Ecologia

Baías, salinas e corixos: como lagoas doces e alcalinas convivem no mosaico do Pantanal

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Na Nhecolândia, no Pantanal sul, lagoas de água doce (baías) e lagoas salobras e alcalinas (salinas) ficam a curta distância. Parte da diferença vem do isolamento: as baías se ligam a outras águas na cheia, por corixos e vazantes; as salinas ficam isoladas, concentram sais por evaporação e chegam a pH próximo de 9,5 ou acima. Cada tipo de lagoa abriga uma comunidade diferente de algas e aves.

No Pantanal, o nível dos rios sobe e desce todo ano, mas a Nhecolândia, região entre os rios Taquari e Negro, tem um relevo em que pequenas elevações isolam depressões rasas. Os moradores chamam de baías as lagoas doces, de salinas as lagoas salobras e alcalinas, e de corixos e vazantes os canais que as ligam na cheia. Um corixo é um curso d'água sazonal com leito definido; uma vazante é um escoamento amplo, sem calha. Este post trata dessa escala pequena; o pulso de inundação que enche e esvazia o conjunto já tem texto próprio. A palavra "alcalina" aqui significa água com pH alto, acima de 9, rica em carbonato de sódio.

Verde de algas, preta de matéria orgânica

Duas salinas vizinhas da Nhecolândia foram comparadas em 2012: a Salina Verde, com floração permanente de cianobactérias, e a Salina Preta, sem registro de floração. A mesma química alcalina sustenta águas de aparência muito diferente.

Baías, corixos e salinas: o que é cada um

Baías são lagoas doces, temporárias ou permanentes, muitas vezes tomadas por plantas aquáticas. Corixos e vazantes são os caminhos que a água segue entre elas e os rios, principalmente na cheia. Salinas são lagoas alcalinas, de água esverdeada pela densidade de algas e sem plantas aquáticas. A Nhecolândia tem cerca de 15 mil lagoas, das quais cerca de 500 são salino-alcalinas; os números variam entre estudos.

Por que a água fica salgada e alcalina

A água das salinas vem de águas doces que descem dos arenitos da borda do Pantanal. Na região, a evaporação supera a chuva, e os sais se concentram. A química da água favorece a alcalinidade, e o pH chega perto de 9,5 ou passa disso. Horizontes de solo pouco permeáveis isolam a salina da água doce subterrânea e evitam que ela seja diluída. Por isso a salinidade varia tanto de uma lagoa para outra, mesmo a poucos metros de distância.

Quem vive em cada uma

Nas baías dominam macrófitas e gramíneas, com fitoplâncton e microcrustáceos diversos; nas salinas, com menos diversidade, as cianobactérias predominam e podem formar florações, como na Salina Verde, com Anabaenopsis elenkinii. Entre as aves, o levantamento de 2007 a 2009 achou a menor diversidade nas salinas, mas a maior abundância, com pernilongos e maçaricos que quase só aparecem ali. Dados comparáveis sobre peixes por tipo de lagoa não foram localizados em fonte aberta e ficam fora deste texto.

Como sabemos

A origem das salinas vem de testemunhos de sedimento: esponjas, pólen e diatomáceas fósseis, mais datação por radiocarbono, indicam que lagoas rasas de água doce viraram salinas, provavelmente quando o ciclo de água da bacia passou a depender só da recarga subterrânea e da evaporação. É uma interpretação, e a ideia antiga de erosão pelo vento há 20 mil anos foi preterida. Já as aves foram contadas em transectos de duas horas, 48 amostras por ambiente, em uma única propriedade.

Como sabemos

Química, hidrologia e aves apoiadas em textos lidos; a origem das salinas é interpretação e peixes não foram cobertos.

Fontes

  1. Perspectives in Ecology and Conservation 17 — The soda lakes of Nhecolândia: A conservation opportunity for the Pantanal wetlands
    Guerreiro, R. L.; Bergier, I.; McGlue, M. M.; Warren, L. V.; Abreu, U. G. P.; Abrahão, J.; Assine, M. L. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.pecon.2018.11.002
  2. Brazilian Journal of Biology 74(4) — Distribution, composition and seasonality of aquatic birds in the Nhecolândia sub-region of South Pantanal, Brazil
    Donatelli, R. J.; Posso, S. R.; Toledo, M. C. B. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/1519-6984.05013
  3. Embrapa Pantanal — Flora e paisagens do Pantanal
    Embrapa Pantanal · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. PLOS ONE — Organic Control of Dioctahedral and Trioctahedral Clay Formation in an Alkaline Soil System in the Pantanal Wetland of Nhecolândia, Brazil
    Barbiero, L.; Berger, G.; Rezende Filho, A. T.; Meunier, J. F.; Martins-Silva, E. R.; Furian, S. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0159972
  5. Frontiers in Microbiology — Contrasting the Genetic Patterns of Microbial Communities in Soda Lakes with and without Cyanobacterial Bloom
    Andreote, A. P. D.; Dini-Andreote, F.; Rigonato, J.; Machineski, G. S.; Souza, B. C. E.; Barbiero, L.; Rezende-Filho, A. T.; Fiore, M. F. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2018.00244
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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