Zoologia
Cães e o eixo norte-sul ao defecar: num estudo o padrão só aparece com campo calmo, e uma réplica não o achou
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Num estudo observacional, 70 cães tiveram o rumo do corpo medido com bússola de mão ao defecar e urinar. Só quando a declinação magnética estava estável a média ficou no eixo norte-sul; com o campo variando, a direção se espalhou. Esse critério foi escolhido depois de uma primeira análise sem resultado claro, e uma réplica de curso, com 101 cães, não achou direção preferida. O achado é sugestivo, não confirmado.
Alinhamento magnético é a tendência de um animal a posicionar o corpo ao longo das linhas do campo magnético da Terra quando outras influências (vento, Sol, curiosidade) pesam pouco. Nos cães, mediu-se o rumo da coluna até a cabeça no instante da defecação ou da micção. Como direção é um ângulo, usa-se estatística circular: o teste de Rayleigh pergunta se os ângulos se concentram ou se distribuem ao acaso, e 'axial' quer dizer que norte e sul contam como o mesmo eixo. A declinação é o ângulo entre o norte geográfico e o magnético; ela oscila ao longo do dia e em tempestades geomagnéticas, e o estudo separou 'campo calmo' de 'campo instável' pela velocidade dessa oscilação. Este post trata do que o desenho permite concluir.
Uma réplica nascida numa sala de aula
A réplica de 2021 saiu de uma atividade de curso na Universidade da Califórnia em Davis: estudantes mediram a direção de cães com um aplicativo de bússola, e os dados, sem preferência de direção, serviram para ensinar por que repetir um estudo importa.
Como sabemos: bússola de mão, estatística circular e magnetogramas
Em 2013, donos e colaboradores registraram com bússola de mão o rumo do corpo de cães soltos em campo aberto, longe de estradas e linhas de alta tensão. A pergunta era se os ângulos de muitos registros se concentram num eixo, o que o teste de Rayleigh avalia para cada cão e para a média entre cães. O estado do campo em cada hora veio de magnetogramas de um observatório perto de Munique, e a medida usada foi a velocidade de variação da declinação; na escala do grupo, 2% equivale a 0,02° por hora.
O ponto fraco: o critério veio depois dos dados
A primeira análise de 2013, com todos os registros, deu resultado ambíguo. Só depois os autores separaram os registros pelo índice Kp, pela variação da intensidade e pela da declinação, e a declinação organizou melhor os dados. Eles dizem que a coleta foi cega, porque ninguém imaginava essa dependência; mas o critério foi escolhido com os dados em mãos, o que aumenta a chance de achar um padrão ao acaso (leitura nossa). Só dados novos podem afastar o risco. Pesa também o desequilíbrio: um borzoi macho respondeu por cerca de 44% das micções.
Réplicas, críticas e a disputa no gado
A atividade de Davis reuniu 101 cães e não achou direção preferida, mesmo ajustando pela declinação; o texto lido não descreve o critério central de 2013, a velocidade de variação do campo. Segundo a réplica, Yosef e colegas relataram alinhamento norte-sul na defecação em parques de Israel, e um artigo de 2022 em parques urbanos tem no título 'No evidence'. O mesmo grupo foi contestado no gado: Hert e colegas (2011) disseram não replicar, e a resposta culpa a amostra e a estatística. Só lemos o lado do grupo original.
Confirmações do próprio grupo e outras linhas de evidência
Com dados novos de 2013 a 2015 (36 cães, 24.217 medições), o mesmo grupo voltou a achar alinhamento aproximado ao eixo norte-sul com campo calmo, cerca de 23° fora do eixo, e dispersão maior com perturbações; sob linhas de alta tensão o alinhamento mudou, não sumiu. Uma linha com 27 cães de caça e GPS viu corridas curtas no eixo norte-sul antes do retorno. São resultados compatíveis, mas do mesmo grupo, não confirmação independente. Sobre o sensor, os autores não excluem nenhum mecanismo.
O que o estudo não mostra
Não mostra que cada cão se alinha: o resultado é do conjunto, e a concentração dos ângulos brutos é baixa (no estudo de 2025, somando todas as condições do campo, ficaram espalhados em torno dos 360°). Não mostra o órgão sensorial, nem que o campo cause o alinhamento: mediu-se uma associação com dados de um observatório, não do local. E não vale para cães em geral: os registros vêm de poucas dezenas de cães da Chéquia e da Alemanha, e raça, idade e treino podem pesar, como os autores notam.
Como sabemos
Números e trechos foram conferidos nos textos, mas a questão científica segue disputada e a réplica citada é um exercício de curso.
Em debate:
- Fato estabelecido: Em 2013, um grupo checo-alemão mediu a direção do corpo (da coluna, entre as escápulas, até a cabeça) de cães soltos em campo aberto, com bússola de mão: 70 cães de 37 raças, em 1.893 defecações e 5.582 micções, entre dezembro de 2011 e julho de 2013. [1] Methods
Contexto: Cães de donos voluntários na Chéquia e na Alemanha; registros feitos por 37 donos/colaboradores. · Limitações: Os registros foram feitos por donos e colaboradores, não por um observador único; a amostra de cães é de conveniência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quando todos os registros de defecação foram analisados juntos, sem separar as condições do campo magnético, a orientação ao longo de um eixo era significativa mas muito dispersa, e não foi confirmada pela média entre os cães. [1] Results, §1
Contexto: Defecações de 55 cães; análise com todos os registros (Tabela 1 do artigo). · Limitações: Resultado do artigo de 2013; o 'vetor médio geral' é a média das médias individuais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O critério que produziu o resultado positivo (separar os registros pelo estado do campo magnético) foi escolhido depois da coleta e de uma primeira análise de resultado negativo ou ambíguo; segundo os autores, a coleta em si foi cega a essa hipótese, pois ninguém a havia formulado. [1] Discussion
Contexto: Estudo de 2013 (Hart et al.). · Limitações: Que um critério definido depois dos dados aumenta a chance de achado ao acaso é leitura nossa, não conclusão dos autores. O artigo não descreve correção para a comparação de vários critérios (Kp, intensidade, declinação); lemos o texto, não os arquivos suplementares. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos registros em que a declinação magnética não variava (variação relativa de 0%), os 43 cães com pelo menos 5 defecações ficaram, em média, no eixo norte-sul (cerca de 173°/353°, com margem de ±9° no intervalo de confiança de 95%). [1] Results, §2
Contexto: Defecações, média por cão, campo 'calmo' pelo critério de declinação do artigo de 2013; cães da Chéquia e da Alemanha. · Limitações: O resultado vem de uma fração dos registros (a condição de campo calmo) e de cães com pelo menos 5 medidas; o número de 43 cães é o que o artigo informa para essa categoria. Ver a3 sobre o critério ter sido escolhido depois. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Com a variação da declinação crescendo, a orientação dos cães ficou mais dispersa; na categoria de variação acima de 2%, a distribuição foi aleatória, sem direção preferida. [1] Results, §2
Contexto: Defecação, artigo de 2013. · Limitações: Categorias de variação definidas pelos autores (0%, 0,1 a 2%, acima de 2%). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A variação relativa da declinação foi o melhor preditor do alinhamento entre os critérios testados, e a hora do dia, por si só, não previu o alinhamento. Na escala do grupo, 2% de variação equivale a 0,02° por hora, e os valores do campo vieram de magnetogramas de um observatório em Fürstenfeldbruck (Munique). [1] Methods [2] Methods, 2.2
Contexto: Estudos do grupo de Hart e Burda (2013 e 2025). · Limitações: A conversão para 0,02°/h é a que o artigo de 2025 informa; os dados do campo não foram medidos nos locais de passeio dos cães, mas lidos de um observatório (a distância até cada local não consta no trecho lido). Que a hora do dia não explica o padrão é a análise dos próprios autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Um único cão, um borzoi macho, respondeu por cerca de 44% das micções registradas, e os machos, excluído esse cão, mostraram preferência por um rumo noroeste ao urinar, e não pelo eixo norte-sul; por isso os autores analisaram esse cão à parte. [1] Results, §5
Contexto: Micção, artigo de 2013; as fêmeas, na mesma análise, mostraram preferência axial aproximadamente norte-sul. · Limitações: A conta 2.478 de 5.582 micções (Tabelas 4 e 11 do artigo) também dá cerca de 44% (cálculo nosso); o texto usa a expressão 'under control conditions'. A explicação dos autores para a diferença entre sexos (levantar a pata) é especulativa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Com dados novos coletados em 2013 a 2015 (36 cães, 24.217 medições), o mesmo grupo voltou a achar alinhamento aproximado ao eixo norte-sul com campo calmo, em torno de 23°/203°, e uma dispersão maior com perturbações; somando todas as condições do campo, os ângulos ficaram muito espalhados. [2] Discussion
Contexto: Cães da Chéquia, abril de 2013 a junho de 2015; controles a pelo menos 500 m de linhas de energia e outras estruturas. · Limitações: Não é confirmação independente: os autores do artigo de 2025 incluem vários autores do de 2013 (Hart, Nováková, Hanzal, Ježek, Kušta, Adámková, Benediktová, Burda), nos mesmos métodos. A média é cerca de 23° do eixo norte-sul, e não 7° como em 2013; os autores atribuem a diferença a raça, treino e idade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Sob linhas de alta tensão, ao contrário do esperado, o alinhamento dos cães não sumiu: mudou de direção e de padrão. Os autores não puderam usar linhas sem corrente como controle nem medir o campo no local; usaram valores-padrão de 20 µT e 50 Hz. [2] Methods, 2.1
Contexto: Cães da Chéquia sob linhas de alta tensão orientadas norte-sul ou leste-oeste. · Limitações: Resultado do mesmo grupo; o campo real sob as linhas não foi medido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: O estudo de 2025 afirma não poder dizer se os cães usam uma bússola de inclinação baseada em pares de radicais, e o de 2013 diz que tanto esse mecanismo quanto partículas magnéticas poderiam explicar o alinhamento; nenhum identificou um sensor, e os autores de 2025 sugerem que o padrão sob linhas de alta tensão pode envolver também pistas não magnéticas. [1] Discussion [2] Abstract
Contexto: Mamíferos; o mecanismo da bússola em cães é desconhecido. · Limitações: Sobre o mecanismo em aves, ver os posts relacionados; este não repete a explicação. · Os próprios autores tratam o mecanismo como em aberto; não há sensor identificado em cães. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma atividade de curso da Universidade da Califórnia em Davis (2021) reuniu registros de estudantes de 101 cães, com pelo menos três defecações e três micções por cão, e não achou direção preferida, nem mesmo ao ajustar pela declinação. [3] Methods
Contexto: Estudantes, 11 de fevereiro a 1º de março de 2021, com aplicativo de bússola de celular; locais variados, sem as regras do estudo original. · Limitações: É um exercício didático, não um estudo desenhado para replicar: o texto principal lido não descreve a separação por velocidade de variação do campo magnético (critério central de 2013), nem a condição de cães soltos em campo aberto. Não lemos o arquivo suplementar com o método. Ajustar 'pela declinação' pode não equivaler ao critério de 2013. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Resultados de outros grupos são mistos: segundo a réplica de Davis, Yosef e colegas relataram alinhamento norte-sul na defecação em parques de Israel e perturbação perto de ímãs enterrados; a lista de referências do estudo de 2025 inclui um artigo de 2022 em parques urbanos intitulado 'No evidence for magnetic alignment in domestic dogs in urban parks', que não lemos. [3] Discussion [2] References, 59
Contexto: Parques de cães em Israel (Yosef et al., 2020) e parques urbanos (Rouviere e Ruxton, 2022), ambos conhecidos por nós só por citação. · Limitações: Fonte de segunda mão: nem Yosef et al. nem Rouviere e Ruxton foram abertos. O artigo de 2025 atribui os resultados contraditórios a ambientes cheios e observadores pouco treinados, interpretação dos mesmos autores do estudo original. · Relatados por fontes de segunda mão; os dois artigos não foram lidos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: O mesmo grupo foi contestado antes com gado e cervos em imagens do Google Earth: Hert et al. (2011) disseram não ter replicado o alinhamento, e a resposta do grupo original atribuiu a diferença à estatística e a uma amostra em parte inadequada, e refez a análise com resultado a favor do alinhamento. [4] Abstract
Contexto: Gado em pastagens vistas por satélite; é a resposta do grupo original a Hert et al., não o artigo de Hert. · Limitações: Só lemos a resposta do grupo original (parte inicial); o artigo de Hert et al. não foi aberto. Lado único da disputa. · A divergência é real e publicada, mas só um dos lados foi lido por nós. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Em mais de 600 retornos de 27 cães de caça com GPS, a volta por rota nova começava, na maioria, com uma corrida curta (cerca de 20 m) no eixo norte-sul, e essa 'corrida de bússola' aumentou a eficiência do retorno; os autores propõem que serve para alinhar o mapa mental à bússola magnética. [5] Abstract
Contexto: Cães de caça em áreas florestais; é o mesmo grupo de pesquisa. · Limitações: Só o resumo foi lido. A função da corrida é interpretação dos autores; não é prova de que o cão sente o campo. · Os autores dizem 'propomos'; a função da corrida ainda não foi testada de forma independente nas fontes que lemos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Os autores de 2013 propõem que, como o campo só fica calmo em cerca de 20% do período diurno, a variação do campo geomagnético poderia explicar por que muitos experimentos de magnetorrecepção são difíceis de repetir. [1] Abstract
Contexto: Proposta dos autores do artigo de 2013, sobre experimentos em geral. · Limitações: Sem teste direto nas fontes lidas. O artigo cita também 'cerca de 30%' dos casos nas conclusões; usamos a cifra do resumo. · Hipótese dos próprios autores, formulada depois dos dados; não é consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Frontiers in Zoology — Dogs are sensitive to small variations of the Earth's magnetic field
Hart, V.; Nováková, P.; Malkemper, E. P.; Begall, S.; Hanzal, V.; Ježek, M.; Kušta, T.; Němcová, V.; Adámková, J.; Benediktová, K.; Červený, J.; Burda, H. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/1742-9994-10-80 - Animals (MDPI) — The Effect of High-Voltage Power Lines on Magnetic Orientation of Domestic Dogs
Iakovenko, N. S.; Benediktová, K.; Adámková, J.; Hart, V.; Brinkeová, H.; Ježek, M.; Kušta, T.; Hanzal, V.; Nováková, P.; Burda, H. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/ani15243534 - Translational Animal Science — Enhancing student scientific literacy through participation in citizen science focused on companion animal behavior
Oberbauer, A. M.; Lai, E.; Kinsey, N. A.; Famula, T. R. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/tas/txab131 - Journal of Comparative Physiology A — Further support for the alignment of cattle along magnetic field lines: reply to Hert et al.
Begall, S.; Burda, H.; Červený, J.; Gerter, O.; Neef-Weisse, J.; Němec, P. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s00359-011-0674-1 - eLife — Magnetic alignment enhances homing efficiency of hunting dogs
Benediktová, K.; Adámková, J.; Svoboda, J.; Painter, M. S.; Bartoš, L.; Nováková, P.; Vynikalová, L.; Hart, V.; Phillips, J.; Burda, H. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7554/eLife.55080
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)