Zoologia
Rico e Chaser, border collies com centenas de nomes de objetos: o que os testes mostram e o que não provam
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Rico, um border collie, conhecia mais de 200 nomes de objetos (Kaminski et al., 2004), e Chaser, outra border collie, 1022 nomes após três anos de treino intensivo (Pilley e Reid, 2011). Os testes mostram que eles ligam sons a objetos e que escolhem o item novo quando ouvem um nome novo. Que isso seja o mapeamento rápido das crianças foi contestado, e são só dois cães.
Nos testes, o cão ouve o nome de um objeto e deve trazê-lo de um conjunto. Na exclusão, um objeto novo é posto entre objetos de nome conhecido e o cão ouve uma palavra nova: se traz o objeto novo, infere-se que ele ligou a palavra a ele. O mapeamento rápido (fast mapping) é a hipótese de que a criança forma, após uma só exposição, uma ideia grosseira do que a palavra quer dizer. A exclusão sozinha não prova isso: o animal pode apenas escolher o que não conhece. O texto avalia o que cada estudo mediu, sem afirmar que cães têm linguagem. A origem do cão e a leitura de gestos humanos têm texto próprio no WikiMundi.
Um terrier de 12 anos refez o teste
Griebel e Oller aplicaram a Bailey, terrier Yorkshire de 12 anos, os procedimentos de Rico. Ela acertou a exclusão e a retenção entre 117 brinquedos, mas falhou ao escolher entre dois itens recém-aprendidos.
O que cada estudo mediu
Kaminski e colegas testaram um cão, Rico, que conhecia mais de 200 itens e foi colocado diante de itens novos com nomes novos. Pilley e Reid treinaram Chaser por três anos e relataram 1022 nomes, mais quatro experimentos: nomes contra comandos, categorias, nomes múltiplos para um objeto e exclusão. Em ambos os casos o desfecho é comportamental: o cão traz o objeto certo quando ouve a palavra.
Como sabemos: exclusão e retenção
Na exclusão, o cão ouve uma palavra nova diante de um objeto novo entre objetos conhecidos. Na retenção, esse mesmo objeto volta mais tarde entre quatro itens conhecidos e quatro nunca vistos, segundo a descrição de Griebel e Oller do teste de Rico: são nove objetos, e o acaso seria cerca de 11% (1/9, cálculo nosso). Griebel e Oller esconderam a pessoa da vista do cão na hora da escolha para evitar sinais involuntários, como no caso de Clever Hans.
Por que o fast mapping de Rico foi contestado
Para Griebel e Oller, acertar a retenção pode exigir só lembrar que o objeto já foi visto ou recompensado, uma exclusão estendida. Eles propõem um teste de escolha entre dois itens recém-aprendidos, como em estudos com crianças, e Bailey passou na exclusão e na retenção, mas falhou nele. Os autores dizem que isso não prova que Rico falhou, só que a conclusão de 2004 não estava justificada.
O que continua em aberto
As amostras são de um ou dois animais, e estudos com cães comuns indicam que a maioria não aprende nomes de objetos, o que sugere uma capacidade rara. O treino de Chaser, de várias horas por dia, impede dizer se houve aprendizado rápido. O que os estudos comprovam é associação confiável entre sons e objetos em cães específicos; eles não provam linguagem nem permitem estimar o que um cão comum faz.
Como sabemos
Os dois estudos centrais foram lidos só no resumo; a crítica e a ressalva sobre amostra estão em artigos abertos lidos em parte.
Em debate: Kaminski et al. (2004) interpretaram o acerto de Rico quatro semanas depois como mapeamento rápido; Griebel e Oller (2012) argumentam que o teste admite uma exclusão estendida e que um teste de escolha entre dois itens novos seria necessário.
- Fato estabelecido: Em 2004, Kaminski e colegas relataram que o border collie Rico conhecia os nomes de mais de 200 itens diferentes. [1] Resumo
Contexto: Um único cão (Rico), estudado por Kaminski, Call e Fischer, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva. · Limitações: Amostra de um animal; só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No mesmo estudo, Rico inferiu por exclusão os nomes de itens novos e os recuperou logo em seguida e também quatro semanas depois da primeira exposição. [1] Resumo
Contexto: Itens novos apresentados entre itens de nome conhecido, segundo o resumo. · Limitações: Griebel e Oller (2012) contestam que o teste de retenção prove que Rico ligou palavra e objeto (a9 a a11). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Os autores interpretaram o resultado como sinal de que o mapeamento rápido (fast mapping) depende de mecanismos gerais de aprendizado e memória, que existem em outros animais, e não de um dispositivo exclusivo de humanos. [1] Resumo
Contexto: Leitura dos autores do estudo de 2004. · Limitações: O próprio sentido de fast mapping para o cão foi questionado por Griebel e Oller (a9 a a11). · A divergência está publicada em Griebel e Oller (2012), que sustenta que o teste de retenção usado com Rico não distingue mapeamento de exclusão estendida. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2011, Pilley e Reid relataram que a border collie Chaser aprendeu e reteve, em três anos de treino intensivo, os nomes próprios de 1022 objetos. [2] Resumo
Contexto: Uma única cadela (Chaser), treinada pelo próprio John Pilley, professor emérito do Wofford College. · Limitações: Amostra de um animal; só o resumo foi lido. O treino foi muito mais intenso que o de Rico (a15). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No segundo experimento, Chaser recebeu combinações aleatórias de três comandos e três nomes e entendeu separadamente o significado de nomes e de comandos. [2] Resumo
Contexto: Experimento 2 de Pilley e Reid (2011), com três comandos e três nomes. · Limitações: Só o resumo foi lido; o número de tentativas e o acerto não foram verificados. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No terceiro experimento, Chaser mostrou relações de um nome para muitos objetos (substantivo comum) e de vários nomes para um objeto. [2] Resumo
Contexto: Experimento 3, em que ela aprendeu três substantivos comuns, isto é, palavras que representam categorias. · Limitações: Só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No quarto experimento, Chaser inferiu o nome de um objeto pela novidade dele entre objetos familiares que já tinham nome. [2] Resumo
Contexto: Experimento 4, o mesmo princípio de exclusão usado com Rico. · Limitações: Só o resumo foi lido; o desempenho em um teste de dois objetos novos não foi relatado no resumo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Pilley e Reid concluíram que Chaser adquiriu entendimento referencial de substantivos, capacidade normalmente atribuída a crianças. [2] Resumo
Contexto: Conclusão dos autores do estudo de 2011. · Limitações: É a leitura dos autores sobre um único animal; Fugazza et al. (2021) lembram que o treino intensivo impede dizer se houve aprendizado rápido (a15). · Griebel e Oller (2012) apontam que o teste de retenção usado também com Chaser não prova mapeamento (a9). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Griebel e Oller argumentam que Rico pode ter acertado o teste de retenção por uma exclusão estendida, escolhendo o item já apresentado antes, sem ter ligado palavra e objeto. [3] Introdução e Discussão
Contexto: Crítica ao desenho do teste de 2004: um item novo, após uma tentativa de exclusão, era testado de novo entre itens conhecidos e itens nunca vistos. · Limitações: É um argumento sobre o desenho do teste, não uma prova de que Rico não aprendeu; os próprios autores o dizem (a11). · Divergência publicada; Kaminski et al. e Griebel e Oller discordam se o teste de retenção basta para falar em fast mapping. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Griebel e Oller repetiram os procedimentos com uma terrier Yorkshire, Bailey, de 12 anos: ela buscou corretamente brinquedos escolhidos ao acaso entre 117, passou nos testes de exclusão e de retenção, mas falhou no teste de identificação entre dois itens recém-aprendidos. [3] Resumo
Contexto: Um único cão, de estimação, de 12 anos; os procedimentos copiam os usados com Rico. · Limitações: Um cão; o resultado não prova que Rico tenha falhado em circunstâncias iguais (a11). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os próprios autores ressalvam que a falha de Bailey não prova que Rico falhou em mapear palavras a objetos; prova apenas que a afirmação de fast mapping de 2004 não estava justificada pela evidência. [3] Discussão
Contexto: Leitura que Griebel e Oller fazem do próprio resultado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo Griebel e Oller, um comentário crítico de Bloom sobre o estudo de Rico apontou que o aprendizado das palavras não fora mostrado para mais de um tipo de comando, o de buscar um objeto. [3] Introdução
Contexto: Crítica de Bloom ao estudo de 2004, lida aqui de segunda mão por Griebel e Oller; o comentário de Bloom não foi aberto. · Limitações: Griebel e Oller dizem que Pilley e Reid pareceram resolver essa dúvida para Chaser, com o experimento de comandos e nomes (a5). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Tentativas de ensinar nomes de objetos a vários cães de família mostraram que a maioria não conseguiu aprender. [4] Discussão
Contexto: Resumo de Fugazza et al. (2021) de estudos anteriores com cães comuns. · Limitações: Fugazza et al. citam outros estudos; esses estudos não foram abertos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os estudos anteriores sobre aprendizado de nomes de objetos em cães tinham amostra de um ou dois animais, o que limita qualquer generalização. [4] Discussão
Contexto: Avaliação de Fugazza et al. (2021) sobre a literatura até então. · Limitações: O estudo de 2021 testou seis cães, amostra que os próprios autores chamam de relativamente pequena. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores de 2021 afirmam que, com treino intensivo e muitas exposições, não se pode concluir se houve aprendizado rápido dos nomes. [4] Discussão
Contexto: Comentário de Fugazza et al. sobre o treino de Chaser, comparado ao de seus seis cães. · Limitações: Fugazza et al. citam Pilley e Reid para a duração do treino; os números não foram conferidos no estudo original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Science — Word learning in a domestic dog: evidence for "fast mapping"
Kaminski, J.; Call, J.; Fischer, J. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1097859 - Behavioural Processes — Border collie comprehends object names as verbal referents
Pilley, J. W.; Reid, A. K. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.beproc.2010.11.007 - PLoS ONE — Vocabulary learning in a Yorkshire terrier: slow mapping of spoken words
Griebel, U.; Oller, D. K. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0030182 - Royal Society Open Science — Acquisition and long-term memory of object names in a sample of Gifted Word Learner dogs
Fugazza, C. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)