Fenômenos naturais

Bulbo úmido: o limite teórico de 35 °C e os experimentos que o baixaram para cerca de 30 °C em ar úmido

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A temperatura de bulbo úmido mede até onde a evaporação consegue resfriar, por isso junta calor e umidade num só número. Em 2010, Sherwood e Huber estimaram que 35 °C de bulbo úmido, por períodos prolongados, seria o limite para o corpo dissipar o calor que produz. Num experimento de 2022, nenhum dos 24 jovens saudáveis chegou a 35 °C no ponto crítico, e em ambientes úmidos a média foi de cerca de 30,55 °C.

O termômetro comum mede a temperatura do ar (bulbo seco). O de bulbo úmido tem o bulbo coberto por um pano molhado e bem ventilado. O valor depende da temperatura e da umidade: nos dados de Sherwood e Huber, os desertos, onde ocorrem as temperaturas mais altas, não têm bulbo úmido máximo maior que o dos trópicos úmidos. Pela segunda lei da termodinâmica, o corpo só perde calor por condução e evaporação se estiver mais quente que esse valor do ambiente. Sherwood e Huber transformaram isso num argumento para um teto de adaptação ao calor; experimentos posteriores o testaram com pessoas. Como o suor resfria está no post sobre suor e evaporação, e a diferença entre vapor presente e umidade relativa, no post sobre ponto de orvalho.

Perigo bem antes de 35 °C

As ondas de calor mortais de 2003 na Europa e de 2010 na Rússia tiveram bulbo úmido de no máximo 28 °C, segundo Raymond e colegas. Os 35 °C descrevem um teto para condições ideais, não o ponto em que o calor começa a causar danos.

Por que o termômetro molhado interessa ao corpo

O corpo em repouso gera cerca de 100 W de calor metabólico e precisa se livrar dele. Pela segunda lei da termodinâmica, segundo Sherwood e Huber, ele só perde calor por condução e evaporação se estiver mais quente que o bulbo úmido do ambiente, por mais molhado ou ventilado que esteja. Por isso o ar mais quente não é necessariamente o mais difícil de suportar: nos dados deles, os desertos subtropicais, onde ocorrem as temperaturas mais altas, não têm bulbo úmido máximo maior que o das regiões tropicais úmidas.

De onde veio o 35 °C

O núcleo do corpo fica perto de 37 °C e a pele, para o calor fluir até ela, tem de ficar mais fria, regulada em 35 °C ou menos. Daí o argumento de 2010: com bulbo úmido acima de 35 °C por períodos prolongados, a dissipação do calor metabólico se tornaria impossível. Os autores estimaram que o limite está provavelmente perto de 35 °C, com erro de um ou dois graus, para uma pessoa em condições ideais. Era um argumento físico, não um teste com voluntários.

Como sabemos: o teste com voluntários em 2022

Na Universidade Estadual da Pensilvânia, 24 adultos jovens saudáveis pedalaram a cerca de 10 W numa câmara. A temperatura ou a pressão de vapor do ar subia a cada 5 minutos até a temperatura interna do corpo, medida por cápsula, deixar de se estabilizar. O bulbo úmido crítico ficou abaixo de 35 °C em todos os protocolos: média de 30,55 °C em ar úmido e entre 25 e 28 °C em ar quente e seco. Limites: um local, jovens saudáveis, câmara sem calor radiante e com pouco vento.

O que o debate deixa em aberto

Em estações meteorológicas, Raymond e colegas acharam bulbo úmido acima de 35 °C em dois pontos, quase sempre por uma ou duas horas, e mostraram que casos de bulbo úmido acima de 27 a 33 °C mais que dobraram desde 1979. Já os efeitos graves de saúde costumam aparecer com valores bem menores: as ondas de calor de 2003 e 2010 ficaram em até 28 °C. O estudo de 2022 testou só jovens saudáveis em um local; os autores concluem que não existe um número único de bulbo úmido válido para todos os climas.

Como sabemos

As três fontes foram lidas na íntegra e os números conferem; o debate sobre o limiar está bem documentado, mas o experimento de 2022 tem 24 pessoas em um só local e os limiares para outros grupos seguem desconhecidos.

Em debate:

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — An adaptability limit to climate change due to heat stress
    Sherwood, S. C.; Huber, M. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0913352107
  2. Science Advances (AAAS) — The emergence of heat and humidity too severe for human tolerance
    Raymond, C.; Matthews, T.; Horton, R. M. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aaw1838
  3. Journal of Applied Physiology; Pennsylvania State University — Evaluating the 35°C wet-bulb temperature adaptability threshold for young, healthy subjects (PSU HEAT Project)
    Vecellio, D. J.; Wolf, S. T.; Cottle, R. M.; Kenney, W. L. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1152/japplphysiol.00738.2021
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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