Ciências da Terra

Como nasce uma caldeira: o teto da câmara de magma desce quando a queda de pressão vence o atrito das falhas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Uma caldeira se forma quando o teto de uma câmara de magma desce. Isso ocorre se a força que puxa o bloco de rocha para baixo, a diferença entre a pressão do magma e o peso da rocha acima, supera o atrito das falhas ao redor. No modelo de um estudo japonês, a queda de pressão exigida cresce com o quadrado da profundidade: cerca de 61 MPa em Aira (câmara a ~5 km) e 18 MPa em Kikai (~3 km).

Uma caldeira é uma depressão vulcânica em forma de bacia, muito mais larga que as aberturas do vulcão: o USGS dá de 2 a 50 km. A câmara de magma é o reservatório de rocha parcialmente fundida sob o vulcão. Quando uma erupção esvazia a câmara depressa, a pressão interna cai abaixo da pressão litostática, a do peso da rocha acima. O teto passa a ser empurrado para baixo, mas as falhas em anel que o cercam o seguram por atrito. Se a puxada vence o atrito, o bloco afunda, o que ajuda a expulsar mais magma. Foi assim, por exemplo, no Tambora (Indonésia), onde o colapso de 1815 abriu uma caldeira de 6 × 7 km e mais de 1 km de profundidade.

Uma caldeira também afunda em silêncio

Em Ambrym (Vanuatu), a caldeira de 12 km de largura subsidiu 2,5 m em dezembro de 2018, depois de mais de 0,4 km³ de magma migrar de lado para uma zona de rifte. Satélites e sismos registraram o afundamento.

O modelo do pistão: quando a puxada vence o atrito

O estudo trata o teto como um êmbolo: um bloco cilíndrico de rocha, cercado por uma falha vertical. A erupção retira magma, a pressão da câmara cai abaixo da litostática, e essa diferença, a subpressão, puxa o bloco para baixo, enquanto o atrito da falha o segura. O colapso começa quando a puxada passa o atrito. Pela equação, a subpressão crítica cresce com o quadrado da profundidade e com a razão perímetro/área do bloco, que vale 2/raio num círculo. Logo, calderas rasas e largas desabam com menos subpressão do que fundas e estreitas.

Aira e Kikai: tamanhos parecidos, limiares diferentes

As calderas de Aira e Kikai, no sul do Japão, têm bloco de cerca de 200 km² nos cálculos do estudo. O teto de Aira ficava a cerca de 5 km; o de Kikai, a cerca de 3 km. O modelo dá cerca de 61 MPa de subpressão para Aira e cerca de 18 MPa para Kikai. As medições combinam: em Aira, a pressão caiu bastante antes do colapso; em Kikai, quase não mudou. O estudo também propõe que uma falha preexistente, com menos atrito, ajudou Kikai, hipótese ainda não testada à parte.

Como sabemos: a água presa no vidro dos cristais

Ninguém mediu a pressão dessas câmaras há 30 mil e 7.300 anos; ela é inferida. O magma guarda água dissolvida em proporção que depende da pressão, e gotas de vidro presas em cristais (inclusões e reentrâncias) preservam esse teor. O estudo mediu a água por espectrometria de raios X em microscópio eletrônico, só em pontos a mais de 100 µm da borda, e converteu o teor em pressão. Limites: supõe magma saturado em água, densidade de rocha de 2.700 kg/m³ e uma única falha vertical.

Colapso sem grande explosão: Kīlauea e Ambrym

O mesmo princípio vale quando o magma sai para o lado. Em 2018, a erupção de Kīlauea a cerca de 40 km do cume esvaziou o reservatório do topo, e o piso da caldeira desabou em falhas tipo pistão, de M5,2–5,4 a cada 20–50 horas. Os autores acham provável que cada desabamento tenha renovado a pressão e ajudado a sustentar a erupção, mas isso ainda precisa de estudo. Em Ambrym, a caldeira de 12 km subsidiu 2,5 m quando mais de 0,4 km³ de magma migraram para uma zona de rifte.

Como sabemos

A ideia central (magma sai, a pressão cai e o teto desce quando vence o atrito) é aceita; os limiares em MPa vêm de um modelo simplificado aplicado a dois casos japoneses.

Em debate: Uma interpretação antiga atribui a caldeira ao colapso de um cone de tufo após erupções explosivas; a evidência de ignimbritos volumosos na época do afundamento é contestada, e o estudo de 2019 mostra um afundamento recente por retirada lateral de magma.

Em debate: O limiar de subpressão vem de um bloco cilíndrico com falha vertical única. O estudo lembra que as falhas reais são múltiplas e inclinadas e pede modelos mais realistas.

Fontes

  1. Scientific Reports (Geological Survey of Japan, AIST) — Caldera collapse thresholds correlate with magma chamber dimensions
    Geshi, N.; Miyagi, I.; Saito, G.; Conway, C. E. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-34411-5
  2. Nature Communications (USGS Hawaiian Volcano Observatory e outras instituições) — The cascading origin of the 2018 Kīlauea eruption and implications for future forecasting
    Patrick, M. R. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-020-19190-1
  3. Scientific Reports (Institut de physique du globe de Paris e outras instituições) — From prodigious volcanic degassing to caldera subsidence and quiescence at Ambrym (Vanuatu): the influence of regional tectonics
    Shreve, T. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-55141-7
  4. WIREs Climate Change (Universidade de Berna e outras instituições) — Tambora 1815 as a test case for high impact volcanic eruptions: Earth system effects
    Raible, C. C. et al. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/wcc.407
  5. U.S. Geological Survey (Volcano Hazards Program) — Volcano Hazards Program Glossary
    U.S. Geological Survey · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos