Astronomia

Os “canais” de Marte: das linhas de Schiaparelli à civilização de Lowell, e como as observações as desfizeram

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em 1877, Giovanni Schiaparelli descreveu uma rede de linhas finas em Marte e a chamou de canali, palavra italiana para canais ou sulcos; em inglês virou “canals”. Percival Lowell a atribuiu a uma civilização. Em 1903, um experimento com meninos mostrou que linhas podem ser vistas onde não existem, e em 1965 as fotos da Mariner 4 mostraram um mundo de crateras, sem canais.

Schiaparelli, diretor do observatório de Milão, observou Marte nas oposições (alinhamentos em que a Terra fica entre o Sol e o planeta) das décadas de 1870 e 1880 e compilou um mapa entre 1877 e 1886. Canali pode designar leitos naturais ou sulcos; o inglês “canals” sugere obra escavada, e foi esse sentido que se espalhou na imprensa e entre cientistas. Lowell levou a ideia adiante em 1895. O caso é um exemplo de método: um detalhe no limite do que o olho distingue, interpretado com uma expectativa, virou “fato” até que dados melhores o corrigiram. A água que Marte teve, medida por sondas, está em outro artigo.

Crateras no lugar do canal

Quando as sondas Mariner 6 e 7 fotografaram Marte em 1969, ao menos dois “canais” clássicos, Cantabras e Gehon, coincidiram com fileiras de crateras de piso escuro. Alguns traços tinham, então, uma origem real, mas nada de obra.

O que Schiaparelli viu e o que a palavra fez dele

Schiaparelli registrou linhas finas e escolheu canali, que a NASA traduz como canais ou sulcos. Em inglês, a palavra “canals” ganhou o sentido de obra escavada, e a imprensa e parte dos cientistas passaram a tratá-las como possível evidência de vida inteligente. O que muda é o sentido da palavra, não o desenho: nem a NASA nem o artigo de 1903 falam em erro de tradução, e a distinção entre leito natural e obra feita é leitura nossa.

Lowell e a distância entre dado e história

Em 1895, Lowell propôs que os canais eram irrigação construída por uma raça inteligente que lutava contra a secagem do planeta. Em 1907, Wallace criticou essas teorias, e ainda assim, em 1949, havia quem escrevesse que os canais existiam. Isso mostra como uma hipótese pode sobreviver a críticas: o que se via era pouco, e o que se interpretava era muito.

Como sabemos: o experimento de Greenwich

Evans e Maunder queriam saber se uma rede de linhas poderia aparecer a quem olhava para um disco sem linha nenhuma. Mostraram o disco a cerca de vinte meninos por turma, a distâncias medidas. Numa das fileiras, cinco meninos ligaram pontos com linhas retas finas. Limite: foi um experimento sobre percepção, não uma observação de Marte, e não explica sozinho cada desenho de cada astrônomo.

Mariner 4 e o que ela não podia ver

A Mariner 4 fotografou cerca de 1% de Marte, a quase 10.000 km, e viu crateras de até 120 km, sem canais. Antes do voo, já se avisava que um grande rio terrestre não apareceria. Por isso o golpe veio do conjunto: crateras, pressão superficial baixa e, em 1969, imagens em que canais clássicos coincidiam com fileiras de crateras. A região vista era a mais antiga de Marte; para a água que o planeta já teve, veja o outro artigo.

Como sabemos

A cronologia e o experimento vêm de fonte primária e de história da NASA; a leitura de Evans e Maunder foi parcial e a Mariner 4 viu apenas 1% de Marte.

Fontes

  1. NASA History Office — On Mars: Exploration of the Red Planet, 1958-1978 (NASA SP-4212)
    Ezell, E. C.; Ezell, L. N. · 1984 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, v. 63, pp. 488-499 — Experiments as to the Actuality of the “Canals” observed on Mars
    Evans, J. E.; Maunder, E. W. · 1903 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Science — Mariner IV Photography of Mars: Initial Results
    Leighton, R. B. et al. · 1965 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  4. NASA NSSDCA — Mariner 4 (NSSDCA/COSPAR ID 1964-077A)
    NASA Space Science Data Coordinated Archive · atualizado continuamente · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. NASA — Mariner 4
    NASA Science · página da missão · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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