Zoologia

Aves teriam fugido de tornados antes da tempestade; infrassom é hipótese e o dado é contestado

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Mariquitas-de-asa-dourada (Vermivora chrysoptera) com geolocalizadores de luz teriam deixado seus territórios no Tennessee mais de 24 horas antes de uma tempestade com tornados, num desvio de mais de 1.500 km em cinco dias. Os autores propõem o infrassom como pista provável, mas isso é hipótese, e em 2018 outro grupo apontou que o erro do método pode explicar o desvio.

Um geolocalizador de luz é um aparelho leve, preso à ave, que guarda a intensidade da luz ao longo do dia. A posição é estimada pelo horário do nascer e do pôr do sol, e por isso a latitude tem erro grande. O estudo de 2015 fala de um migrante obrigatório, que migra em ciclo regular, fazendo uma migração facultativa, provocada por uma pista imediata. Infrassom é som abaixo de 20 Hz, que o ouvido humano não capta e que pode viajar milhares de quilômetros. Tornados e suas tempestades emitem infrassom medido por sensores. O que falta é mostrar que essas aves o percebem e que foi ele que as fez partir. Para infrassom em outro animal, veja o post sobre elefantes.

Posição pelo nascer e pôr do sol

O geolocalizador não usa satélite nem rádio. Ele só guarda a luz, e a posição é calculada depois, pelo horário do nascer e do pôr do sol. Daí vem o erro grande em latitude que está no centro do debate.

Como sabemos onde a ave estava

O geolocalizador de luz estima a posição pelo horário do nascer e do pôr do sol. Quem o usa sabe que a latitude é a coordenada menos precisa. Lisovski e colegas calcularam a margem de erro esperada para a espécie e dizem que o desvio de 2015 cabe nela. Streby e colegas respondem que um erro de sombreamento teria de aparecer igual e ao mesmo tempo em todos os aparelhos, o que não ocorreu. O resumo do estudo original não traz o número de aves nem os detalhes da análise.

O que tornados emitem

Sensores de infrassom no sudeste dos EUA localizaram tornados a mais de 100 km, com a banda dominante entre 2 e 6 Hz. Simulações de supercélulas sugerem que tempestades que ainda não geraram tornado emitem níveis parecidos. Portanto, uma ave que percebesse infrassom estaria detectando a tempestade, e não o tornado. Essa passagem é leitura nossa dos dois resultados; a distância de mais de 1.000 km, citada pelos autores das aves, não foi medida nesses estudos.

As aves ouvem infrassom?

Seis espécies de aves já tiveram a percepção de infrassom confirmada em audiometria, mas as fontes que lemos não dizem se a mariquita está entre elas. Em 2023, um estudo com albatrozes mostrou aves se movendo para regiões de maior infrassom oceânico, um sinal correlacional. Os autores desse estudo dizem que a resposta de aves selvagens ao infrassom ainda não havia sido testada. Outras pistas, como pressão e vento, não foram descartadas nas fontes que lemos.

Como sabemos

O que é medido (infrassom de tornados, método do geolocalizador) está firme; o desvio das aves é contestado e o infrassom como pista é hipótese.

Em debate:

Fontes

  1. Current Biology (Cell Press); autores da Univ. da Califórnia em Berkeley, Univ. de Minnesota, Univ. do Tennessee e USGS — Tornadic storm avoidance behavior in breeding songbirds
    Streby, H. M.; Kramer, G. R.; Peterson, S. M.; Lehman, J. A.; Buehler, D. A.; Andersen, D. E. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2014.10.079
  2. Current Biology (Cell Press); autores de institutos e universidades de vários países — Inherent limits of light-level geolocation may lead to over-interpretation (correspondência)
    Lisovski, S. et al. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2017.11.072
  3. Current Biology (Cell Press) — Response to Lisovski et al. (correspondência)
    Streby, H. M.; Kramer, G. R.; Peterson, S. M.; Lehman, J. A.; Buehler, D. A.; Andersen, D. E. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2017.12.025
  4. National Center for Physical Acoustics, Universidade do Mississippi; Journal of the Acoustical Society of America — Analysis of infrasound array data from tornadic storms in the southeastern United States
    Waxler, R.; Frazier, W. G.; Talmadge, C. L.; Liang, B.; Hetzer, C.; Buchanan, H.; Audette, W. E. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1121/10.0028815
  5. Universidade Estadual da Carolina do Norte; Journal of the Acoustical Society of America — Infrasound signals in simulated nontornadic and pre-tornadic supercells
    Coffer, B. E.; Parker, M. D. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1121/10.0009400
  6. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS); Universidade de Liverpool e outros — Albatrosses orient toward infrasound while foraging
    Gillies, N.; Martín López, L. M.; den Ouden, O. F. C.; Assink, J. D.; Basille, M.; Clay, T. A.; Clusella-Trullas, S.; Joo, R.; Weimerskirch, H.; Zampolli, M.; Zeyl, J. N.; Patrick, S. C. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2314980120
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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