Botânica

Campos rupestres: menos de 1% do Brasil, mais de 5 mil plantas, mais de 40% exclusivas, e o porquê

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Os campos rupestres ocupam menos de 1% do território brasileiro e reúnem mais de 5 mil espécies de plantas vasculares, mais de 40% delas exclusivas desse ambiente. Os estudos ligam isso a rocha antiga de quartzito, solos muito pobres em fósforo e afloramentos isolados entre si, que favorecem espécies especializadas. O arcabouço que reúne essas ideias, o OCBIL, segue em teste.

Campos rupestres são vegetação aberta de ervas e arbustos sobre afloramentos de rocha, no leste do Brasil. A maior parte fica na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais e na Bahia, uma cadeia de quartzito do Proterozoico, rocha que se desfaz devagar. O solo é ácido, raso e muito pobre em fósforo, o nutriente que mais limita as plantas ali. Velloziaceae (a família das canelas-de-ema) é dominante, e Eriocaulaceae inclui as sempre-vivas. A pergunta é por que uma área tão pequena reúne tantas espécies que não existem em outro lugar. As respostas são hipóteses bem apoiadas, mas ainda não um mecanismo único comprovado.

Colher flores que não murcham

A colheita de sempre-vivas, flores secas do Espinhaço, é atividade cultural e econômica de comunidades locais e foi reconhecida pela FAO como GIAHS (sistema de patrimônio agrícola mundial), segundo um estudo de 2026 sobre o pé-de-ouro.

Rocha antiga e solo sem fósforo

A maior parte dos campos rupestres está sobre o Espinhaço, uma formação de quartzito do Proterozoico, rocha que se desfaz devagar [a1]. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes, sobretudo em fósforo, e as medidas de 2015 os aproximam dos solos mais pobres em fósforo do mundo [a4]. Esse é o ponto de partida do argumento: o ambiente é pobre, e as espécies exclusivas são as que o suportam.

Como sabemos como as plantas obtêm fósforo

Oliveira e colegas mediram o fósforo e o nitrogênio nas folhas, a forma das raízes e a colonização por fungos micorrízicos em 50 espécies dominantes de seis comunidades, ao longo de um gradiente de fósforo no solo. Onde o solo era mais pobre, havia mais espécies sem micorriza e mais tipos de raiz especializada [a5]. O manganês nas folhas serviu de indicador: valores maiores nas espécies sem micorriza sugerem que elas liberam carboxilatos que mobilizam o fósforo [a6]. É inferência por indicador, não medida direta da secreção. Nas Velloziaceae, outro estudo descreve reaproveitamento do fósforo de folhas velhas e raízes que secretam carboxilatos [a7].

Isolamento e especialização: a hipótese OCBIL

OCBIL é a sigla inglesa de paisagens antigas, de clima estável e solo infértil. Os campos rupestres são classificados assim, e nesse arcabouço populações pequenas e isoladas e a especialização a solos inférteis impulsionam a diferenciação genética [a8]. Para testar, Cabrini e colegas usaram dados genéticos de uma planta, Paepalanthus calvus: houve dois grupos principais que coincidem com os ecossistemas rochosos, com subdivisões que seguem a variação da rocha [a9]. É um caso, que mostra o padrão de isolamento, sem medir o ritmo com que surgem espécies.

Fogo: rebrotar, mas não em excesso

Muitas plantas dos campos rupestres sobrevivem ao fogo com reservas em órgãos subterrâneos e rebrotam várias vezes [a12]. Num estudo em três áreas com 1, 6 e 10 queimadas em 34 anos, a maior frequência reduziu o banco de gemas e a densidade desses órgãos, e os autores alertam que fogo muito frequente pode comprometer a resiliência dos campos [a13]. Há uma área por nível de frequência, então diferenças entre os locais, além do fogo, podem pesar.

O que "campo rupestre" abrange e o que falta saber

Os mais estudados ficam em Minas Gerais e na Bahia; uma compilação de 28 sítios reuniu 4.705 espécies de angiospermas, de 1.070 gêneros [a10]. A canga, rocha rica em ferro, também forma campos rupestres, com flora diferente, e foi igualmente classificada como OCBIL [a11]. O Espinhaço é ainda um centro mundial de endemismo de Eriocaulaceae, a família das sempre-vivas [a14], cuja colheita é atividade cultural e econômica de comunidades locais [a15]. Os totais variam conforme a contagem: outro estudo fala em cerca de 15% da biodiversidade de plantas do país em 1% do território [a3].

Como sabemos

Números, solo, fogo e genética têm fonte aberta lida; o porquê do endemismo (OCBIL) é arcabouço teórico lido em segunda mão e mostrado em uma só espécie.

Fontes

  1. Scientific Data — Microbiomes of Velloziaceae from phosphorus-impoverished soils of the campos rupestres, a biodiversity hotspot
    Camargo, A. P. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41597-019-0141-3
  2. New Phytologist — Mineral nutrition of campos rupestres plant species on contrasting nutrient-impoverished soil types
    Oliveira, R. S.; Galvão, H. C.; de Campos, M. C. R.; Eller, C. B.; Pearse, S. J.; Lambers, H. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/nph.13175
  3. PLoS ONE — Plotting a future for Amazonian canga vegetation in a campo rupestre context
    Zappi, D. C. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0219753
  4. Ecology and Evolution — Lithobiomes Heterogeneity and Geographic Distance Shape the Landscape Genomics Within Brazilian Mountain Systems
    Cabrini, M.; Trovó, M.; Takahashi, D.; Suyama, Y.; Ramos, R.; Lira, C. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.72476
  5. American Journal of Botany — Modifications in fire frequency impact belowground plant components in old-growth grasslands, posing risks to their resilience
    Bombo, A. B.; Fidelis, A.; Le Stradic, S. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ajb2.70108
  6. Ecology and Evolution — Modeling Climate Change Impacts on a Socioeconomically Vital Plant: The Case of Comanthera elegans (Goldenfoot Flower)
    de Azevedo, M. L.; Amaro, G.; Gorgens, E. B.; Pinto, T. A. A.; Coelho, F. A.; Mendes, D. S.; Cardoso, J. F.; Siqueira da Silva, R.; Shabani, F. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.72031
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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