Química

De onde vêm as bolhas de cerveja e espumante: CO2 dissolvido e as cavidades de gás que as iniciam

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

As bolhas nascem onde há pequenas bolsas de gás já presas no copo, como microfissuras do vidro e fibras: o CO2 dissolvido só forma bolha ao encontrar uma cavidade maior que um raio crítico, calculado em cerca de 0,7 µm numa cerveja lager a 6 °C. Depois, cada bolha cresce e sobe por empuxo até estourar na superfície.

O CO2 se dissolve na bebida em proporção à pressão do gás sobre ela (lei de Henry) e mais ainda quando está frio. Na garrafa fechada, a pressão de vários bar sob a tampa mantém o gás dissolvido. Ao servir, a pressão cai ao nível do ar e o líquido fica supersaturado, ou seja, com muito mais gás dissolvido do que o equilíbrio permite. Mesmo assim, não surgem bolhas em qualquer lugar: formar uma bolha do nada exige vencer uma barreira de energia, porque cria uma interface nova entre gás e líquido. Nucleação é o nome do início desse processo. O caminho comum é a nucleação heterogênea, em cavidades de gás que já existiam, presas em fibras, poeira ou microfissuras do vidro.

Os pontos de uma bala Mentos

No experimento clássico de refrigerante com Mentos, a bala funciona como um enxame de cavidades: um estudo estimou que de 50.000 a 300.000 delas formam bolhas ao mesmo tempo, muito mais do que em qualquer copo.

Por que só alguns pontos do copo fazem bolha

A bebida está supersaturada em todo o volume, mas bolha nova só nasce onde já existe uma bolsa de gás grande o bastante. Nos copos, essas bolsas ficam presas em fibras de celulose ocas e em microfissuras da parede. Por isso as bolhas sobem em fileiras que partem sempre do mesmo ponto. Quando o CO2 dissolvido cai, as cavidades menores deixam de funcionar primeiro e o borbulhar vai se encerrando ponto a ponto, segundo o modelo de f1.

O que faz a bolha subir e crescer

A bolha de CO2 é flutuante no líquido e sobe por empuxo. No caminho, o CO2 dissolvido ao redor passa para dentro dela e o diâmetro aumenta, de modo que a bolha que chega à superfície é bem maior que a que se soltou da cavidade. O tamanho final depende da altura percorrida e de quanto CO2 há dissolvido. Cada bolha que sai leva gás para o ar, e é assim que a bebida vai ficando sem gás.

Como sabemos: microscopia, vídeo e modelo

As cavidades foram vistas em micrografias de copos e de fibras, e a subida das bolhas foi filmada em alta velocidade. O CO2 dissolvido foi medido por um método de titulação com a enzima anidrase carbônica, descrito em f1. O raio crítico e a contagem de bolhas, porém, vêm de equações: f1 diz que o modelo serve para estimar a ordem de grandeza, porque num copo real há cavidades de vários tamanhos.

O que sobra no ar: o aerossol da superfície

Ao estourar, cada bolha deixa uma cavidade que colapsa e lança um jato de gotas. No champanhe, os autores de f2 observaram que só há essas gotas de jato, sem as de película típicas da água e do spray marinho. Num modelo com bolha única, o aerossol evaporaria cerca de dez vezes mais líquido que a superfície parada. Compostos de aroma aparecem concentrados nessas gotas, segundo trabalho anterior citado pelos autores.

Como sabemos

Mecanismo bem estabelecido e descrito em artigos de acesso aberto; contagem de bolhas e raio crítico são de modelo teórico e o aerossol vem de experimento de bolha única.

Fontes

  1. ACS Omega (American Chemical Society); Université de Reims Champagne-Ardenne — How Many CO2 Bubbles in a Glass of Beer?
    Liger-Belair, G.; Cilindre, C. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1021/acsomega.1c00256
  2. Scientific Reports (Nature Publishing Group); Sorbonne Université/CNRS; Université de Reims — Evaporation of droplets in a Champagne wine aerosol
    Ghabache, E.; Liger-Belair, G.; Antkowiak, A.; Séon, T. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/srep25148
  3. Molecules (MDPI); Spring Arbor University — Ethanol as a Probe for the Mechanism of Bubble Nucleation in the Diet Coke and Mentos Experiment
    Kuntzleman, T. S.; Kuntzleman, J. T. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/molecules26061691
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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