Astronomia

Os primeiros sólidos do Sistema Solar: inclusões de meteoritos datadas em cerca de 4,567 bilhões de anos

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

Os objetos mais antigos datados do Sistema Solar são as inclusões ricas em cálcio e alumínio (CAIs), grãos refratários preservados em meteoritos chamados condritos. A datação por urânio-chumbo, com correção da razão entre os isótopos do urânio, deu a elas 4.567,30 ± 0,16 milhões de anos. Os côndrulos, esférulas de silicato do mesmo tipo de meteorito, começaram a se formar na mesma época e a formação seguiu por cerca de 3 milhões de anos.

Condritos são meteoritos formados por três componentes: as CAIs, os côndrulos e uma matriz de grãos finos. As CAIs são as mais refratárias, isto é, as que mais resistem ao calor. Para datá-las usam-se dois relógios. O urânio-chumbo mede idade absoluta: o urânio-235 vira chumbo-207 (meia-vida de 703,81 milhões de anos) e o urânio-238 vira chumbo-206 (4.468,3 milhões), e a razão entre os dois chumbos dá o tempo desde que o material se fechou. O alumínio-26, que decai em magnésio-26 com meia-vida de 0,717 milhão de anos, serve de relógio relativo: mede quanto tempo depois de um zero convencional algo se formou. Os dois se cruzam, e é nesse cruzamento que está a discussão atual.

Uma razão que se achava constante

Até cerca de 2010 supunha-se que todas as amostras tinham a mesma razão 238U/235U, de 137,88. Como ela varia, uma mudança de 0,1% nessa razão desloca a idade em 1,45 milhão de anos, e hoje mede-se a razão na própria amostra.

Dois relógios que se complementam

O urânio-chumbo dá idades absolutas: o urânio-235 vira chumbo-207 e o urânio-238 vira chumbo-206, com meias-vidas de 703,81 e 4.468,3 milhões de anos. Mede-se o chumbo em várias frações da amostra, e uma reta nessas razões dá a parte puramente radiogênica. O alumínio-26 já desapareceu e só é inferido, pelo excesso de magnésio-26 nos minerais da mesma inclusão. Como sua meia-vida é de 0,717 milhão de anos, o método separa eventos bem mais próximos no tempo, com incerteza que costuma ficar abaixo de 0,1 milhão de anos.

A correção do urânio mudou os números

Até cerca de 2010 supunha-se que todas as amostras tinham a mesma razão 238U/235U, de 137,88. Hoje se sabe que CAIs, acondritos e outros materiais variam nessa razão, em parte por restos do decaimento do cúrio-247. Uma variação de 0,1% nela desloca a idade em 1,45 milhão de anos, e variações típicas em CAIs levavam a erros acima de 1 milhão de anos. Por isso o padrão passou a ser a idade com correção do urânio, medida na própria amostra, como nos 4.567,30 ± 0,16 milhões de anos das CAIs.

Côndrulos: a defasagem que não se confirmou

Em 2002, côndrulos do meteorito Acfer 059 deram 4.564,7 ± 0,6 milhões de anos e CAIs do Efremovka deram 4.567,2 ± 0,6, uma diferença de 2,5 ± 1,2 milhões de anos. Em 2012, com a correção do urânio, CAIs e côndrulos individuais foram datados de novo: as CAIs formam um intervalo breve e os côndrulos vão de 4.567,32 ± 0,42 a 4.564,71 ± 0,30. Para os autores, a formação de côndrulos começou junto com a das CAIs e durou cerca de 3 milhões de anos, tempo parecido com o de vida de discos inferido por observações astronômicas.

Onde a discussão continua

Se as CAIs se formaram há 4.567,30 milhões de anos com a razão canônica de alumínio-26, quase todos os outros relógios ficam discordantes. Uma saída é supor alumínio-26 desigual no disco. Desch e colegas (2023) propõem outra: com o alumínio-26 homogêneo, o zero do Sistema Solar seria 4.568,42 ± 0,24 milhões de anos e as idades chumbo-chumbo das CAIs teriam sido reiniciadas por aquecimentos breves. É hipótese, não consenso. Duas medidas de CAIs ainda mais antigas, até 4.568,22 ± 0,18, não são amplamente aceitas.

Como sabemos

Os números centrais vêm do resumo do artigo de Connelly et al. (Science, 2012) e do texto integral de Desch et al. (Icarus, 2023, pré-publicação), mas a fonte principal só foi lida no resumo.

Em debate: O zero do Sistema Solar: a medida direta das CAIs dá 4.567,30 ± 0,16 milhões de anos, mas Desch e colegas (2023) propõem 4.568,42 ± 0,24, com idades chumbo-chumbo de CAIs reiniciadas por aquecimento, enquanto outros trabalhos propõem alumínio-26 distribuído de forma desigual. As duas propostas ainda não foram decididas.

Fontes

  1. Science — The absolute chronology and thermal processing of solids in the solar protoplanetary disk
    Connelly, J. N.; Bizzarro, M.; Krot, A. N.; Nordlund, Å.; Wielandt, D.; Ivanova, M. A. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1226919
  2. Planetary Science Research Discoveries (Hawai'i Institute of Geophysics and Planetology, Universidade do Havaí) — Dating the Earliest Solids in our Solar System
    Krot, A. N. · 2002 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Arizona State University (pré-publicação aceita pelo Icarus, arXiv:2212.00390) — Statistical Chronometry of Meteorites. I. A Test of 26Al homogeneity and the Pb-Pb age of the Solar System's t=0
    Desch, S. J.; Dunlap, D. R.; Dunham, E. T.; Williams, C. D.; Mane, P. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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