Ecologia

Campos do Sul sem floresta: herança de clima mais seco e frio, mantida por fogo e gado, e o que muda sem eles

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

No planalto do Sul do Brasil chovem de 1.500 a 2.000 mm por ano, e mata e campo convivem lado a lado. Estudos apontam que o campo é herança de períodos mais secos e frios, mantida hoje por grandes herbívoros e fogo. Sem eles, arbustos avançam sobre o campo em pouco mais de uma década.

Os Campos Sulinos são as pastagens naturais do Sul do Brasil e se dividem em dois domínios: o Pampa, no Rio Grande do Sul, onde o campo forma grandes áreas contínuas e a mata fica nos leitos de rios e em solos específicos, e os campos do planalto, em mosaico com a floresta de araucária. A pergunta do título tem uma parte fácil de sustentar: onde chove muito, a floresta é possível, e no planalto ela de fato existe. A parte difícil é explicar por que o campo persiste. As evidências disponíveis vêm sobretudo do planalto; só um experimento de pastejo cobre áreas do Pampa. Por isso o post fala em campos do Sul e avisa quando o dado é do planalto.

Onze anos sem fogo nem gado

Num trecho de campo de altitude do Sul, a cobertura de arbustos cresceu de forma exponencial nos primeiros 11 anos sem fogo e sem gado. Campos vizinhos, com o manejo tradicional, quase não mudaram em 40 anos.

O que se pode afirmar, e de onde vem

A chuva no planalto sul-brasileiro, de 1.500 a 2.000 mm por ano, comporta floresta, e a floresta existe ali em mosaico com o campo. No Pampa, o campo forma grandes áreas contínuas e a mata fica nos leitos de rios e em solos específicos. Os estudos abertos que encontramos tratam sobretudo do planalto; o experimento de pastejo é a exceção, com áreas dos dois domínios.

Como sabemos: o que acontece quando saem o fogo e o gado

Dois métodos se complementam. Em um, pesquisadores entrevistaram proprietários e compararam imagens aéreas e de satélite de campos protegidos com campos sob manejo tradicional: onde cessaram fogo e gado, a cobertura de arbustos cresceu exponencialmente em 11 anos. No outro, um experimento em seis áreas dividiu cada uma em parcelas com pastejo contínuo, pastejo adiado e exclusão, e mediu a vegetação por cinco anos. O limite: são áreas e anos específicos.

Clima passado e gente: um debate sem fechamento

Isótopos de carbono em perfis de solo indicam que, onde havia pouca ocupação humana, a floresta ficou restrita a encostas voltadas para o sul, e que o manejo indígena a expandiu onde a ocupação foi densa. Um estudo posterior, com modelagem e 43 sítios de pólen e carvão, dá mais peso ao clima, que teria mudado a retroalimentação entre fogo e floresta, sem excluir ação humana. Os dois tratam do planalto.

O que falta para o Pampa

Não encontramos, nas fontes abertas lidas, uma medida direta do peso de clima, solo, fogo e pastejo no Pampa do sul do Rio Grande do Sul. O que há é a inferência a partir do planalto e a frase de que os campos são relíquias de períodos mais secos e frios mantidas por herbívoros e fogo. O fator mais documentado de perda do Pampa hoje é a conversão para agricultura: cerca de 43,5% da área original.

Como sabemos

O papel de fogo e pastejo tem estudos abertos lidos; a herança de clima passado vem de uma frase de introdução e o peso de cada fator no Pampa propriamente dito não foi encontrado.

Em debate: Robinson et al. (2018) atribuem a expansão dos últimos 1.400 anos ao manejo de povos indígenas; Wilson et al. (2026) concluem que o clima foi um dos principais motores, via mudança nos ciclos de fogo e floresta, sem excluir papel humano local. São estudos do planalto, não do Pampa.

Fontes

  1. PLOS ONE — Long-term ecological research in southern Brazil grasslands: Effects of grazing exclusion and deferred grazing on plant and arthropod communities
    Ferreira, P. M. A. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0227706
  2. Scientific Reports — Preventing traditional management can cause grassland loss within 30 years in southern Brazil
    Sühs, R. B.; Giehl, E. L. H.; Peroni, N. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-020-57564-z
  3. Scientific Reports — Uncoupling human and climate drivers of late Holocene vegetation change in southern Brazil
    Robinson, M. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-24429-5
  4. Scientific Reports — How climate, Indigenous people, and fire shaped Brazil's Araucaria Forests through the Late Holocene
    Wilson, O. J. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-026-41607-y
  5. Global Change Biology — The GrassSyn dataset: Soil organic carbon stocks in Brazilian grassy ecosystems
    Andrade, B. O. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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