Neurociência
Ayumu e a memória de numerais: o que o teste de 2007 mostra e por que a comparação com humanos exige cuidado
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
No teste de Inoue e Matsuzawa (2007), o chimpanzé jovem Ayumu lembrou posição e ordem de cinco numerais exibidos por 210 ms, com cerca de 79% de acerto, e os humanos comparados ficaram bem abaixo. Só que ele treinou muito antes da medição e eles não. Com prática, dois humanos igualaram ou superaram o chimpanzé em réplicas posteriores. O teste mede memória de posição e ordem, não mostra superioridade geral.
A tarefa usa uma tela sensível ao toque. Os chimpanzés do Instituto de Pesquisa de Primatas da Universidade de Kyoto aprenderam primeiro a tocar numerais arábicos de 1 a 9 em ordem crescente. Na tarefa de memória, os numerais aparecem em posições aleatórias; ao tocar o menor, os demais viram quadrados brancos, e o animal precisa tocar as posições onde estavam os outros, na ordem. "Memória de trabalho" é a retenção breve de informação para uma tarefa em curso; aqui, a retenção de onde cada símbolo estava. A versão popular, de que chimpanzés "têm memória melhor que a nossa", vai muito além do que o experimento mede, que é bem mais estreito: memória de posições, com uma ordem aprendida, em condições de treino desiguais.
O que o próprio laboratório diz
No mesmo ano de 2009, Matsuzawa escreveu que os chimpanzés foram menos competentes que humanos em imitação e em correspondência um a um, e que não têm capacidades humanas de representação abstrata.
O que a tarefa mede
Os chimpanzés aprenderam a ordem dos numerais de 1 a 9 por treino, tocando-os em sequência crescente. Na tarefa de máscara, depois de tocar o menor, o animal tinha de lembrar qual numeral aparecera em qual posição. Mede, portanto, memória de posições combinada com uma ordem já aprendida. Segundo Manoochehri, Read comentou que o primeiro numeral é tocado ainda visível, sem exigir memória.
Como sabemos que a prática importa
Silberberg e Kearns notaram que Ayumu fez muitas sessões antes da medição final e os humanos, nenhuma. Dois humanos que praticaram igualaram a precisão de Ayumu; em outro trabalho, dois estudantes com prática superaram o chimpanzé. São amostras muito pequenas e não estimam a média humana. Mostram que o contraste do estudo original mistura espécie e treino.
Outras diferenças entre as condições
Dentro dos chimpanzés, os jovens foram melhores que os adultos na tarefa de máscara, então a idade também pesa. Num estudo de 2023 do mesmo laboratório, o procedimento era igual para as duas espécies, mas os chimpanzés não recebiam instrução verbal e os humanos não ganhavam comida. Cada diferença assim exige cuidado antes de atribuir o desempenho à espécie.
O que não se pode concluir
O teste não permite dizer que chimpanzés sejam mais inteligentes que humanos. Matsuzawa, que conduziu os experimentos, afirma que o resultado dos jovens convive com desempenho pior em imitação e em correspondência um a um, e que os chimpanzés não têm capacidades humanas de representação abstrata. Os trabalhos de Silberberg e Kearns e de Cook e Wilson sustentam a cautela, sem provar que o sistema de memória seja idêntico nas espécies.
Como sabemos
O artigo de 2007 não pôde ser aberto; o desenho vem de f3, f5 e das críticas, quase todas lidas só no resumo.
Em debate: Os autores originais relataram que chimpanzés jovens superaram humanos adultos. Silberberg e Kearns, e Cook e Wilson, mostraram que a diferença de treino explica ao menos parte do resultado, pois humanos praticantes igualaram ou superaram o chimpanzé.
- Evidência forte: Segundo a descrição de Silberberg e Kearns, no estudo de Inoue e Matsuzawa (2007) o chimpanzé jovem Ayumu lembrou a posição e a ordem de cinco numerais arábicos, sorteados entre 1 e 9 e exibidos por 210 ms numa tela sensível ao toque, com cerca de 79% de acerto. [1] Resumo
Contexto: Um chimpanzé jovem (Ayumu), laboratório de Kyoto, tarefa de 2007. · Limitações: O artigo original de 2007 (Current Biology) não pôde ser aberto; o dado vem da descrição de Silberberg e Kearns (2009), que o reanalisam. O número de humanos comparados é descrito de modo diferente nas fontes (nove em f1; três estudantes em f2). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Ayumu fez muitas sessões de treino na tarefa antes de a medição final ser feita; os humanos comparados não tiveram nenhuma. [1] Resumo
Contexto: Comparação original de 2007, na descrição dos autores que a criticaram. · Limitações: É a leitura de Silberberg e Kearns do desenho de 2007; os autores originais podem descrever o treino de outra forma. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Quando dois humanos praticaram a tarefa de Inoue e Matsuzawa (2007), sua precisão ficou no nível da de Ayumu (Silberberg e Kearns, 2009). [1] Resumo
Contexto: Dois humanos adultos, com prática; tarefa de memória do estudo de 2007. · Limitações: Amostra de apenas dois participantes; mostra que a diferença pode desaparecer com prática, não estima a média de humanos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Cook e Wilson (2010) relatam que, após prática adequada, dois estudantes universitários superaram o chimpanzé de forma substancial, e que não há evidência de sistema de memória espacial superior ou qualitativamente diferente em chimpanzés. [2] Resumo
Contexto: Dois estudantes universitários com prática, comparados ao chimpanzé do estudo de 2007. · Limitações: Duas pessoas apenas; a frase final é a conclusão dos autores desse trabalho, não um consenso da área. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Matsuzawa resume o resultado como tendo três chimpanzés jovens superado humanos adultos em memorizar numerais exibidos por pouco tempo, na mesma aparelhagem e no mesmo procedimento. [4] Resumo
Contexto: Visão dos próprios autores do estudo original, em artigo de revisão de 2009. · Limitações: É a posição de quem conduziu os experimentos; a afirmação foi depois contestada por f1 e f2. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: No mesmo artigo, Matsuzawa afirma que os chimpanzés foram menos competentes em outras tarefas (imitação, pareamento entre sentidos, simetria entre símbolo e referente, correspondência um a um) e que não têm capacidades humanas de representação em nível abstrato. [4] Resumo
Contexto: Revisão do próprio grupo de Kyoto sobre representação simbólica de número em chimpanzés. · Limitações: Só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Os chimpanzés primeiro aprenderam a tocar numerais arábicos de 1 a 9 em ordem crescente numa tela sensível ao toque; na tarefa de memória, depois que o menor numeral era tocado, os demais viravam quadrados brancos. [3] Resumo
Contexto: Seis chimpanzés (3 jovens e 3 adultos) do estudo de Inoue e Matsuzawa publicado em 2009, que detalha o treino e a tarefa de máscara. · Limitações: Só o resumo foi lido. A versão de 2023 do laboratório usa máscara em xadrez preto e branco, não quadrados brancos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: No estudo de 2009, os chimpanzés jovens tiveram desempenho melhor que os adultos na tarefa de máscara, em acerto e em número de numerais, embora o processo de aprender a ordem fosse semelhante nas duas faixas etárias. [3] Resumo
Contexto: Três chimpanzés jovens e três adultos, no mesmo laboratório. · Limitações: Amostra de seis animais; a revisão f6 descreve o grupo como cinco chimpanzés, diferença que não foi resolvida. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Consenso científico: Na tarefa de máscara, o chimpanzé tinha de lembrar qual numeral aparecera em qual posição da tela antes de começar a tocar. [5] Introdução
Contexto: Descrição do próprio laboratório de Kyoto num estudo de 2023 com a mesma tarefa de máscara. · Limitações: O estudo de 2023 usa numerais de 1 a 19; a lógica da tarefa é a mesma da de 1 a 9. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Numa revisão de 2021, Manoochehri registra que os chimpanzés receberam muitas sessões de treino, o que pode elevar o desempenho, e cita comentário de Read (2008) de que o primeiro numeral era tocado enquanto ainda visível, sem precisar ser memorizado. [6] Seção 2.2.1
Contexto: Revisão sobre a capacidade da memória de curto prazo em diferentes espécies. · Limitações: A crítica de Read só foi lida de segunda mão, por f6. Não é possível dizer se ela altera o resultado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Em estudo posterior do mesmo laboratório com humanos e chimpanzés, o procedimento era igual, exceto que os chimpanzés não recebiam instrução verbal e os humanos não recebiam recompensa de comida. [5] Métodos, 3.4
Contexto: Estudo de 2023 (1 a 19), não o de 2007; ilustra como condições diferem entre espécies mesmo com o mesmo aparelho. · Limitações: Nesse estudo, os humanos fizeram só a tarefa sem memória; não há dado de memória humana nele. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Animal Cognition — Memory for the order of briefly presented numerals in humans as a function of practice
Silberberg, A.; Kearns, D. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10071-008-0206-8 - Psychonomic Bulletin & Review — Do young chimpanzees have extraordinary working memory?
Cook, P.; Wilson, M. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3758/pbr.17.4.599 - Animal Cognition, Instituto de Pesquisa de Primatas da Universidade de Kyoto — Acquisition and memory of sequence order in young and adult chimpanzees (Pan troglodytes)
Inoue, S.; Matsuzawa, T. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10071-009-0274-4 - Current Opinion in Neurobiology — Symbolic representation of number in chimpanzees
Matsuzawa, T. · 2009 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.conb.2009.04.007 - Animals (MDPI), Universidade de Kyoto — Sequence Order in the Range 1 to 19 by Chimpanzees on a Touchscreen Task: Processing Two-Digit Arabic Numerals
Muramatsu, A.; Matsuzawa, T. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/ani13050774 - Heliyon — Up to the magical number seven: An evolutionary perspective on the capacity of short term memory
Manoochehri, M. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.heliyon.2021.e06955
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)