História da África

O reino de Axum, no norte da Etiópia, cunhava moedas próprias de ouro desde cerca do ano 270

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Por volta de 270, o reino de Axum, no norte da atual Etiópia e na Eritreia, começou a emitir moedas próprias de ouro, prata e cobre, com o busto do rei e legendas em grego e, mais tarde, em ge'ez. As moedas não trazem data, mas são uma das principais fontes sobre o reino: segundo a História Geral da África da UNESCO, os nomes de dezoito reis axumitas só são conhecidos por meio delas. Depois da conversão do rei Ezana ao cristianismo, no século IV, a cruz passou a aparecer nas moedas.

Axum controlava o comércio entre o interior africano e o mar Vermelho. Um guia de navegação grego do século I, o Périplo do Mar Eritreu, já descreve o porto de Adulis, por onde saía o marfim trazido da cidade dos axumitas. No século III, o profeta persa Mani incluiu Axum entre os quatro grandes reinos do mundo, ao lado de Roma, da Pérsia e de um reino que provavelmente era a China. Segundo o historiador antigo Rufino, um jovem de Tiro chamado Frumêncio, criado na corte, foi consagrado bispo em Alexandria e batizou o rei e a família real; o primeiro rei cristão parece ter sido Ezana. As moedas de Axum estão entre as primeiras do mundo a trazer a cruz. Em Axum ficam também estelas de pedra de até 33 m, marcos de túmulos da elite.

O obelisco que voltou de Roma

A segunda maior estela de Axum, com 24 m e cerca de 150 toneladas, foi levada a Roma pelas tropas de Mussolini em 1937 e erguida na cidade como troféu. A Itália decidiu devolvê-la em 2005. Cortada em três blocos, ela voltou de avião e foi reerguida em seu lugar original em 2008, num projeto conduzido pela UNESCO.

Um reino do mar Vermelho

Axum aparece pela primeira vez num texto escrito no Périplo do Mar Eritreu, guia comercial do fim do século I feito por um mercador do Egito. O texto descreve Adulis, a cerca de 50 km ao sul da atual Massawa, como mercado para onde se levava o marfim reunido na 'cidade dos axumitas', a oito dias de viagem. Vendiam-se também chifre de rinoceronte, casco de tartaruga e obsidiana. O Périplo cita um governante, Zoskales, conhecedor da literatura grega. No século III, o profeta persa Mani pôs Axum entre os quatro grandes reinos do mundo, e em 274 enviados axumitas desfilaram no triunfo do imperador Aureliano, em Roma.

As moedas

O tipo mais antigo, provavelmente do rei Endybis, data do fim do século III. As moedas mostram o rei de busto, às vezes com coroa, entre espigas de cereal. As primeiras legendas são em grego; o ge'ez aparece com o rei Wazeba. Os textos variam: 'pela graça de Deus', 'paz ao povo', 'ele vencerá por Cristo', sempre com o nome do rei e o título de rei dos axumitas. Milhares de moedas foram achadas, muitas nos campos ao redor de Axum, expostas pela chuva. As de ouro do rei Ebana, do século V, aparecem sobretudo na Península Arábica, sinal de que circulavam no comércio do mar Vermelho. A última conhecida, de Hataza, é do século VIII.

A conversão

O relato tradicional vem de Rufino, autor cristão do século IV. Um comerciante de Tiro viajava com dois jovens parentes, Frumêncio e Edésio, quando o navio foi atacado num porto do mar Vermelho. Os dois foram levados à corte de Axum; Frumêncio, educado em grego, virou tesoureiro e tutor dos príncipes. Mais tarde foi a Alexandria, onde o patriarca Atanásio o consagrou bispo, e voltou para batizar o rei e a família real. O primeiro rei cristão parece ter sido Ezana. Suas primeiras moedas ainda trazem o disco e o crescente de origem sul-arábica; as posteriores trazem a cruz. A edição da UNESCO lembra que as relações com Constantinopla também pesaram.

As estelas

Em Axum há estelas de vários tipos. As mais simples são pedras brutas que marcavam túmulos. As maiores, lisas ou decoradas, imitam edifícios de vários andares, com porta, janelas e pontas de vigas talhadas na pedra. A maior, a estela 1, tinha cerca de 33 m e caiu, provavelmente quando os construtores tentavam erguê-la, e os pedaços ainda estão no chão. A estela 3, de cerca de 23 m, continua de pé. À frente delas há uma laje com mais de 17 m de comprimento e 6,5 m de largura. Ninguém sabe ao certo o significado da arquitetura imaginária, mas o tamanho das estelas provavelmente acompanhava a posição social dos mortos.

A escrita ge'ez

A escrita usada em Axum deriva de um alfabeto de tipo sul-arábico que aparece na Etiópia antes da era cristã. As primeiras inscrições propriamente etíopes datam do século II e só marcam consoantes. Com as grandes inscrições do rei Ezana, no século IV, as vogais passam a ser indicadas por modificações nos próprios sinais, sistema que virou regra e é a base da escrita etíope até hoje. A língua dessas inscrições é o ge'ez, do ramo semítico meridional. Uma das inscrições de Ezana repete o mesmo texto em três escritas: etíope, sul-arábica e grega, gravadas numa pedra de mais de 2 m.

Como sabemos

Os fatos sobre as moedas e a conversão vêm da síntese da UNESCO e de livro acadêmico de história da arte; datas antigas estão marcadas como consenso ou estimativa.

Em debate: Datação das moedas: como não trazem data, a ordem dos reis e a cronologia dependem de estilo, peso e composição do metal, e há divergências entre numismatas.

Em debate: 'Primeiras moedas com a cruz': o livro de Caskey, Cohen e Safran afirma que as moedas axumitas foram as primeiras a representar cruzes; outros autores preferem dizer que estão entre as primeiras, porque a datação exata das emissões de Ezana e das moedas romanas com símbolos cristãos é discutida.

Em debate: Conversão: o relato de Rufino sobre Frumêncio é a fonte tradicional; a edição da UNESCO considera que a mudança também reflete as relações comerciais e diplomáticas com Constantinopla. A data exata da conversão de Ezana varia entre os autores (c. 330–360).

Em debate: Área do reino: estimativas como a de 1,25 milhão de km² incluem territórios tributários e campanhas no sul da Arábia e no vale do Nilo, cujo controle efetivo é incerto.

Fontes

  1. UNESCO — General History of Africa, II: Ancient Civilizations of Africa (cap. 15, F. Anfray, 'The civilization of Aksum from the first to the seventh century'; cap. 16, Tekle-Tsadik Mekouria, 'Christian Aksum')
    consultada em 03/10/2026
  2. Cornell University Press (site do livro) — Aksumite coins (Art and Architecture of the Middle Ages: Exploring a Connected World)
    consultada em 03/10/2026
  3. Archaeological Institute of America — Of Obelisks and Empire (Archaeology, maio/junho de 2009)
    consultada em 03/10/2026
  4. UN News (Organização das Nações Unidas) — UNESCO teams successfully reinstall Ethiopian obelisk to original site
    consultada em 03/10/2026
  5. Walters Art Museum — Ethiopia at the Crossroads
    consultada em 03/10/2026
  6. University of Pittsburgh (Journal of World-Systems Research) — East-West Orientation of Historical Empires and Modern States (Journal of World-Systems Research 12(2), 2006)
    consultada em 03/10/2026
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