Grandes descobertas

Brusone do trigo: o genoma indica que o surto de Bangladesh, em 2016, veio de uma linhagem sul-americana

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

O fungo que atingiu as lavouras de trigo de Bangladesh em 2016 pertence à linhagem de Magnaporthe oryzae que já atacava o trigo na América do Sul desde 1985, ano em que a brusone foi descrita no Paraná. O RNA de folhas colhidas nos campos agrupou os isolados de Bangladesh com os brasileiros, os mais próximos vindos de Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Goiás. A origem sul-americana é a conclusão mais provável, não uma rota comprovada.

A brusone do trigo (em inglês, wheat blast) é causada por um fungo do grupo Magnaporthe oryzae, também chamado Pyricularia oryzae, que ataca mais de 50 gramíneas. Cada linhagem tem hospedeiros preferidos: as do arroz são geneticamente distintas das do trigo. No trigo, a infecção do eixo da espiga (a ráquis) deixa as espiguetas acima do ponto atingido brancas, sem grão ou com grão chocho. A doença só foi descrita no trigo em 1985, no Paraná. Em fevereiro de 2016, num país onde o trigo é cultura recente, ela apareceu em Bangladesh. A pergunta era de onde vinha o fungo.

Dados abertos em poucos dias

Os autores publicaram as sequências brutas no site Open Wheat Blast poucos dias depois de sequenciá-las, para atrair especialistas. Foi um caso de vigilância genômica de uma doença de planta em ritmo de semanas.

O arroz não é a origem

Quando a brusone surgiu no trigo, em 1985, a primeira ideia foi que o fungo do arroz tivesse mudado de hospedeiro. Estudos posteriores citados pela Embrapa mostraram dois grupos distintos: nenhum dos 69 isolados do trigo infectou arroz, e cruzamentos entre trigo e arroz não deram descendentes. A explicação considerada mais plausível é uma gramínea invasora não identificada.

Como sabemos: sequenciar direto da folha

Em vez de esperar o cultivo do fungo, a equipe coletou folhas com e sem sintomas e sequenciou o RNA de quatro pares. Nas folhas doentes, de 0,5% a 18,6% das leituras alinharam com o genoma do fungo do trigo; nas sadias, no máximo 0,037%. A diferença mostra que o fungo estava nas lesões, e a análise rodou em semanas.

Como sabemos: de quem os isolados são parentes

A árvore com 2.193 grupos de genes colocou Bangladesh na linhagem que infecta o trigo. Para achar parentes, a rede de 15.871 SNPs pôs os isolados de Bangladesh como um genótipo quase clonal, perto de isolados de Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Goiás. A amostra do Brasil era de 23 isolados, coletados ao longo de 25 anos.

O que o genoma não resolve

Os autores de 2016 pedem análises de isolados recentes do Brasil e de vizinhos para apontar a rota. A Embrapa registra a proposta de grão importado, ainda hipótese. Uma análise de 2023 estima que a linhagem B71 surgiu na América do Sul entre 2002 e 2011 e chegou a Bangladesh e à Zâmbia em introduções independentes, sem excluir uma fonte não amostrada.

Como sabemos

Dois estudos primários abertos e um capítulo da Embrapa sustentam o núcleo; a rota de chegada e o salto de hospedeiro seguem como hipótese ou dependem de resumo de terceiros.

Fontes

  1. BMC Biology — Emergence of wheat blast in Bangladesh was caused by a South American lineage of Magnaporthe oryzae
    Islam, M. T. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s12915-016-0309-7
  2. PLOS Biology — Genomic surveillance uncovers a pandemic clonal lineage of the wheat blast fungus
    Latorre, S. M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pbio.3002052
  3. Burleigh Dodds Science Publishing; Embrapa Trigo (repositório Alice) — Diseases affecting wheat: wheat blast (cap. 8)
    Maciel, J. L. N. (Embrapa Trigo) · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.19103/AS.2018.0039.08
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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