Ciências da Terra

Cadeia Vitória-Trindade: o que rochas e idades dizem sobre a pluma de Trindade, hipótese em debate

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A cadeia Vitória-Trindade, com cerca de 1.200 km a leste do Espírito Santo, é o rastro vulcânico que se costuma atribuir a uma pluma do manto, a pluma de Trindade, sob a placa Sul-Americana. A ligação é debatida: as rochas indicam um manto heterogêneo, com componentes antigos da litosfera continental, e uma revisão de 2026 afirma que faltam idades robustas que mostrem a progressão esperada de uma pluma profunda e fixa.

A cadeia é um alinhamento leste-oeste de montes submarinos, bancos e duas ilhas, perto de 20°S. Na hipótese clássica, a placa Sul-Americana passou sobre um ponto quente de Trindade e deixou o rastro; o post sobre a cadeia do Havaí mostra essa ideia no Pacífico. Para testá-la, usam-se idades de rochas, que deveriam crescer com a distância à ilha mais jovem, e a composição isotópica de Sr, Nd, Pb e Hf, que funciona como assinatura da fonte do magma. Os componentes de manto citados pelos autores são o manto empobrecido (DMM), o EMI e o HIMU. O post sobre composição de plumas explica essas siglas em geral; aqui o foco é o que as rochas brasileiras mostram e onde a explicação por pluma enfrenta dúvidas.

Um cone vulcânico em ruínas

Segundo a ficha do Serviço Geológico do Brasil, a ilha da Trindade é o único local do território brasileiro onde ainda se reconhece parte de um cone vulcânico: o Paredão, na extremidade oriental da ilha, cujas ruínas o mar vem destruindo.

O que as ilhas mostram: idades e rochas

A ilha da Trindade registra vulcanismo entre 3,9 e 0,25 Ma, e Martim Vaz, a cerca de 50 km a leste, tem idades 40Ar/39Ar entre 0,72 e 0,32 Ma. As rochas são lavas e intrusões sódico-alcalinas e subsaturadas em sílica, numa sucessão de nefelinito a fonolito. Esses números são de duas ilhas; para o restante da cadeia, a revisão de 2026 aponta que faltam datações robustas.

Como sabemos: sísmica, gravimetria e isótopos

A forma da cadeia e da zona de fratura vem de sísmica de reflexão, gravimetria e isócronas magnéticas, além de batimetria multifeixe, magnetometria e coleta do fundo em um cruzeiro de 2021. A origem do magma vem de petrografia, química de minerais e isótopos de Sr, Nd, Pb e Hf. Cada método limita: a sísmica mostra estruturas, mas não a idade; a isotopia depende de poucas amostras dragadas.

O manto sob a cadeia: componentes antigos

Campos et al. (2026) leem a assinatura EMI como fragmentos de manto litosférico continental metassomatizado, destacado do Gondwana, e a assinatura HIMU como crosta oceânica antiga reciclada. No banco Davis, modelos de mistura dão até 24% de EMI e até 20% de HIMU junto ao manto empobrecido. Isso mostra uma fonte heterogênea, que não é a de um único reservatório profundo uniforme.

Pluma profunda, estrutural ou rasa: o debate

Alves et al. (2006) combinam pluma e fratura: a zona de fratura de Vitória-Trindade seria o conduto. Ribeiro et al. (2018) apontam, como alternativa, calor ligado a tensões da litosfera e notam que o alinhamento alcalino continental não mostra queda de idade para leste. Szameitat et al. (2023) citam anomalias rasas. Uma tomografia de 2024 vê um canal na direção de Trindade, mas de leitura incerta.

Como sabemos

Geometria, idades das ilhas e debate estão em fontes abertas lidas; faltam idades dos montes submarinos e os trabalhos geoquímicos originais, que estavam atrás de bloqueio.

Em debate: Alves et al. (2006) associam a cadeia à pluma de Trindade, citando dados geoquímicos de Fodor e Hanan (2000), Siebel et al. (2000) e O'Connor e Duncan (1990), e propõem que a zona de fratura serviu de conduto. Campos et al. (2026) dizem que faltam idades que mostrem tendência progressiva e que a evidência atual não sustenta com força uma pluma profunda. Szameitat et al. (2023) sugerem anomalias rasas e convecção de borda; Ribeiro, Riccomini e Leite (2018) discutem calor ligado a tensões da litosfera. Nenhuma das fontes lidas fecha a questão.

Fontes

  1. IntechOpen (Latest Advances in Volcanology: Volcanoes as Complex Geosystems) — A Review of Mantle Heterogeneity and Magmatic Processes in the Vitória–Trindade Ridge System, South Atlantic Ocean, Brazil
    Campos, T.; Santos, A.; Motoki, K.; Caitano, G.; Loureiro, L.; Heilbron, M. C. P. L.; Geraldes, M. C.; Fonseca, E. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5772/intechopen.1014776
  2. Revista Brasileira de Geofísica (SciELO) — Zona de fratura de Vitória-Trindade no Oceano Atlântico sudeste e suas implicações tectônicas
    Alves, E. C.; Maia, M.; Sichel, S. E.; Campos, C. M. P. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S0102-261X2006000100009
  3. Scientific Reports (PMC) — Origin of the largest South American transcontinental water divide
    Ribeiro, A. C.; Riccomini, C.; Leite, J. A. D. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-35554-6
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (PMC) — Deep mantle plumes feeding periodic alignments of asthenospheric fingers beneath the central and southern Atlantic Ocean
    Munch, F. D.; Romanowicz, B.; Mukhopadhyay, S.; Rudolph, M. L. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2407543121
  5. Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), Geossit — Ilha da Trindade (Geossítio, SIGEP nº 92)
    Almeida, F. F. M. (texto compilado); idades de Monteiro et al. (2022); ficha do SGB · 2022 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  6. Scientific Data (PMC); Instituto Oceanográfico da USP e parceiros — CORE-VTRCC Cruise Report: Geophysical Acquisition and Seafloor Sampling along the Vitória-Trindade Ridge
    Tagliaro, G.; Gama, M. A. C.; Britzke, A. N.; Louro, V. H. A.; et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41597-024-03898-6
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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