Zoologia
O coração de um beija-flor pode passar de mil batimentos por minuto
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Em experimentos do fisiólogo Robert Lasiewski, o coração de beija-flores de cinco espécies chegou a 1.200 batimentos por minuto, o maior valor medido. Foram aves presas e agitadas, e não em voo. No voo parado, o consumo de oxigênio passa de dez vezes o do repouso, mas o coração só acelera cerca de três vezes: o restante vem de mais sangue bombeado por batida.
Em 1964, Lasiewski mediu a frequência cardíaca de beija-flores mantidos em câmaras escuras e de temperatura controlada. Em repouso e aquecidas, as aves ficavam em torno de 480 batimentos por minuto; agitadas, passaram de mil e chegaram a 1.200. O próprio autor avisou que esse valor talvez não fosse o teto, pois não conseguiu registrar o coração durante o voo. À noite, o quadro se inverte: em torpor, o coração caiu para 48 a 180 batimentos por minuto, conforme a temperatura do ambiente. Em espécies tropicais, como as do Espírito Santo estudadas por pesquisadores brasileiros e europeus, a temperatura do corpo em torpor fica entre 12 e 20 °C. Antes dessa pesquisa, Yapp havia sugerido que cerca de 1.000 por minuto seria o limite do coração de uma ave.
O número famoso que não apareceu
O valor de 1.260 batimentos por minuto, repetido em sites e museus virtuais, não aparece no estudo de 1964, cujo máximo foi 1.200. Sem a medição original à vista, esta página usa o número que dá para conferir.
O que foi medido de fato
As medições de Lasiewski usaram aves contidas em jaquetas de flanela e postas em câmaras com temperatura controlada, com o coração registrado por eletrocardiograma. Os picos de 1.200 batimentos por minuto vieram de aves se debatendo, não de voo. Medir o coração em pleno voo não era viável na época, e o autor reconheceu que o teto verdadeiro podia ser maior. Por isso o título diz que o coração "pode passar" de mil batimentos.
Voo parado: mais sangue por batida
Um estudo com espécies do Espírito Santo, feito em Santa Teresa, a cerca de 700 m de altitude, mostrou que o consumo de oxigênio no voo parado ultrapassa dez vezes o do repouso, enquanto a frequência cardíaca sobe só cerca de três vezes. A diferença se explica pelo oxigênio levado por batida, que cresce. Os beija-flores têm corações grandes em relação ao corpo, o que ajuda nessa tarefa.
A noite: torpor
Com as reservas baixas, os beija-flores podem abandonar a temperatura corporal constante e entrar em torpor. No estudo de 1964, o coração caiu para 48 a 180 batimentos por minuto, conforme a temperatura do ambiente. Em espécies tropicais, a temperatura do corpo é mantida entre 12 e 20 °C. Ao despertar, o consumo de oxigênio dispara até valores comparáveis aos do voo parado.
O metabolismo mais intenso entre os vertebrados
Uma revisão de 1994 resume que beija-flores em voo parado têm as maiores taxas metabólicas por unidade de massa entre os vertebrados. Os músculos de voo trabalham com potência perto de 100 W por kg e eficiência de cerca de 10%. Mais de 90% das espécies pesam menos de 8 g, segundo o estudo de 2006, o que torna ainda mais alto o custo de manter o corpo aquecido.
Como sabemos
O máximo de 1.200 batimentos e os valores de torpor vêm do estudo original de 1964; o metabolismo vem de uma revisão e de um estudo com espécies brasileiras.
- Fato estabelecido: Lasiewski (1964) registrou frequência cardíaca máxima de 1.200 batimentos por minuto em beija-flores de cinco espécies (Archilochus alexandri, A. colubris, Calypte costae, C. anna e Selasphorus rufus). [1]
- Fato estabelecido: Os valores mais altos vieram de aves contidas em jaquetas de flanela, que se debatiam ou estavam excitadas, e não de aves em repouso ou em voo. [1]
- Fato estabelecido: O autor não conseguiu registrar o coração durante o voo e escreveu que 1.200 provavelmente não é o limite dos beija-flores. [1]
- Fato estabelecido: Yapp (1962) propôs, com os dados disponíveis, que o limite da frequência cardíaca de uma ave estaria em torno de 1.000 por minuto. [1]
- Fato estabelecido: Em beija-flores em repouso e mantidos aquecidos, as frequências mínimas ficaram em torno de 480 batimentos por minuto. [1]
- Fato estabelecido: Em torpor, a frequência cardíaca variou de 48 a 180 batimentos por minuto, conforme a temperatura do ambiente. [1]
- Consenso científico: Espécies tropicais costumam usar torpor noturno, com temperatura corporal defendida entre 12 e 20 °C. [2]
- Fato estabelecido: Em espécies brasileiras estudadas em Santa Teresa (ES), o consumo de oxigênio no voo parado foi mais de dez vezes o do repouso, e a frequência cardíaca aumentou só cerca de três vezes. [2]
- Evidência forte: Como o coração não acelera o bastante, o oxigênio transportado por batida precisa aumentar; os beija-flores têm corações relativamente maiores que os de outras aves. [2]
- Fato estabelecido: Durante o despertar do torpor, o consumo de oxigênio chega a picos de 17 a 41 ml de O2 por grama por hora, próximos aos do voo parado e, em algumas espécies, cerca de 100 vezes o menor nível do torpor. [2]
- Consenso científico: Beija-flores em voo parado têm as maiores taxas metabólicas por unidade de massa entre os vertebrados. [3]
- Estimativa: Os músculos do voo parado operam com potência perto de 100 W por kg e eficiência de cerca de 10%. [3]
Valores derivados de análise aerodinâmica e de modelos, não de medição direta. - Fato estabelecido: Mais de 90% das espécies de beija-flores pesam menos de 8 g. [2]
Citado por Bech et al. a partir do Handbook of Avian Body Masses (Dunning, 1993).
Fontes
- Physiological Zoology, University of Chicago Press (R. C. Lasiewski, 1964) — Body Temperatures, Heart and Breathing Rate, and Evaporative Water Loss in Hummingbirds
consultada em 11/10/2026 - Acta Zoologica Sinica (Bech, Steffensen, Berger, Abe e Bicudo, 2006) — Metabolic aspects of torpor in hummingbirds
consultada em 11/10/2026 - Advances in Veterinary Science and Comparative Medicine (Wells e Ellington, 1994), PubMed — Beyond the vertebrates: achieving maximum power during flight in insects and hummingbirds
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão