História geral
A Biblioteca de Alexandria provavelmente não acabou num único incêndio, e sim num declínio de séculos
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Em 48 a.C., durante a guerra de César em Alexandria, um incêndio partiu das docas. Plutarco diz que o fogo destruiu a grande biblioteca, mas o tradutor da edição consultada nota que a destruição só pode ter sido parcial, e a World History Encyclopedia afirma que a biblioteca seguiu funcionando. A explicação mais provável é um declínio gradual, e não um evento único.
A biblioteca foi criada no reinado de Ptolemeu I (323–282 a.C.) e construída sob Ptolemeu II Filadelfo (282–246 a.C.), com o dinheiro do Egito, rico em grãos e dono do monopólio do papiro. A coleção teria cerca de 490 mil rolos, número incerto porque muitos rolos continham mais de uma obra e outros eram cópias. Os relatos antigos do incêndio de 48 a.C. divergem: Plutarco fala em destruição da grande biblioteca, Dião Cássio cita docas, depósitos de grãos e a biblioteca, e a World History Encyclopedia diz que só um depósito perto do porto queimou. O declínio teria começado quando Ptolemeu VIII expulsou estudiosos estrangeiros, em 145 a.C., e se estendido por séculos.
A lenda do califa que queimou os livros
A história de que o califa Umar teria mandado queimar a biblioteca após a conquista árabe aparece apenas cerca de 600 anos depois, nos escritos de Gregório Bar Hebraeus. Estudiosos a descartam como ficção desde o século XVIII.
Fundação e acervo
A World History Encyclopedia situa a fundação no reinado de Ptolemeu I (323–282 a.C.) e a construção sob Ptolemeu II Filadelfo (282–246 a.C.). O Egito era mais rico que os rivais dos Ptolemeus, por causa dos grãos e do monopólio do papiro, o que permitiu financiar um centro cultural. A coleção teria cerca de 490 mil rolos, mas muitos continham mais de uma obra e outros eram duplicatas, de modo que o número exato é incerto. Uma biblioteca menor teria cerca de 42.800 rolos.
O fogo de 48 a.C.
Plutarco, na Vida de César, conta que César usou fogo para repelir a ameaça à sua frota, e que o fogo se espalhou das docas e destruiu a grande biblioteca; uma nota do tradutor diz que a destruição só pode ter sido parcial. Dião Cássio escreve que os combates incendiaram docas, depósitos de grãos e a biblioteca. A World History Encyclopedia diz que o que queimou foi um depósito perto do porto. As versões diferem e todas são posteriores ao fato.
O que veio depois
Para a World History Encyclopedia, a explicação mais plausível do declínio é a perda de patrocínio depois que Ptolemeu VIII expulsou estudiosos estrangeiros, em 145 a.C., seguida de apoio irregular dos imperadores romanos e de agitação civil. O Serapeu, que abrigava parte da coleção, foi destruído pelo bispo Teófilo em 391 d.C., mas não é claro se ainda havia manuscritos ali. Plutarco registra também a acusação de que Antônio deu a Cleópatra as bibliotecas de Pérgamo, com 200 mil volumes, sem que o fato esteja provado.
O mito do califa e a conclusão
A história de que o califa Umar mandou queimar a biblioteca depois da conquista árabe só aparece cerca de 600 anos depois, em Gregório Bar Hebraeus, e é descartada como ficção desde o século XVIII. A conclusão da World History Encyclopedia é que um declínio gradual, por negligência, é mais provável do que uma destruição dramática. Cópias espalhadas pelo Mediterrâneo ajudaram a preservar parte do conhecimento antigo.
Como sabemos
O panorama é bem estabelecido, mas sobre 48 a.C. as fontes antigas divergem e o texto apresenta o debate; faltou uma fonte acadêmica moderna aberta.
Em debate: O que o incêndio de 48 a.C. destruiu é debatido. Plutarco fala da grande biblioteca; Dião Cássio, de docas, depósitos de grãos e biblioteca; a World History Encyclopedia sustenta que só um depósito queimou e que a biblioteca continuou. O tradutor de Plutarco na edição de Perseus nota que a destruição só pode ter sido parcial. Os autores antigos escrevem muito tempo depois dos fatos.
Em debate: Não há consenso sobre o tamanho da coleção: o número de cerca de 490 mil rolos inclui cópias e rolos com várias obras.
- Consenso científico: A biblioteca foi estabelecida no reinado de Ptolemeu I (323–282 a.C.) e construída sob Ptolemeu II Filadelfo (282–246 a.C.). [4]
- Estimativa: A biblioteca teria cerca de 490 mil rolos, mas muitos continham mais de uma obra e outros eram cópias; uma 'biblioteca-filha' teria cerca de 42.800 rolos. [4]
O número é transmitido por fontes antigas tardias e os especialistas debatem se conta obras ou rolos. - Fato estabelecido: Segundo Plutarco (Vida de César, 49), o fogo que César usou contra a frota inimiga se espalhou das docas e destruiu a grande biblioteca. [1]
Afirmação do autor antigo, não fato independente. - Interpretação: Para o tradutor da edição consultada, a destruição da biblioteca no incêndio de 48 a.C. só pode ter sido parcial. [1]
- Fato estabelecido: Segundo Dião Cássio (42.38), os combates em Alexandria incendiaram as docas, os depósitos de grãos e também a biblioteca, cujos volumes eram, segundo se dizia, os mais numerosos e excelentes. [2]
Segundo a tradução Loeb de 1916; o autor escreve mais de dois séculos depois dos fatos. - Em debate: Segundo a World History Encyclopedia, as tropas de César queimaram um depósito perto do porto em 48 a.C., e a biblioteca continuou funcionando depois. [4]
A fonte infere a continuidade do fato de Antônio ter dado livros a Cleópatra em 43 a.C., mas o relato vem de uma acusação hostil, conforme Plutarco. - Incerto: Segundo Plutarco, Calvisius acusou Antônio de ter dado a Cleópatra as bibliotecas de Pérgamo, com 200 mil volumes. [3]
Plutarco apresenta o relato como acusação política, e a verdade do fato não está estabelecida. - Interpretação: A causa mais plausível do declínio é a perda de patrocínio depois que Ptolemeu VIII expulsou estudiosos estrangeiros, em 145 a.C. [4]
Interpretação da World History Encyclopedia; o apoio dos imperadores romanos foi irregular. - Incerto: O bispo Teófilo destruiu o templo de Serápis, o Serapeu, em 391 d.C., que abrigava parte da coleção; não é claro se ainda havia manuscritos nele. [4]
A destruição do templo é registrada; a presença de manuscritos naquela data é incerta. - Consenso científico: A história de que o califa Umar mandou queimar a biblioteca aparece apenas cerca de 600 anos depois, em Bar Hebraeus, e é tida como ficção desde o século XVIII. [4]
- Interpretação: Um declínio gradual por abandono é mais provável do que uma destruição dramática, e cópias dispersas pelo Mediterrâneo ajudaram a preservar o conhecimento. [4]
Fontes
- Perseus Digital Library, Tufts University — Plutarch, Life of Caesar, 49 (tradução de B. Perrin)
consultada em 04/10/2026 - LacusCurtius, Universidade de Chicago — Cassius Dio, Roman History, Book 42 (Loeb Classical Library, 1916)
consultada em 04/10/2026 - Perseus Digital Library, Tufts University — Plutarch, Life of Antony, 58 (tradução de B. Perrin)
consultada em 04/10/2026 - World History Encyclopedia — Library of Alexandria
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 05/10/2026 — Galeria: 3 imagem(ns) real(is) de pessoas e lugares (Wikidata/Commons)
- Versão 1 · 05/10/2026 — migração da versão 0.3 (lotes 001 a 003)