Zoologia
Bodiões que quebram moluscos numa pedra: o que os vídeos mostram e o que ainda é discutido
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Bodiões (família Labridae) pegam presas de casca dura na boca e as batem repetidas vezes numa pedra ou coral até abri-las. Em Choerodon graphicus, vídeos mostraram até 28 golpes em duas bigornas num só evento; o comportamento também foi descrito no California sheephead. Como o peixe manipula a presa, e não a pedra fixa, chamá-lo de ferramenta depende do critério adotado.
Bodiões são peixes recifais da família Labridae. Em alguns, o chamado uso de bigorna segue um roteiro: o peixe segura na boca um molusco bivalve ou outra presa de casca dura, leva-o a uma pedra ou coral e o bate nela até quebrar. Sem apêndices de preensão, o peixe só pode usar um objeto segurando-o na boca. O comportamento foi filmado em Choerodon graphicus na Nova Caledônia (Pryor e Milton, 2019; Pryor, 2020), descrito no California sheephead (Dunn, 2016) e em Thalassoma hardwicke em aquário. Nada disso mostra o que o peixe sabe: descreve o que ele faz.
Uma bigorna de concreto
Entre as bigornas usadas por Choerodon graphicus na Nova Caledônia havia rochas, uma concha cônica, corais mortos achatados e até uma amarração de concreto, segundo o estudo de Pryor (2020).
Como sabemos: vídeo e contagem de golpes
O que se sabe de Choerodon graphicus vem de observação com vídeo na Nova Caledônia. Em 2019, Pryor e Milton registraram até 28 golpes em duas bigornas em 6 minutos. Em 2020, Pryor contou 16 eventos em 10 horas: 44% usaram mais de uma bigorna, em média houve seis golpes e 84 s por bigorna, e só bivalves e gastrópodes foram levados a elas. É uma espécie num local, e aqui só os resumos foram lidos.
Por que a pedra é o ponto do debate
Sem mãos, o bodião só segura um objeto na boca, e a bigorna é uma superfície fixa que ele não move: o que ele manipula é a presa. A revisão de Mann e Patterson (2013) contrasta esse uso com o das lontras-marinhas, que manipulam diretamente a bigorna, e mantém que o objeto precisa ser manipulado diretamente para ser ferramenta. A definição geral está no artigo do polvo-de-veia; que a bigorna fixa fique no limite desse critério é leitura nossa.
Outras espécies e o que se infere
O California sheephead, de águas temperadas, também foi visto usando bigorna (Dunn, 2016), e Thalassoma hardwicke o faz em aquário para quebrar ração. Estienne e colegas concluem que isso não parece um padrão fixo geneticamente programado e afirmam que, entre os teleósteos, só os bodiões o apresentam. Pryor e Milton propõem como hipótese que o hábito seja disseminado, sobretudo em Choerodon.
O cérebro e o que ainda falta
Num estudo com 11 espécies de peixes, bodiões que usam ferramentas têm telencéfalo e partes do cérebro anterior e médio maiores em massa, não em proporção de células, mas com animais pequenos e sem isolar o uso de ferramenta como causa. Nas fontes lidas não há teste de aprendizado nem medida do custo de bater a presa; os próprios autores esperam mais observações.
Como sabemos
Os números vêm de resumos e de uma revisão; a classificação como ferramenta depende do critério e a leitura da bigorna fixa é nossa.
- Fato estabelecido: Em vídeos feitos na Nova Caledônia, o bodião Choerodon graphicus usou pedras e blocos de coral como bigorna para abrir bivalves, com até 28 golpes em duas bigornas ao longo de 6 minutos num único evento. [3] Resumo
Contexto: Pryor e Milton (2019), observação com vídeo na Nova Caledônia. · Limitações: Só o resumo foi lido; o número é o máximo de um evento, não o típico. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num segundo estudo na Nova Caledônia, Pryor (2020) observou 16 eventos em 10 horas: em 44% deles havia mais de uma bigorna, em média o peixe bateu a presa seis vezes e ficou 84 s numa bigorna, e as únicas presas levadas às bigornas foram moluscos bivalves e gastrópodes. [4] Resumo
Contexto: Observação de Choerodon graphicus na Nova Caledônia. · Limitações: Só o resumo foi lido; amostra de 16 eventos num local. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O comportamento também foi descrito em um bodião de águas temperadas, o California sheephead (Semicossyphus pulcher), em que vários indivíduos foram vistos usando uma bigorna para esmagar presas de corpo duro. [5] Resumo
Contexto: Dunn (2016). · Limitações: Só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo Estienne e colegas, na maioria dos casos de uso de ferramenta por bodiões o peixe segura um molusco bivalve na mandíbula, leva-o a um ponto de alimentação com bigornas embutidas no substrato (corais ou rochas) e o quebra batendo-o repetidas vezes nelas; como os peixes não têm apêndices de preensão, a única forma de usar um objeto é segurá-lo na boca. [2] Introdução
Contexto: Descrição geral feita por um artigo de neuroanatomia comparada, citando trabalhos anteriores. · Limitações: É uma síntese, não uma observação nova. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Em aquário, alguns Thalassoma hardwicke usam uma bigorna para quebrar um grande pedaço de ração em partes menores, e os autores consideram que o comportamento não parece ser um padrão fixo geneticamente programado. [2] Introdução
Contexto: Argumento de Estienne e colegas a partir de relatos em cativeiro. · Limitações: Não houve teste de aprendizado nas fontes lidas; é uma inferência dos autores. · Inferência dos autores a partir de observação em cativeiro. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo uma revisão de 2013, o uso de ferramentas é raro entre animais aquáticos, embora presente em vários grupos, e bater ou controlar objetos debaixo d’água é mais difícil do que no ar. [1] Seção sobre ambiente aquático
Contexto: Revisão de Mann e Patterson (2013). · Limitações: A própria revisão menciona viés de observação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A mesma revisão contrapõe o uso de bigorna por alguns peixes ao das lontras-marinhas, que manipulam diretamente a bigorna, e mantém que o objeto precisa ser manipulado diretamente para ser ferramenta. [1] Introdução
Contexto: A revisão não classifica o bodião nos trechos lidos; só faz o contraste com as lontras. · Limitações: Que a bigorna fixa do bodião fique no limite desse critério é leitura nossa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores do estudo de 2019 dizem que o resultado apoia a hipótese de que o uso de ferramentas seja disseminado entre bodiões, em particular no gênero Choerodon. [3] Resumo
Contexto: Hipótese de Pryor e Milton, a partir de uma espécie. · Limitações: Uma espécie observada num local. · Hipótese dos autores, formulada a partir de uma espécie. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Consenso científico: Estienne e colegas afirmam que, entre os teleósteos, esse comportamento semelhante ao uso de ferramenta é observado unicamente no grupo dos bodiões. [2] Introdução
Contexto: Afirmação dos autores do artigo de 2024. · Limitações: Afirmação de um artigo, sem levantamento próprio; relatos novos podem ampliá-la. · Afirmação dos autores, não revisada por levantamento próprio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Num estudo com 11 espécies de teleósteos, os bodiões que usam ferramentas tiveram o telencéfalo e partes do cérebro anterior e médio ampliados em massa, mas sem proporção maior de células; os autores notam que os animais eram pequenos e recomendam confirmar com indivíduos maiores. [2] Resultados
Contexto: Três bodiões contra oito outras espécies de peixes. · Limitações: A comparação é entre espécies e não isola o uso de ferramenta como causa; Labroides dimidiatus não é citado como usuário de ferramenta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Para Pryor (2020), os resultados são uma base para pesquisas futuras sobre uso de ferramentas em peixes, e Dunn (2016) prevê mais observações com melhor monitoramento subaquático. [4] Resumo [5] Resumo
Contexto: Perspectiva dos autores. · Limitações: Previsão, não resultado. · Expectativa dos autores sobre pesquisas futuras. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Philosophical Transactions of the Royal Society B — Tool use by aquatic animals
Mann, J.; Patterson, E. M. · 2013 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2012.0424 - Communications Biology — Different ways of evolving tool-using brains in teleosts and amniotes
Estienne, P.; Simion, M.; Hagio, H.; Yamamoto, N.; Jenett, A.; Yamamoto, K. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s42003-023-05663-8 - Journal of Fish Biology — Tool use by the graphic tuskfish Choerodon graphicus
Pryor, K. J.; Milton, A. M. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/jfb.13983 - Journal of Fish Biology — Frequent visits to various anvils during tool use by the graphic tuskfish Choerodon graphicus (Labridae)
Pryor, K. J. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/jfb.14503 - Journal of Fish Biology — Tool use by a temperate wrasse, California sheephead Semicossyphus pulcher
Dunn, R. P. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/jfb.12856
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)