Zoologia

Baleia-bicuda-de-Cuvier: recordes de 2.992 m e 137,5 min medidos por satélite em 2014, com ressalvas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Os mergulhos mais fundo e mais longo registrados em mamíferos até a publicação, em 2014, vieram de baleias-bicudas-de-Cuvier marcadas com etiquetas de satélite no sul da Califórnia: 2.992 m de profundidade e 137,5 min de duração. Foram dois mergulhos de baleias diferentes, não um só. A medição tem ressalvas: a área era um campo de treino de sonar naval, e há divergência publicada sobre se os mergulhos extremos eram comportamento normal.

A baleia-bicuda-de-Cuvier (Ziphius cavirostris) é um cetáceo dentado de águas profundas, difícil de observar porque passa pouco tempo na superfície. Etiquetas de satélite presas à nadadeira dorsal registram cada mergulho, definido ali como submersão além de 50 m e acima de 30 s, e enviam resumos pelo sistema Argos: início, fim e profundidade máxima. Em 2014, oito baleias marcadas por até três meses renderam 3.732 horas de dados, contra menos de 215 horas em todos os registros anteriores da espécie. Os dois recordes superaram os de elefantes-marinhos-do-sul (2.388 m e 120 min). Um estudo de outro grupo, em Cape Hatteras, encontrou valores próximos, mas menores.

Sete mergulhos fundos por dia

As baleias marcadas faziam cerca de 0,30 mergulho profundo por hora, ou cerca de 7 por dia, com 102,3 min em média entre um e outro. Em Cape Hatteras, outro grupo mediu intervalos de superfície com mediana de apenas 2,2 min.

Como se mediu: etiqueta, satélite e resumo

A etiqueta é fixada na nadadeira dorsal por dois dardos de titânio, disparados de um barco. Um sensor de pressão mede a profundidade; a etiqueta guarda início, fim e profundidade máxima de cada mergulho e transmite esses resumos por satélite. O erro do sensor foi testado em câmara de pressão até 3.000 m. Como a baleia emerge por pouco tempo, a transmissão falha com frequência e o registro tem lacunas.

O que os números não dizem

Os recordes são máximos de oito baleias, não valores típicos: a média dos mergulhos profundos foi de 1.401 m e 67,4 min. Os 2.992 m e os 137,5 min vieram de baleias diferentes (leitura nossa da Tabela 2). Em Cape Hatteras, outro grupo mediu 2.800 m e 114,7 min. Os autores de lá suspeitam que algumas baleias vão mais fundo do que as etiquetas suportam, o que é só hipótese.

A ressalva do sonar

As oito baleias foram marcadas numa área de treino de sonar de média frequência, e estiveram lá em 38% dos dias com localização. Tyack e colegas pediram, em 2015, que se informasse se os mergulhos-recorde ocorreram perto de exercícios de sonar, pois poderiam ser reação. Os autores responderam que os registros completos de uso de sonar não estavam disponíveis e que a análise ficaria para depois. Nas fontes lidas, essa pergunta continua sem resposta.

Como um mamífero aguenta duas horas

O limite aeróbico de mergulho é o tempo que o oxigênio armazenado no corpo sustentaria; para a espécie, foi estimado em 33 min, e os mergulhos típicos passam disso. A hipótese em discussão é que as baleias usam metabolismo anaeróbico e depois descansam o bastante para eliminar o lactato. Ela se apoia em estatística de dados de mergulho, sem medidas de lactato nas baleias, e o próprio estudo registra mergulhos fundos em sequência rápida, que a complicam.

Como sabemos

Os valores são do artigo original e batem com a revisão de 2019, mas é medição de um único estudo, em área de sonar, e a profundidade máxima real da espécie não está estabelecida.

Em debate: Tyack e colegas (2015) dizem que o mergulho mais longo pode ter sido reação ao sonar, pois as baleias foram marcadas numa área de treino naval; Schorr e colegas respondem que o papel humano não pode ser descartado e que a análise com dados de sonar dependia de registros que não tinham.

Fontes

  1. PLoS ONE — First Long-Term Behavioral Records from Cuvier’s Beaked Whales (Ziphius cavirostris) Reveal Record-Breaking Dives
    Schorr, G. S.; Falcone, E. A.; Moretti, D. J.; Andrews, R. D. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0092633
  2. PLoS ONE — Formal Comment on Schorr GS, Falcone EA, Moretti DJ, Andrews RD (2014) First Long-Term Behavioral Records from Cuvier’s Beaked Whales (Ziphius cavirostris) Reveal Record-Breaking Dives
    Tyack, P. L.; Calambokidis, J.; Friedlaender, A.; Goldbogen, J.; Southall, B. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0142287
  3. Royal Society Open Science — Diving behaviour of Cuvier's beaked whales (Ziphius cavirostris) off Cape Hatteras, North Carolina
    Shearer, J. M. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.181728
  4. PLoS ONE — Physiological, morphological, and ecological tradeoffs influence vertical habitat use of deep-diving toothed-whales in the Bahamas
    Joyce, T. W. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0185113
  5. Ecology and Evolution — Long-Term Depth Records of Satellite-Tagged Northern Bottlenose Whales Reveal Extraordinary Dive Capabilities
    Neubarth, B. K. et al. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.71862
  6. PLoS ONE — Rebuttal to the Formal Comment on Schorr et al. (2014) submitted by Tyack et al. (2015)
    Schorr, G. S.; Falcone, E. A.; Moretti, D. J.; Andrews, R. D. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0142437
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos