Zoologia

Bsal, o segundo quitrídio: quase extinguiu salamandras-de-fogo na Holanda e provavelmente veio da Ásia

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

O fungo Batrachochytrium salamandrivorans (Bsal), descrito em 2013, mata salamandras e tritões em poucas semanas. Num sítio dos Países Baixos, restava 4% da população de salamandras-de-fogo em 2013. Diferente do quitrídio Bd, que atinge rãs, salamandras e cecílias, o Bsal só colonizou salamandras e tritões nos testes, e a hipótese mais aceita o liga ao comércio de animais vindos da Ásia.

Quitrídios são fungos aquáticos microscópicos que se espalham por esporos nadadores, os zoósporos. Até 2013 só um deles, o Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), era conhecido por parasitar vertebrados: ele causa a quitridiomicose, doença da pele que derrubou populações de anfíbios em vários continentes. O Bsal é um segundo fungo do mesmo gênero, geneticamente distante do Bd, e infecta a pele de salamandras e tritões (ordem Urodela), onde produz úlceras. Em laboratório cresce melhor em temperaturas baixas, entre 10 e 15 °C. O assunto importa porque, para ele, a Europa é um território novo: as espécies locais não tiveram tempo de desenvolver resistência. O Bd já tem post próprio neste feed; este trata do Bsal.

Milhões de tritões no comércio

Um estudo de 2014 citou mais de 2,3 milhões de tritões Cynops orientalis importados pelos Estados Unidos entre 2001 e 2009. O número ilustra o volume do comércio de salamandras asiáticas, pista central para a chegada do Bsal à Europa.

Como sabemos que o fungo causou a morte das salamandras

A equipe de Ghent isolou o fungo da pele de salamandras-de-fogo do Bunderbos e descartou outras causas: o PCR não achou o Bd, e os testes para vírus e bactérias foram negativos. Depois, cinco salamandras saudáveis foram expostas a 5.000 zoósporos e morreram em 12 a 18 dias, enquanto cinco controles seguiram sem lesões. As lesões do laboratório coincidiram com as dos animais do campo. O limite do método: é um teste em cativeiro, com amostra pequena, que prova que o fungo pode matar, não quanto mata na natureza.

O que o separa do Bd

O Bsal é geneticamente distante do Bd, prefere frio e, nos testes com 35 espécies, só colonizou salamandras e tritões, enquanto o Bd atinge as três ordens de anfíbios. Para espécies europeias de Salamandridae e Plethodontidae, a letalidade experimental foi alta. Por isso o Bsal ameaça outra parte da diversidade: a origem do Bd é tratada no post sobre os genomas do quitrídio dos anfíbios, e o quadro geral da doença no post sobre o quitrídio.

De onde veio e como chegou, com os limites da evidência

A ideia é que o Bsal conviveu por milhões de anos com salamandras asiáticas, que o toleram, e depois foi levado à Europa por humanos. As provas são indiretas: ocorrência sem doença na Ásia, amostra de museu de mais de 150 anos e datação molecular com ampla margem. O volume do comércio de tritões asiáticos e positivos em animais importados tornam a rota plausível, mas não há rastreio de um lote específico. A pista é um forte indício, não uma observação da introdução.

Espalhamento, hospedeiros e contenção

Em 2016, o fungo estava em 14 de 55 sítios amostrados, em três espécies. A revisão de 2023 contou 67 espécies positivas e 29 com mortes. A dispersão natural é lenta, mas houve saltos longos. O modelo sugere que, após um surto, agir pouco adianta, e que a prevenção vale mais. Em 2026, pesquisadores apontaram esforços desiguais entre países europeus, e a lista da UE inclui o Bsal.

Como sabemos

Descoberta, experimentos e distribuição vêm de artigos revisados por pares abertos; a origem asiática e a via do comércio são inferências bem apoiadas, escritas como tais.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Batrachochytrium salamandrivorans sp. nov. causes lethal chytridiomycosis in amphibians
    Martel, A. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1307356110
  2. Science (manuscrito do autor no PubMed Central) — Wildlife disease. Recent introduction of a chytrid fungus endangers Western Palearctic salamanders
    Martel, A. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1258268
  3. Emerging Infectious Diseases (CDC) — Expanding Distribution of Lethal Amphibian Fungus Batrachochytrium salamandrivorans in Europe
    Spitzen-van der Sluijs, A. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3201/eid2207.160109
  4. Emerging Infectious Diseases (CDC) — Inconsistent Strategies to Mitigate the Effects of Batrachochytrium salamandrivorans, Europe
    Böning, P. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3201/eid3207.251271
  5. Royal Society Open Science — Dynamics of host populations affected by the emerging fungal pathogen Batrachochytrium salamandrivorans
    Schmidt, B. R. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.160801
  6. EcoHealth — Batrachochytrium salamandrivorans' Amphibian Host Species and Invasion Range
    Castro Monzon, F. et al. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10393-022-01620-9
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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