Zoologia

Filhotes de cão seguem o gesto de apontar, lobos criados por humanos nem sempre: o que o teste mostra

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Em 2002, Hare e colegas relataram que filhotes de cão, mesmo com pouco contato humano, usam sinais de uma pessoa para achar comida escondida, e lobos criados por humanos não. Estudos posteriores mostraram que o resultado depende da idade, do tipo de gesto e da experiência com pessoas: lobos adultos socializados acertaram tanto quanto cães em um teste. O que isso diz da domesticação segue em disputa.

No teste de escolha de objetos, o animal vê duas tigelas, uma delas com comida escondida. Uma pessoa aponta para uma e o animal é solto para escolher. Acertar mais que 50%, o esperado por acaso, indica que ele usou o gesto. Na versão mais exigente, o gesto é distal (a mão fica a mais de 50 cm da tigela) e momentâneo (a mão volta ao peito antes da escolha), então não há dica visível na hora de decidir. O resultado mede se o animal usa o gesto, não por si só se entende a intenção de quem aponta: atenção à pessoa, temperamento e experiência são explicações concorrentes. A origem do cão a partir de lobos está em outro texto do WikiMundi.

A tarefa que deixa de ter solução

Em 2003, Miklósi e colegas testaram o que o animal faz quando um problema que ele sabia resolver deixa de ter solução. Os cães olharam para a pessoa; os lobos socializados, não. Para os autores, o olhar para o rosto humano é a diferença-chave.

O que Hare e colegas relataram em 2002

O artigo de Hare, Brown, Williamson e Tomasello, na Science, comparou filhotes de cão com lobos criados por humanos. Segundo o resumo, os lobos não mostraram a habilidade de ler sinais humanos que indicam onde há comida escondida, e filhotes de cão com poucas semanas, mesmo com pouco contato humano, mostraram. Os autores leram isso como seleção, na domesticação, para habilidades sociais que permitem se comunicar com humanos. Nós lemos só o resumo; o desenho do experimento vem de estudos posteriores.

Como sabemos: o teste da tigela e seus controles

Nos testes de Gácsi e colegas (2009), a comida era escondida em uma de duas tigelas fora da vista do animal, a pessoa apontava e só então o cão ou lobo era solto. O acerto era comparado ao acaso, 50%. Para excluir o cheiro, as tigelas eram esfregadas com a comida e, com seis lobos adultos, ensaios sem gesto não diferiram do acaso. Os limites: grupos de 7 a 9 animais, e lobos adultos testados, em geral, ao ar livre e os cães numa sala.

A tarefa sem solução

Em 2003, Miklósi e colegas relataram que, depois de um treino numa tarefa simples de manipulação, cães diante de uma versão insolúvel olharam para a pessoa e lobos socializados não. Os autores propõem que a diferença-chave é o olhar para o rosto humano, que iniciaria e manteria a comunicação. É uma hipótese a partir do resumo: o experimento mediu o olhar, e o tamanho das amostras não foi verificado por nós.

Idade, treino e experiência mudam o resultado

No mesmo estudo de 2009, com 8 semanas lobos e cães analisados não diferiram no gesto proximal, mas mais da metade dos filhotes de lobo foi excluída. Aos 4 meses, com o gesto distal, os lobos ficaram no acaso e os cães acima dele. Já os lobos adultos socializados acertaram tanto quanto cães adultos. Um estudo de Udell e colegas (2008) já relatara que lobos com treino regular reduziam as diferenças; Gácsi e colegas criticam o gesto e o treino usados ali.

O que a domesticação explica: três hipóteses

Hare e colegas (2002) leram o resultado como seleção direta. Em 2005, raposas criadas por 45 anos para serem dóceis usaram gestos tão bem quanto filhotes de cão, sem que isso tivesse sido selecionado, o que sugere um subproduto da seleção contra o medo. Gácsi e colegas propõem uma retroalimentação entre seleção e desenvolvimento. Em 2021, filhotes de cão leram melhor gestos que filhotes de lobo, sem diferença em memória e controle inibitório. Nenhuma hipótese está decidida.

Como sabemos

Os resultados centrais estão em fontes abertas, mas Hare 2002, Miklósi 2003, Hare 2005 e Salomons 2021 foram lidos só no resumo e o estudo de Udell 2008 chega por segunda mão.

Em debate: O que o desempenho diferente de cães e lobos criados por humanos diz sobre a domesticação. Hare e colegas (2002) leram o resultado como seleção para habilidades sociocognitivas; Hare et al. (2005) propõem subproduto da seleção contra medo e agressividade; Gácsi et al. (2009) propõem retroalimentação entre seleção e desenvolvimento e mostram lobos adultos acertando como cães. Gácsi e colegas criticam o estudo de Udell et al. (2008), que relatou lobos com desempenho melhor, por usar gesto ainda visível e treino com clicker.

Fontes

  1. Science — The domestication of social cognition in dogs
    Hare, B.; Brown, M.; Williamson, C.; Tomasello, M. · 2002 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1072702
  2. Current Biology — A simple reason for a big difference: wolves do not look back at humans, but dogs do
    Miklósi, Á.; Kubinyi, E.; Topál, J.; Gácsi, M.; Virányi, Z.; Csányi, V. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/s0960-9822(03)00263-x
  3. Current Biology — Social cognitive evolution in captive foxes is a correlated by-product of experimental domestication
    Hare, B.; Plyusnina, I.; Ignacio, N.; Schepina, O.; Stepika, A.; Wrangham, R.; Trut, L. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2005.01.040
  4. PLoS ONE — Explaining dog wolf differences in utilizing human pointing gestures: selection for synergistic shifts in the development of some social skills
    Gácsi, M.; Györi, B.; Virányi, Z.; Kubinyi, E.; Range, F.; Belényi, B.; Miklósi, A. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0006584
  5. Current Biology — Cooperative communication with humans evolved to emerge early in domestic dogs
    Salomons, H. et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2021.06.051
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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