Química
Meio milhão de mariposas para 6,4 mg: como Butenandt identificou o bombicol, o primeiro feromônio de inseto
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Comunicação animal
Em 1959, Adolf Butenandt identificou o bombicol, atrativo sexual da fêmea do bicho-da-seda e primeiro feromônio de inseto a ser identificado quimicamente. Nos experimentos finais, 500 mil mariposas renderam 6,4 mg do composto puro, e um bioensaio com machos vivos dizia qual fração da extração purificar.
Feromônio é uma substância que um indivíduo libera e que provoca reação específica em outro da mesma espécie. Antes de 1959 já se sabia que fêmeas de mariposa atraem machos pelo cheiro, mas ninguém tinha isolado a molécula de um inseto. O problema era a escala: a quantidade por inseto é minúscula e não havia as técnicas modernas de separação e análise. Butenandt extraiu o composto das glândulas do abdômen das fêmeas, testou cada fração em machos vivos e chegou a 6,4 mg do bombicol, um álcool de 16 carbonos com duas ligações duplas.
12,8 nanogramas por mariposa
Dividindo os 6,4 mg finais pelas 500 mil mariposas, saem cerca de 12,8 ng por inseto (cálculo nosso). É um rendimento médio, com perdas de purificação, e não o que uma fêmea libera.
Por que meio milhão de mariposas
A quantidade de feromônio em cada inseto é mínima. Com 500 mil mariposas, Butenandt chegou a 6,4 mg de bombicol puro, cerca de 12,8 ng por inseto em média (cálculo nosso, 6,4 mg ÷ 500.000). Isso inclui as perdas de cada etapa de purificação, então a fêmea libera mais do que isso. A escolha do bicho-da-seda tem razão prática: a seda era indústria europeia e as mariposas eram fáceis de obter. Com o colapso dessa indústria na Alemanha após a guerra, o material passou a vir do Japão.
O bioensaio: como saber qual fração era a certa
Sem os instrumentos atuais para identificar moléculas em quantidade tão pequena, a equipe usava o próprio animal como detector. Cada fração era diluída até que 50% dos machos reagissem, e a reação era visível: o macho doméstico, que não voa, agita as asas. Fração mais pura exigia menos material para o mesmo efeito, e o processo seguiu até restar um só componente. O limite é que o bioensaio mede comportamento, não estrutura; a determinação da estrutura química foi outra etapa, que não foi lida aqui.
Sorte e limites
A página de Bristol observa que a equipe teve sorte: o feromônio principal era um só composto. Hoje se sabe que a fêmea emite também um pouco de bombical, o aldeído correspondente, em proporção de cerca de 10:1, descrito depois por Kaissling e colaboradores (1978). Só o bombicol basta para disparar a busca no macho. O caso, portanto, não mostra como é todo feromônio: muitas espécies usam misturas, e identificá-las exige mais passos.
Como sabemos
Os números centrais vêm de uma única página institucional de divulgação (Bristol); o artigo original de 1959 não foi lido.
- Fato estabelecido: O bombicol, atrativo sexual da fêmea do bicho-da-seda (Bombyx mori), foi o primeiro feromônio de inseto identificado quimicamente; o trabalho é de Adolf Butenandt, em 1959. [1] Why is it important? [3] Conclusão
Contexto: Primeiro feromônio de inseto. A página de Bristol acrescenta que Butenandt foi o primeiro a determinar a estrutura de um feromônio, o que não é o mesmo que descobrir que feromônios existem. · Limitações: As fontes dizem "primeiro feromônio de inseto", não primeiro feromônio de qualquer organismo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos experimentos finais, em 1956, Butenandt obteve o feromônio a partir de 500.000 mariposas-da-seda japonesas e isolou 6,4 miligramas de bombicol puro. [1] He had to extract the pheromone
Contexto: Extração feita na Alemanha, com mariposas trazidas do Japão. · Limitações: Conferido só na página de Bristol (divulgação química); o artigo original de 1959 não foi lido. A fonte diz 500,000, sem "cerca de". · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Dividir 6,4 mg de bombicol puro por 500.000 mariposas dá cerca de 12,8 nanogramas por mariposa; é um rendimento médio de purificação, não a quantidade que uma fêmea produz. [1] He had to extract the pheromone
Contexto: Ordem de grandeza do que o experimento exigiu. · Limitações: Cálculo nosso: 6,4 × 10⁻³ g ÷ 5 × 10⁵ = 1,28 × 10⁻⁸ g = 12,8 ng. Inclui perdas da purificação; a fêmea produz mais do que isso. · Cálculo nosso a partir dos dois números da fonte; o rendimento depende das perdas de cada etapa de purificação. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O feromônio fica em glândulas na ponta do abdômen da fêmea, e foi dali que Butenandt o extraiu. [1] He had to extract the pheromone
Contexto: Bombyx mori. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para saber se uma fração da extração continha o atrativo, a equipe a diluía e media a menor concentração capaz de fazer 50% dos machos de uma amostra responder; quanto mais puro o material, menos era preciso. [1] And how did he know it was pure?
Contexto: Bioensaio com machos de Bombyx mori. · Limitações: Relato de divulgação, sem os detalhes do protocolo original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O bicho-da-seda doméstico não voa, mas o macho reage ao feromônio da fêmea excitando-se e batendo as asas, e essa reação serviu de resposta visível para o bioensaio. [1] And how did he know it was pure?
Contexto: Bombyx mori doméstico, em contraste com a espécie selvagem Bombyx mandarina, segundo a mesma fonte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Depois da Segunda Guerra, a indústria alemã de seda entrou em colapso e Butenandt precisou buscar as mariposas mais longe, até no Japão. [1] Why did Butenandt choose to investigate the silk moth?
Contexto: Antes disso, a seda era uma indústria europeia e as mariposas eram fáceis de obter na Alemanha, segundo a mesma fonte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Butenandt já tinha ganho o Nobel de Química de 1939, aos 36 anos, por seu trabalho com hormônios sexuais, e depois voltou-se para atrativos de insetos. [1] Why is it important?
Contexto: Trajetória de Butenandt. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Que a fêmea de uma mariposa atrai machos por um cheiro já se sabia no século XIX, por observações de Jean-Henri Fabre, quase 80 anos antes da identificação química do bombicol. [3] Introdução [1] What did Fabre do, then?
Contexto: Fabre estudou a mariposa-pavão-grande; os machos eram atraídos até por uma gaiola vazia onde a fêmea tinha ficado. · Limitações: O "quase 80 anos" é cálculo nosso (1879 a 1959); a data vem da citação em f3. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Feromônios são substâncias liberadas por um indivíduo e recebidas por outros da mesma espécie, nos quais provocam reações específicas; a definição vem de Karlson e Lüscher (1959). [3] Introdução
Contexto: Definição citada em revisão de 2018; o artigo de 1959 não foi lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A fêmea de Bombyx mori produz dois componentes, bombicol e bombical (o aldeído correspondente), numa proporção de cerca de 10:1, mas só o bombicol basta para disparar no macho o comportamento de busca da fonte. [2] Introduction
Contexto: Bombyx mori; o bombical foi descrito depois, por Kaissling e colaboradores (1978), segundo f3. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A equipe teve sorte: o feromônio principal era um só composto, o que facilitou a purificação; feromônios com vários componentes são comuns em outras espécies. [1] And how did he know it was pure?
Contexto: Mesmo assim, a fêmea emite uma mistura com um pouco de bombical (f1, f2); só o bombicol é ligado pelo receptor do macho, segundo f1. · Limitações: Opinião do autor da página, não resultado do artigo original. · A avaliação de "sorte" é do autor da página de Bristol; a generalização aparece como "são comuns", não como regra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Dietrich Schneider criou, em 1957, uma forma de medir a resposta da antena do macho aos feromônios, registrando o sinal elétrico da antena isolada. [1] How do we know that?
Contexto: Antena removida de um macho de Bombyx mori e mantida em solução salina, com ar contendo bombicol soprado sobre ela. · Limitações: O detalhe do circuito vem do texto de divulgação de Bristol. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Calcula-se que o macho detecte uma fêmea a mais de 10 km de distância, mas esse número é uma estimativa de divulgação, sem medição direta no campo na fonte lida. [1] How sensitive is the male to the pheromone?
Contexto: Bombyx mori. · Limitações: Sem fonte primária nesta página para a distância. · A fonte diz "It's reckoned" (calcula-se), sem citar a medição. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- University of Bristol, School of Chemistry (Molecule of the Month) — Bombykol - Molecule of the Month - May 2009
Cotton, S. · 2009 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Frontiers in Physiology — Molecular and neural mechanisms of sex pheromone reception and processing in the silkmoth Bombyx mori
Sakurai, T.; Namiki, S.; Kanzaki, R. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fphys.2014.00125 - Frontiers in Cellular Neuroscience — Insect Pheromone Receptors - Key Elements in Sensing Intraspecific Chemical Signals
Fleischer, J.; Krieger, J. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fncel.2018.00425
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)