Astronomia
Como sabemos que buracos negros existem, se eles não emitem luz
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Um buraco negro não pode ser visto diretamente, mas deixa marcas medidas por três métodos independentes. Estrelas no centro da Via Láctea orbitam um objeto invisível de cerca de 4 milhões de massas solares. Em 14 de setembro de 2015, o LIGO detectou ondas gravitacionais da fusão de dois buracos negros. E o Event Horizon Telescope fotografou a sombra de dois deles: M87*, em 2019, e Sagittarius A*, em 2022.
A palavra evidência pesa aqui porque nenhum instrumento vê o horizonte de eventos, a fronteira de onde nada retorna. O que se mede são efeitos: o movimento de estrelas, o tremor do espaço-tempo e o brilho de gás aquecido à beira do abismo. Em 2020, o Nobel de Física premiou dois desses caminhos teóricos e observacionais: Roger Penrose, por mostrar que a formação de buracos negros é uma previsão robusta da relatividade geral, e Reinhard Genzel e Andrea Ghez, pela descoberta de um objeto compacto supermassivo no centro da Galáxia. Cada método usa uma física diferente. Que todos apontem para objetos compactos e escuros, sem superfície visível e com a massa que a relatividade prevê, é o que dá confiança. Nenhum deles, sozinho, é prova definitiva de cada detalhe.
A estrela que pôs Einstein à prova
A estrela S2 completa uma órbita em torno de Sagittarius A* em cerca de 16 anos. Seu ponto mais próximo ocorreu em maio de 2018. Observações do ESO detectaram depois o desvio para o vermelho gravitacional da luz da estrela e a órbita em forma de roseta (precessão de Schwarzschild), ambos previstos por Einstein.
A teoria que pediu o objeto
Roger Penrose mostrou, segundo o comitê do Nobel, que a formação de buracos negros é uma previsão robusta da relatividade geral: não depende de condições especiais. Ou seja, buracos negros não exigem condições especiais para se formar: surgem dentro da própria teoria de Einstein.
O centro da Via Láctea
O grupo de Genzel começou em 1992 com o instrumento SHARP, no telescópio NTT do ESO, e observou por quase 30 anos. Em 2008, segundo o ESO, a equipe obteve a melhor evidência empírica de um buraco negro supermassivo no centro da Galáxia. Os dois grupos, o de Genzel e o de Ghez, chegaram a medidas concordantes.
Ouvir a fusão
O sinal de 2015 teve amplitude de pico de cerca de 1,0 vezes 10 elevado a menos 21, uma deformação minúscula do espaço. A relação sinal-ruído foi de 24. A fusão irradiou cerca de 3 massas solares de energia em ondas gravitacionais, a uma distância de cerca de 410 megaparsecs.
Ver a sombra
O Event Horizon Telescope funciona como um telescópio com abertura do tamanho da distância entre suas antenas mais afastadas, do Polo Sul à Espanha. A imagem de Sagittarius A* é uma média de muitas imagens compatíveis com os dados de 2017, processadas com cerca de 80 milhões de horas de CPU no supercomputador Frontera, da NSF, e outras 20 milhões na Open Science Grid. O que se vê é a luz do gás ao redor, não o buraco negro em si.
Como sabemos
Três linhas de evidência independentes, descritas em fontes do Nobel, do ESO, da NSF e do artigo original do LIGO.
Em debate: Não há debate sobre a existência de objetos compactos escuros com essas massas. O que segue em estudo é a natureza exata dos buracos negros (por exemplo, se o horizonte de eventos tem as propriedades que a relatividade geral prevê), que as observações atuais ainda não permitem testar em todos os detalhes.
- Fato estabelecido: O Nobel de Física de 2020 foi dado a Roger Penrose, pela previsão de que a formação de buracos negros é robusta na relatividade geral, e a Reinhard Genzel e Andrea Ghez, pela descoberta de um objeto compacto supermassivo no centro da Galáxia. [1] [2]
- Fato estabelecido: Desde o início dos anos 1990, os grupos de Genzel e Ghez mapeiam as órbitas das estrelas mais próximas de Sagittarius A*; as medições dos dois grupos concordam. [1]
- Consenso científico: O objeto central, Sagittarius A*, tem massa equivalente a cerca de 4 milhões de sóis. [1] [4]
- Fato estabelecido: A estrela S2 orbita Sagittarius A* em cerca de 16 anos e passou pelo ponto mais próximo em maio de 2018. [2]
- Fato estabelecido: As observações de S2 mostraram o desvio para o vermelho gravitacional e a precessão de Schwarzschild previstos pela relatividade geral. [2]
- Fato estabelecido: Em 14 de setembro de 2015 o LIGO detectou ondas gravitacionais da fusão de dois buracos negros de cerca de 36 e 29 massas solares, que formaram um buraco negro de cerca de 62 massas solares. [3]
- Fato estabelecido: Cerca de 3 massas solares de energia foram irradiadas como ondas gravitacionais na fusão GW150914. [3]
- Estimativa: A fonte de GW150914 estava a cerca de 410 megaparsecs, mais de 1,3 bilhão de anos-luz. [3]
Distância inferida da amplitude do sinal, com incerteza; a conversão para anos-luz é nossa. - Fato estabelecido: M87* está a 53 milhões de anos-luz e tem cerca de 6,5 bilhões de massas solares; sua imagem foi divulgada em 2019. [5]
- Fato estabelecido: O Event Horizon Telescope liga radiotelescópios de várias partes do mundo num telescópio virtual do tamanho da Terra. [4] [5]
- Fato estabelecido: A primeira imagem de Sagittarius A* foi divulgada em 12 de maio de 2022, a partir de observações de 2017 com oito telescópios, e mostra um anel brilhante em torno de uma região escura, a sombra. [4]
- Estimativa: Sagittarius A* está a mais de 25 mil anos-luz da Terra. [4]
Fontes divulgam valores entre cerca de 25,6 mil e 27 mil anos-luz; usado 'mais de 25 mil'.
Fontes
- NobelPrize.org / Real Academia Sueca de Ciências — The Nobel Prize in Physics 2020 (comunicado)
consultada em 04/10/2026 - ESO (Observatório Europeu do Sul) — 2020 Nobel Prize in Physics awarded for research with ESO telescopes on Milky Way's supermassive black hole
consultada em 04/10/2026 - LIGO Scientific Collaboration e Virgo Collaboration (arXiv:1602.03837) — Observation of Gravitational Waves from a Binary Black Hole Merger
consultada em 04/10/2026 - National Science Foundation (NSF) — Sgr A*: The First Image of Our Galaxy's Black Hole
consultada em 04/10/2026 - NASA JPL — How Scientists Captured the First Image of a Black Hole
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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