Zoologia

Entre os bonobos, fêmeas aliadas costumam dominar os machos, e nunca se registrou guerra entre grupos

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Os machos de bonobo são maiores que as fêmeas, mas costumam perder para elas. A explicação está nas alianças. Num estudo de 30 anos com seis comunidades selvagens na República Democrática do Congo, as fêmeas venceram 61% dos 1.786 conflitos com machos, e 85% das coalizões que formaram tinham machos como alvo. Ataques mortais entre grupos, comuns nos chimpanzés, quase não aparecem: há um único caso suspeito. Isso não faz dos bonobos um povo pacífico. Os machos brigam entre si mais do que os chimpanzés.

Bonobos (Pan paniscus) e chimpanzés são, juntos, os parentes vivos mais próximos do ser humano. O bonobo só existe na República Democrática do Congo, nas florestas ao sul do rio Congo, que o separa dos chimpanzés. A IUCN o classifica como espécie em perigo desde 2016, com população mínima estimada entre 15 mil e 20 mil indivíduos. A fama de "macaco hippie" vem de traços reais, como o uso do sexo para aliviar a tensão depois de uma briga, mas a pesquisa de campo pede cuidado. O poder das fêmeas varia muito: conforme a comunidade e o ano, elas venceram de 18% a 100% dos conflitos com machos, e em todas as comunidades estudadas houve anos com um macho no topo da hierarquia. E, em Kokolopori, os machos de bonobo trocaram cerca de 2,8 vezes mais agressões entre si do que os chimpanzés de Gombe, na Tanzânia.

Carne dividida com os vizinhos

Em 2018, os primatólogos Barbara Fruth e Gottfried Hohmann descreveram em LuiKotale, na RDC, o primeiro caso conhecido de bonobos repartindo carne com membros de outra comunidade. Para eles, o episódio revela uma dimensão nova da tolerância da espécie. Os chimpanzés, ao contrário, costumam ser intolerantes e agressivos com quem não é do grupo.

Um rio como fronteira

O bonobo vive apenas na bacia do Congo, na República Democrática do Congo, em florestas ao sul do rio Congo. O rio marca o limite norte da espécie e a separa dos chimpanzés. Dentro dessa área, outros rios dividem pequenas populações. A IUCN classifica o bonobo como em perigo desde 2016, com população mínima estimada entre 15 mil e 20 mil indivíduos, e a caça para comércio de carne e a perda de floresta estão entre as maiores ameaças.

Poder construído em aliança

Em 2025, Martin Surbeck e colegas reuniram 30 anos de dados de seis comunidades em Lomako, LuiKotale e Kokolopori. Testaram três explicações para o poder das fêmeas e só uma se sustentou: as coalizões. Quanto mais as fêmeas se aliavam, mais alto ficavam na hierarquia. Os autores apontam também a autonomia reprodutiva: o inchaço sexual delas indica mal a ovulação, o que dificulta a um macho monopolizar o acasalamento.

Machos que brigam mais

Um estudo de 2024 comparou machos de três comunidades de bonobos em Kokolopori com os de duas de chimpanzés em Gombe, na Tanzânia. Os bonobos brigaram entre si cerca de 2,8 vezes mais, e 3 vezes mais quando contadas só as agressões com contato. Em ambas as espécies, os mais agressivos acasalaram mais. A diferença está no estilo: o bonobo briga sozinho, e só 1% das agressões envolveu coalizão de machos, contra 13,2% nos chimpanzés.

Vizinhos sem guerra

Uma compilação publicada na Nature em 2014 reuniu cinco décadas de observação: 152 mortes causadas por chimpanzés, dois terços delas em ataques entre comunidades, e uma única morte suspeita entre bonobos. Em Kokolopori, os bonobos formam grupos distintos e estáveis, mas que dividem território, se encontram com frequência e se tratam com tolerância. É essa combinação, e não a ausência de agressão, que os distingue.

Como sabemos

Os números centrais vêm de três artigos revisados por pares (Communications Biology 2025, Current Biology 2024, Nature 2014) lidos em PubMed e PMC; a distribuição e o status vêm da ficha técnica do Zoológico de San Diego.

Em debate: Quanto as fêmeas dominam: o estudo de 2025 de Surbeck e colegas mostra que o poder feminino varia de comunidade para comunidade e ao longo dos anos, com machos no topo em alguns períodos; por isso o post fala em fêmeas que "costumam" dominar, e não em sociedades lideradas por fêmeas.

Em debate: Bonobos são menos agressivos? Mouginot e colegas (2024) encontraram mais agressão entre machos nos bonobos do que nos chimpanzés, embora sem as mortes e as coalizões que marcam a violência dos chimpanzés. A hipótese da autodomesticação, que associa custos à agressão masculina nos bonobos, segue em debate.

Em debate: A explicação de Wilson e colegas (2014) para as mortes entre chimpanzés (estratégias adaptativas, não efeito da presença humana) é a mais aceita, mas a comparação depende de bem menos anos de observação de bonobos que de chimpanzés.

Fontes

  1. Communications Biology, vol. 8, art. 550 (2025); Max Planck Institute of Animal Behavior e Universidade Harvard — Drivers of female power in bonobos
    consultada em 05/10/2026
  2. Current Biology, vol. 34, p. 1780–1785 (2024) — Differences in expression of male aggression between wild bonobos and chimpanzees
    consultada em 05/10/2026
  3. Nature, vol. 513, p. 414–417 (2014) — Lethal aggression in Pan is better explained by adaptive strategies than human impacts
    consultada em 05/10/2026
  4. PNAS, vol. 119, e2201122119 (2022) — Characterization of Pan social systems reveals in-group/out-group distinction and out-group tolerance in bonobos
    consultada em 05/10/2026
  5. San Diego Zoo Wildlife Alliance Library — Bonobo (Pan paniscus) Fact Sheet: distribuição, população e comportamento
    consultada em 05/10/2026
  6. Human Nature, vol. 29, p. 91–103 (2018) — Food Sharing across Borders: First Observation of Intercommunity Meat Sharing by Bonobos at LuiKotale, DRC
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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