Astronomia

Betelgeuse escureceu em 2019-2020: poeira e uma região fria na superfície, não o início de uma explosão

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Estrelas

Em fevereiro de 2020, Betelgeuse caiu à magnitude visual 1,614, bem abaixo da faixa usual de 0,1 a 1,0. Imagens do VLT mostraram o hemisfério sul dez vezes mais escuro. As observações apontam para uma nuvem de poeira recém-formada perto da estrela e para uma região mais fria na superfície; o diâmetro não mudou e nada indica explosão iminente.

Betelgeuse, em Órion, é uma supergigante vermelha, a fase final da vida de estrelas muito massivas (veja a duração dessas fases e o destino das estrelas em posts relacionados). Seu brilho sempre oscilou, mas entre novembro de 2019 e março de 2020 ela passou por um escurecimento histórico, a Grande Escurecida. Na escala de magnitudes, número maior significa brilho menor: 1,614 está bem abaixo da faixa usual. A pergunta era o que causou a queda: a estrela esfriou, uma nuvem de poeira a encobriu, o tamanho mudou? A suspeita de prelúdio de supernova circulou, mas foi testada. A resposta veio de imagens que resolvem o disco da estrela, de modelos e de medições em vários comprimentos de onda.

Um satélite do tempo virou telescópio

O Himawari-8, satélite meteorológico japonês que fotografa a Terra a cada dez minutos, registra também estrelas brilhantes na borda do disco, entre elas Betelgeuse. Suas imagens no infravermelho médio, onde a poeira brilha, ajudaram a mostrar que a poeira contribuiu para o escurecimento.

O que as observações descartaram

Montargès e colegas testaram quatro cenários: a estrela esfriou, poeira nova se formou, uma nuvem de poeira passou na frente dela ou o diâmetro mudou. Uma nuvem em trânsito mudaria de quadrante, mas a região escura ficou no sudoeste de dezembro de 2019 a março de 2020. O diâmetro foi de 42,11 milissegundos de arco em fevereiro de 2020, longe da variação de 30% necessária. Sobraram esfriamento local e poeira nova.

Como sabemos: ver o disco, não só a curva de luz

Uma curva de luz sozinha não separa poeira de esfriamento. O que ajudou foram imagens que resolvem o disco: o instrumento SPHERE-ZIMPOL, no VLT do ESO, imageou a estrela em janeiro de 2019 e em dezembro de 2019, janeiro e março de 2020. O sul ficou com pico de brilho mais de dez vezes menor que o norte. Modelos de mancha fria e de nuvem de poeira reproduziram o padrão no visível, mas ambos erraram a banda J do infravermelho próximo: previram queda de 1,2 a 1,3 vezes, e se observou 1,02.

Poeira, região fria ou as duas coisas?

Em 2020, Levesque e Massey mediram 3.600 K, queda pequena demais para explicar tudo, e sugeriram poeira. Harper e colegas mostraram que componentes mais frios da fotosfera dispensariam poeira nova. Depois, o satélite Himawari-8 indicou contribuições quase iguais de queda de temperatura e de poeira, e Dupree e colegas propuseram um choque na fotosfera que levou à produção de poeira. As imagens do MATISSE não separam os cenários. O quadro mais citado combina os dois efeitos, mas a proporção segue em aberto.

Por que não era sinal de explosão

Montargès e colegas concluem que o escurecimento não indica explosão iminente: escurecimentos sucessivos cabem no padrão irregular de variabilidade da estrela, e a taxa atual de perda de massa não parece corresponder à fase de perda intensa que, em parte das supernovas observadas, vem antes da explosão. O texto diz 'does not (yet) seem', então a conclusão é provisória. Ela também não prevê quando a estrela explodirá: só diz que este evento não foi o aviso.

Como sabemos

O que foi descartado (mudança de tamanho, nuvem em trânsito, explosão iminente) tem boa base em imagens do VLT, mas a proporção entre poeira e resfriamento segue em debate e vários resultados vêm de resumos.

Em debate: O mecanismo exato não está fechado. Em 2020, Levesque e Massey propuseram poeira e perda de massa episódica, enquanto Harper e colegas mostraram que o resfriamento de partes da fotosfera bastaria. Estudos posteriores com imagens (Montargès et al., 2021) e com o satélite Himawari-8 (Taniguchi et al.) apontam poeira recém-formada somada à região fria, e as imagens do MATISSE não separam os dois cenários.

Fontes

  1. Nature (lida a versão do arXiv) — A dusty veil shading Betelgeuse during its Great Dimming
    Montargès, M. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-021-03546-8
  2. The Astrophysical Journal Letters (lida a versão do arXiv) — Betelgeuse Just Isn't That Cool: Effective Temperature Alone Cannot Explain the Recent Dimming of Betelgeuse
    Levesque, E. M.; Massey, P. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  3. The Astrophysical Journal (lida a versão do arXiv) — The Photospheric Temperatures of Betelgeuse during the Great Dimming of 2019/2020: No New Dust Required
    Harper, G. M.; Guinan, E. F.; Wasatonic, R.; Ryde, N. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  4. Universidade de Tóquio (versão do arXiv) — The Great Dimming of Betelgeuse seen by the Himawari-8 meteorological satellite
    Taniguchi, D.; Yamazaki, K.; Uno, S. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  5. The Astrophysical Journal (lida a versão do arXiv) — The Great Dimming of Betelgeuse: a Surface Mass Ejection (SME) and its Consequences
    Dupree, A. K. et al. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  6. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (versão do arXiv) — Images of Betelgeuse with VLTI/MATISSE across the Great Dimming
    Drevon, J. et al. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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