Astronomia

Bennu, Ryugu e Murchison: aminoácidos, nucleobases e amônia em asteroides, e o que isso não prova

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Amostras do asteroide Bennu, trazidas à Terra em 2023, contêm 14 dos 20 aminoácidos das proteínas, as cinco nucleobases do DNA e do RNA e mais amônia que Ryugu e a maioria dos meteoritos. Ryugu e o meteorito Murchison também têm nucleobases. Isso mostra que asteroides levavam ingredientes da química da vida, mas não mostra vida nem como eles viraram células.

Aminoácidos são os blocos das proteínas; nucleobases (adenina, guanina, citosina, timina e uracila) são as letras do DNA e do RNA. Ambos podem se formar por química sem vida, como o experimento de 1953 já indicava. Condritos carbonáceos são meteoritos ricos em carbono, restos de asteroides primitivos; o Murchison é o mais estudado, mas meteoritos mudam ao ficar expostos ao ambiente da Terra. Por isso importam as missões que trazem material direto de um asteroide, a OSIRIS-REx (NASA) e a Hayabusa2 (JAXA). Uma mistura racêmica tem partes iguais das formas L e D de uma molécula: a vida usa quase só a L.

Uma regra do DNA que Bennu não cumpre

Em qualquer organismo, o DNA tem purinas e pirimidinas em proporção 1:1 (regras de Chargaff). Nas amostras de Bennu essa proporção é violada, um dos sinais usados pelos autores para dizer que as bases não vêm de células terrestres.

O que Bennu trouxe

O estudo de Glavin e colegas (2025) analisou material de Bennu coletado pela OSIRIS-REx. Encontrou 14 dos 20 aminoácidos das proteínas, formaldeído, ao menos 23 N-heterocíclicos (entre eles as cinco nucleobases) e muita amônia, cerca de 40% do nitrogênio do extrato em água quente. As proporções sugerem reações em baixa temperatura, possivelmente em fluidos ricos em amônia, num corpo que acumulou gelos de uma região externa do Sistema Solar.

Ryugu e Murchison: uma química parecida

O Murchison, que caiu em 1969, dominou por décadas as análises de aminoácidos em meteoritos. Em 2011, Callahan e colegas acharam nele várias nucleobases, entre elas purinas raras na Terra. Em Ryugu, visitado pela Hayabusa2, Oba e colegas (2023) detectaram uracila entre 11 e 32 partes por bilhão, e a equipe inicial já relatara aminoácidos racêmicos. Bennu soma amônia abundante e uma amostra coletada sem exposição descontrolada à biosfera.

Como sabemos que não é contaminação

Moléculas orgânicas estão por toda a Terra, então a primeira pergunta é se vieram de fora. Em Bennu, alanina e ácido aspártico racêmicos mostram que quase não há proteína biológica misturada, e o nitrogênio-15 da amônia descarta o propelente da sonda. No Murchison, o mesmo conjunto de bases saiu de uma reação com cianeto de amônio e não apareceu nos brancos nem no solo. Limite: a L-valina de Bennu (excesso de 34%) pode ser de laboratório.

O que isso prova e o que não prova

Mostra que moléculas ligadas à vida se formam sem vida e estavam em corpos que podiam abastecer a Terra jovem. Não mostra vida: a NASA diz que as descobertas não são evidência de vida, e os autores só escrevem que asteroides poderiam ter sido uma fonte. Como moléculas soltas viram sistemas que se copiam fica fora do que essas amostras medem, e o viés L da vida segue sem explicação: em Bennu os aminoácidos não proteicos são racêmicos.

Como sabemos

Resultados medidos vêm de artigos abertos lidos por inteiro (Bennu, Ryugu, Murchison); a parte de origem da vida é tratada como hipótese.

Fontes

  1. Nature Astronomy — Abundant ammonia and nitrogen-rich soluble organic matter in samples from asteroid (101955) Bennu
    Glavin, D. P.; Dworkin, J. P.; Alexander, C. M. O’D. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41550-024-02472-9
  2. Nature Communications — Uracil in the carbonaceous asteroid (162173) Ryugu
    Oba, Y. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-023-36904-3
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Carbonaceous meteorites contain a wide range of extraterrestrial nucleobases
    Callahan, M. P. et al. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1106493108
  4. Nature — An evaporite sequence from ancient brine recorded in Bennu samples
    McCoy, T. J. et al. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-024-08495-6
  5. NASA — Bennu Sample Reveals Mix of Life’s Ingredients
    NASA (Jessica Taveau) · 2025-01-29 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  6. ACS Central Science — Meteoritic Amino Acids: Diversity in Compositions Reflects Parent Body Histories
    Elsila, J. E. et al. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1021/acscentsci.6b00074
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos