentes de genes e de anatomia.

O que o nariz do cão tem de especial

O fundo da cavidade nasal é quase todo ocupado por conchas etmoidais retorcidas, cobertas de epitélio olfativo; o cão tem quatro internas e seis externas. Ao farejar, o ar se divide em duas vias, e a superior, cerca de 12 a 13% de cada respiração, vai direto à região olfativa. No repertório genético, cerca de 20% dos genes OR do cão são inativos, contra mais de 50% nos humanos. Uma revisão cita limite de detecção de uma parte por trilhão para certas substâncias, valor que depende do teste.

Como sabemos: contar genes e medir osso

Mouton e colegas contaram genes OR intactos no genoma de 111 cães, 29 lobos e 4 coiotes e mediram a placa cribriforme em crânios, a lâmina óssea furada por onde os nervos do nariz chegam ao cérebro, ajustada ao tamanho do crânio. Limites: usaram o genoma de referência de um boxer, a expressão gênica foi testada com poucos animais e o estudo mede capacidade (genes e anatomia), não o desempenho do cão numa busca.

Raça farejadora não é prova de nariz melhor

Entre as raças, as farejadoras tiveram em média 775 genes OR funcionais, contra 778 nas demais; o bloodhound ficou no meio da amostra, em genes e em anatomia. Os autores leem isso como sinal de que o sucesso de bons cães de detecção vem de comportamento e treino. É uma interpretação a partir de resultados nulos, e os estudos de desempenho entre raças não chegam a consenso, então a pergunta segue aberta para outras medidas.

Onde falha: o condutor e a expectativa

No estudo de Lit e colegas, 18 duplas de cães de detecção buscaram em áreas sem nenhum cheiro-alvo, mas com marcas de papel que os condutores achavam indicar o local. Houve 225 alertas, todos incorretos, e o local dependeu mais da crença do condutor do que de iscas de comida ou brinquedo. É o mesmo tipo de problema do cavalo Clever Hans, explicado em outro artigo. Limite: o alerta é lido pelo condutor, então o teste não separa cão e interpretação.

Como sabemos

Genes, anatomia e o viés do condutor vêm de quatro trabalhos lidos na íntegra; os números de sensibilidade são de segunda mão e a comparação entre raças é um estudo só.

Fontes

  1. Molecular Biology and Evolution — Genetic and Anatomical Determinants of Olfaction in Dogs and Wild Canids
    Mouton, A.; Bird, D. J.; Li, G.; Craven, B. A.; Levine, J. M.; Morselli, M.; Pellegrini, M.; Van Valkenburgh, B.; Wayne, R. K.; Murphy, W. J. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1093/molbev/msaf035
  2. Animal Cognition — Handler beliefs affect scent detection dog outcomes
    Lit, L.; Schweitzer, J. B.; Oberbauer, A. M. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s10071-010-0373-2
  3. Animals (Basel) — Canine Olfaction: Physiology, Behavior, and Possibilities for Practical Applications
    Kokocińska-Kusiak, A. et al. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/ani11082463
  4. Animals (Basel) — The Shape of the Nasal Cavity and Adaptations to Sniffing in the Dog (Canis familiaris) Compared to Other Domesticated Mammals: A Review Article
    Buzek, A. et al. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/ani12040517
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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