Evolução

Ehrlich e Raven (1964): trocas de planta aceleraram borboletas, mas a coevolução plena é pouco testada

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em 1964, Ehrlich e Raven propuseram que trocas importantes de planta hospedeira levam borboletas a um surto de diversificação. Num teste com 15 grupos de borboletas, a diversificação acelerou depois dessas trocas. O lado da planta, em que defesas químicas novas gerariam espécies novas, tem prova escassa; nas passifloras, a ideia de que a planta escapa mudando de química é hipótese, não demonstração.

Coevolução, no sentido estrito, é a evolução de adaptações recíprocas entre linhagens, como uma planta e o inseto que a come. Ehrlich e Raven propuseram em 1964 um modelo de escala longa: ao chegar a plantas quimicamente distintas, uma linhagem de borboletas entra numa nova zona adaptativa, isto é, num conjunto de recursos pouco explorado, e se diversifica. O caso mais estudado são as borboletas Heliconius e afins, cujas lagartas comem só passifloras (gênero Passiflora, o dos maracujás). Essas plantas têm glicosídeos cianogênicos, compostos que, quando o tecido é ferido, liberam cianeto. Este texto olha a hipótese de 1964 e seus testes; os ovos falsos, a cor de aviso e o supergene de H. numata estão nos posts ligados.

Trinta cianogênicos para um mesmo veneno

Em Passiflora foram descritos cerca de 30 tipos de glicosídeos cianogênicos, muitos exclusivos do gênero. Todos liberam cianeto, então por que tanta variedade? Uma hipótese é que ela ajude a planta a escapar das borboletas; não está provado.

Como sabemos: o teste de Fordyce com 15 grupos de borboletas

Se a hipótese vale, a taxa de formação de espécies de uma linhagem de borboletas deve subir depois de uma troca importante de planta hospedeira. Fordyce (2010) testou isso com histórias reconstruídas de 15 grupos e comparou os que tiveram troca inferida com os que não tiveram. Nos primeiros houve aceleração significativa depois da troca; nos demais, um modelo de taxa constante bastou. O limite está no método: trocas e taxas são inferidas de árvores evolutivas, então o resultado mostra um padrão compatível com a previsão, não a causa.

Outro par, a mesma pergunta: Brassicales e Pieridae

O quadro de 1964 ganhou um mecanismo genético com o par de brássicas (ordem Brassicales) e borboletas da família Pieridae. Edger e colegas (2015) encontraram evidência de uma corrida armamentista crescente: inovações-chave associadas a duplicações de genes e de genomas, e origem das defesas químicas e das contra-adaptações moleculares associada a mudanças nas taxas de diversificação. Foi lido apenas o resumo, e associação não prova que a seleção recíproca tenha causado o surto.

As passifloras: sinais de escape, com contraexemplos

Em Passiflora há cerca de 30 tipos de glicosídeos cianogênicos, e a hipótese é que a variedade ajude as plantas a escapar das borboletas. De Castro e colegas (2019) analisaram 42 espécies e viram que a maioria das Decaloba só com certo perfil parece ter escapado; mas P. biflora e P. trisfasciata, com esse perfil, são hospedeiras comuns. Só cerca de 40 de mais de 500 espécies foram analisadas. Do lado da borboleta, sequestrar esses compostos provavelmente surgiu num ancestral dos Heliconiinae.

O que mudou desde 1964 e o que segue aberto

Em 2009, Futuyma e Agrawal viram pouca evidência de que defesas novas reduzam a herbivoria e estimulem a diversificação, e apoio limitado às trocas de hospedeiro em insetos. Em 2016, Marquis e colegas notaram que não havia testes explícitos da especiação de plantas por herbívoros. Desde então, o teste de Fordyce (2010) e o par Brassicales-Pieridae reforçaram o lado das borboletas. Uma rival, a hipótese da oscilação de dieta, segue controversa e pode agir junto com o modelo de 1964.

Como sabemos

O teste de Fordyce, o par Brassicales-Pieridae, a revisão de 2009 e a de 2016 foram lidos só pelos resumos, e o artigo de 1964 não foi lido; o caso das passifloras vem de texto integral.

Em debate: Fordyce (2010) encontrou aceleração da diversificação depois de trocas importantes de planta, como prevê o modelo de 1964. A hipótese da oscilação propõe que fases de dieta ampla alimentam a especiação seguinte, e segue controversa. O próprio artigo de 2017 que a testa admite que as duas podem se combinar.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B — Host shifts and evolutionary radiations of butterflies
    Fordyce, J. A. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2010.0211
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — The butterfly plant arms-race escalated by gene and genome duplications
    Edger, P. P. et al. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1503926112
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Macroevolution and the biological diversity of plants and herbivores
    Futuyma, D. J.; Agrawal, A. A. · 2009 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0904106106
  4. Ecology and Evolution — Sequestration and biosynthesis of cyanogenic glucosides in passion vine butterflies and consequences for the diversification of their host plants
    Pinheiro de Castro, E. C.; Zagrobelny, M.; Zurano, J. P.; Zikan Cardoso, M.; Feyereisen, R.; Bak, S. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.5062
  5. Ecology — Ode to Ehrlich and Raven or how herbivorous insects might drive plant speciation
    Marquis, R. J. et al. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ecy.1534
  6. Ecology and Evolution — Polyphagy and diversification in tussock moths: Support for the oscillation hypothesis from extreme generalists
    Wang, H. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.3350
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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