Ecologia

Brejos de altitude: por que há floresta úmida no alto de serras da Caatinga e o que a liga à Mata Atlântica

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Brejos de altitude são enclaves úmidos no semiárido nordestino: serras que barram os ventos úmidos do Atlântico recebem mais chuva (de 693 a 1.300 mm por ano nos dez casos de uma revisão de 2019) e sustentam floresta. Em anfíbios, a fauna dos brejos lembra mais a Mata Atlântica do Nordeste e a Caatinga que a Amazônia; como e quando houve ligação segue em debate.

A Caatinga é o domínio semiárido do Nordeste. Em serras e chapadas de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas, porém, há manchas de floresta úmida, os brejos. "Enclave" é uma área de condições diferentes cercada por outra paisagem; aqui, clima mais úmido e ameno no meio de terras secas. A explicação central é a chuva orográfica: o relevo obriga o ar úmido do Atlântico a subir, ele esfria, a umidade condensa e a chuva cai na serra. Só o relevo não esclarece tudo, e a composição de espécies dos brejos carrega uma história de climas passados, ainda debatida.

O brejo mais longe do mar

A Chapada do Araripe fica a 684 km da costa e tem 8.911 km², o mais distante e o maior dos dez brejos da revisão de 2019. É um planalto sedimentar, não uma serra de granito, e ainda assim passa de 1.000 mm de chuva por ano.

Por que chove mais na serra, e por que não é uniforme

A revisão de 2019 juntou a literatura sobre dez brejos e achou chuva média anual de 693 mm (Serra dos Martins, RN) a 1.300 mm (Areia, PB, e Baturité, CE). Os mais chuvosos ficam mais perto da costa, onde chegam os alísios. Há exceções: a Serra da Baixa Verde (PE) passa de 1.220 mm no centro do planalto, e o Araripe passa de 1.000 mm no núcleo seco. Os valores vêm de fontes e períodos diferentes, e os autores pedem estudos integrados sobre a variação de chuva entre os brejos.

Como sabemos o que liga os brejos à Mata Atlântica

Há dois métodos nas fontes lidas. O primeiro compara listas de espécies: um estudo de 2019 reuniu 93 publicações sobre 113 locais e agrupou-os pela semelhança dos anuros, com 423 espécies. O segundo é o pólen fóssil: um perfil do Pleistoceno tardio na Caatinga, citado em artigo de 2022, mostrou pólen de grupos hoje atlânticos e amazônicos. Um é inventário de hoje; o outro, indício indireto de vegetação antiga, de segunda mão aqui. Nenhum dos dois mede sozinho a floresta que existiu.

Relíquia, corredor ou várias origens?

A hipótese clássica vê os brejos como restos de uma vegetação úmida contínua pelo litoral, que teria ligado Amazônia e Mata Atlântica. Para os anuros, o estudo de 2019 contradiz isso: os brejos se agrupam com a Mata Atlântica do Nordeste e a Caatinga, não com a Amazônia, e entre si não formam um bloco único, o que sugere origens diferentes. Os autores ressalvam que isso pode valer só para anuros, e o próprio estudo cita duas expansões possíveis, no Holoceno e no Pleistoceno. O quadro, portanto, continua em aberto.

O que ameaça os brejos

A água e o solo dos brejos os tornaram, historicamente, áreas de pequena agricultura de subsistência e comercial; com encostas íngremes e pouca área contínua de cultivo, a revisão de 2019 descreve erosão superficial acelerada e graves limitações fundiárias. Um artigo de 2022 resume a situação: áreas muito degradadas por desmatamento, caça ilegal e fragmentação, e avaliações citadas por ele que os apontam como o setor mais ameaçado da Mata Atlântica, com conservação urgente.

Como sabemos

Mecanismo e números vêm de uma revisão e de dois artigos abertos lidos; a ligação histórica com Amazônia e Mata Atlântica segue em debate e parte dela é citada de segunda mão.

Em debate: A hipótese clássica de corredores pelo litoral nordestino é contrariada pelos anuros, que lembram mais a Mata Atlântica do Nordeste, mas o resultado pode valer só para esse grupo.

Fontes

  1. Espaço Aberto, PPGG/UFRJ — Análise Integrada dos Brejos de Altitude do Nordeste do Brasil a partir de Atributos Fisiográficos
    Gois, L. S. S.; Corrêa, A. C. B.; Monteiro, K. A. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.36403/espacoaberto.2019.28357
  2. PeerJ — Anuran diversity indicates that Caatinga relictual Neotropical forests are more related to the Atlantic Forest than to the Amazon
    Castro, D. P.; Rodrigues, J. F. M.; Borges-Leite, M. J.; Lima, D. C.; Borges-Nojosa, D. M. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7717/peerj.6208
  3. ZooKeys — Caddisflies (Trichoptera) checklist and a new species of Helicopsyche von Siebold, 1856, from the Brejo de Altitude de Triunfo, a relict rainforest within the Caatinga domain, Northeast Brazil
    Cavalcante-Silva, A.; Pereira, R.; Calor, A. R. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3897/zookeys.1111.77541
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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