Evolução

Bioluminescência evoluiu muitas vezes: a árvore dos peixes de nadadeiras raiadas mostra pelo menos 27 origens

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Árvores de parentesco datadas com fósseis, junto com uma reconstrução estatística do estado ancestral, indicam que nos peixes de nadadeiras raiadas a capacidade de produzir luz surgiu de forma independente pelo menos 27 vezes, entre cerca de 150 milhões de anos atrás e hoje. É uma estimativa e um piso: depende da árvore e de quais espécies são conhecidas como luminosas.

Bioluminescência é a produção de luz por um organismo vivo, por uma reação entre uma molécula-substrato (luciferina) e uma enzima (luciferase). Para saber se a capacidade surgiu uma vez ou várias, compara-se o parentesco dos grupos que brilham: se dois grupos luminosos têm um ancestral comum que não brilhava, cada um adquiriu a luz por conta própria. Isso exige uma árvore de parentesco confiável, uma lista de quem brilha e um método estatístico que estime o estado dos ancestrais. As moléculas dão um segundo teste: enzimas de origem comum apontam uma só origem, enzimas sem parentesco apontam origens separadas (convergência, quando linhagens distintas chegam a uma característica parecida por caminhos próprios).

Peixe que pega a luz do ambiente

Em peixes com luz de bactérias, a bactéria não é herdada: há pouca ou nenhuma especificidade entre espécie de bactéria e de peixe, e cada peixe a obtém no ambiente local. Isso ajuda a entender por que a simbiose luminosa apareceu tantas vezes.

Como se conta uma origem

Davis e colegas (2016) montaram uma árvore de parentesco a partir de 11 fragmentos de genes, datada com 21 fósseis, e marcaram nela quais grupos de peixes têm luz. Um método bayesiano de reconstrução do estado ancestral estimou, nos nós da árvore, se o ancestral brilhava. Cada passagem de ausente para presente foi contada como uma origem independente. O resultado: ao menos 27 origens em 14 grandes linhagens, 8 de luz própria e ao menos 17 por bactérias simbiontes.

O segundo teste: as moléculas

A luz química usa luciferina e luciferase. Linhagens com uma origem comum devem ter essas moléculas idênticas e homólogas, com exceções em alguns marinhos. Os dados vão nesse sentido: há dezenas de sistemas conhecidos, com nove luciferinas naturais, e luciferases do tipo Renilla parecem ter surgido de modo convergente a partir de desalogenases em cnidários, num ofiuroide e num tunicado. A interpretação ainda se apoia em uma luciferase putativa do tunicado.

Quando o método conclui por uma origem só

O mesmo raciocínio não dá sempre muitas origens. Nos octocorais, que parecem partilhar luciferina e luciferase homólogas, uma análise com genomas apontou uma origem única, perto de 540 milhões de anos atrás, com intervalo de 95% de 463 a 624 milhões. Os 27 dos peixes não vêm de uma preferência por 'muitas': são o que a árvore e a lista de espécies luminosas permitiram inferir em cada grupo.

Limites da estimativa

O 27 é um piso, e os próprios autores acham provável que as origens por simbiose sejam mais. O estado 'não luminoso' é mal documentado porque observações negativas raramente são publicadas. No inventário de 2024, de 9.405 espécies em gêneros luminosos, 6.389 têm status desconhecido. Os números mais amplos, como mais de 100 origens na árvore da vida, vêm de sínteses que citam outros estudos.

Como sabemos

Os números centrais vêm de um estudo lido na íntegra e conferido; as sínteses de moléculas e a cifra de mais de 100 origens vêm de leitura parcial e de segunda mão.

Fontes

  1. PLOS ONE — Repeated and Widespread Evolution of Bioluminescence in Marine Fishes
    Davis, M. P.; Sparks, J. S.; Smith, W. L. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0155154
  2. Annual Review of Marine Science — Bioluminescence in the sea
    Haddock, S. H. D.; Moline, M. A.; Case, J. F. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1146/annurev-marine-120308-081028
  3. Scientific Reports — A putative chordate luciferase from a cosmopolitan tunicate indicates convergent bioluminescence evolution across phyla
    Tessler, M. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-020-73446-w
  4. Proceedings of the Royal Society B — Evolution of bioluminescence in Anthozoa with emphasis on Octocorallia
    DeLeo, D. M.; Bessho-Uehara, M.; Haddock, S. H. D.; McFadden, C. S.; Quattrini, A. M. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2023.2626
  5. Life (MDPI) — Systematic Distribution of Bioluminescence in Marine Animals: A Species-Level Inventory
    Claes, J. M.; Haddock, S. H. D.; Coubris, C.; Mallefet, J. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/life14040432
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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