Evolução
Aves sem voo não vêm de um único ancestral: kiwi, dodô e cormorão-das-galápagos perderam as asas por conta própria
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Perder o voo evoluiu muitas vezes entre as aves. O DNA de aves-elefante de Madagascar, extintas, mostrou que o parente vivo mais próximo delas é o kiwi, da Nova Zelândia, e não o avestruz. Isso indica que os ancestrais das ratitas chegaram a cada região voando, e que o gigantismo e a perda do voo surgiram de forma independente em várias linhagens.
Durante muito tempo, supôs-se que as ratitas (avestruz, ema, casuar, kiwi, aves-elefante e moas) herdaram a incapacidade de voar de um ancestral comum, e que a deriva dos continentes do antigo Gondwana as teria separado. Em 2014, um estudo com DNA mitocondrial de aves-elefante contrariou essa ideia: elas são aparentadas ao kiwi e distantes da linhagem do avestruz. Se foi assim, os ancestrais voavam e se dispersaram pelo mundo, e a perda do voo aconteceu em separado em cada linhagem. O padrão não é exclusivo das ratitas: o dodô descende de pombos, e o cormorão-das-galápagos divergiu de parentes voadores há menos de 2 milhões de anos.
Até aves que voam encolhem os músculos nas ilhas
Um estudo com mais de 8.000 espécimes de cerca de 1.400 espécies mostrou que aves voadoras de ilhas têm músculos de voo menores e pernas mais longas que as parentes do continente, sobretudo onde há poucos predadores.
A ideia antiga: um ancestral sem voo
Avestruz, ema, casuar, kiwi e as extintas moas e aves-elefante vivem em massas de terra hoje separadas. A explicação clássica dizia que o ancestral comum já não voava e que a fragmentação do Gondwana as espalhou. A árvore genealógica esperada seria a do mapa: grupos de cada continente próximos entre si.
O que o DNA mudou
Em 2014, o DNA mitocondrial de aves-elefante de Madagascar as colocou ao lado do kiwi, na Nova Zelândia, e longe do avestruz. Aves tão diferentes em tamanho, dieta e hábitos, separadas por milhares de quilômetros, são parentes próximas. A leitura mais simples é que ancestrais voadores chegaram a cada lugar por voo.
Ilhas, predadores e energia
Voar exige músculos grandes e muita energia. Quando faltam predadores, esse custo pode compensar menos. Em um levantamento com mais de 8.000 espécimes, aves de ilhas, mesmo as que voam, tinham músculos de voo menores e pernas mais longas, e o efeito foi maior onde havia menos rapinas e mamíferos predadores.
Casos recentes e o preço da perda
O cormorão-das-galápagos perdeu o voo há menos de 2 milhões de anos, e genes do cílio primário aparecem entre os candidatos. O dodô sobreviveu sem predadores até a chegada dos colonizadores e, com cães, gatos, porcos e ratos, desapareceu em cerca de um século. Sem voo, a fuga deixou de ser uma opção.
Como sabemos
Os achados centrais vêm de estudos revisados por pares, mas parte dos números (tamanhos, contagem de origens independentes) vem de reportagens sobre eles.
Em debate:
- Evidência forte: Análises de genomas mitocondriais de duas aves-elefante mostraram que elas são as parentes mais próximas do kiwi da Nova Zelândia e distantes da linhagem basal das ratitas, a do avestruz. [1]
- Evidência forte: O resultado contraria a explicação por vicariância continental (separação dos continentes de Gondwana) e sustenta dispersão por voo em todas as grandes linhagens de ratitas. [1]
- Hipótese: Os autores propõem que o gigantismo e a perda do voo convergentes foram favorecidos pela expansão, no início do Terciário, para o nicho de herbívoros diurnos após a extinção dos dinossauros. [1]
Explicação proposta pelos autores do estudo de 2014, não demonstrada de forma definitiva. - Estimativa: Aves-elefante chegavam a cerca de 3 m de altura e 275 kg; o kiwi é do tamanho da canela de uma pessoa, segundo a reportagem sobre o estudo. [2]
Valores aproximados citados em reportagem; o peso máximo varia entre estimativas. - Estimativa: Segundo o pesquisador Alan Cooper, ancestrais pequenos e voadores deram origem a formas gigantes sem voo em ao menos seis ocasiões independentes. [2]
Número citado por um autor em entrevista; depende da árvore filogenética adotada. - Interpretação: O kiwi permaneceu pequeno, noturno e insetívoro, provavelmente porque, ao chegar à Nova Zelândia, o nicho de grande herbívoro já estava ocupado pelas moas. [2]
Explicação plausível apresentada pelos pesquisadores, difícil de testar diretamente. - Fato estabelecido: O cormorão-das-galápagos (Phalacrocorax harrisi) é o único cormorão sem voo entre cerca de 40 espécies atuais. [3]
- Evidência forte: Genética indica que o cormorão-das-galápagos divergiu de parentes voadores há menos de 2 milhões de anos. [3]
- Evidência forte: Variantes em genes ligados ao cílio primário (Ofd1, Evc, Wdr34, Ift122) e uma deleção de 4 aminoácidos no fator de transcrição CUX1 foram identificadas como candidatas a explicar a redução das asas. [3]
Testadas em C. elegans e em células de cartilagem; são variantes candidatas, não prova completa do mecanismo. - Estimativa: O dodô (Raphus cucullatus) vivia na ilha Maurício, tinha cerca de 70 cm de altura e cerca de 12 kg, e se alimentava de frutos e sementes caídos. [4]
Altura e peso são estimativas a partir de ossos e relatos antigos. - Consenso científico: O parente vivo mais próximo do dodô é o pombo-de-nicobar, do Sudeste Asiático, e o dodô descende de ancestrais semelhantes a pombos. [4]
- Consenso científico: A colonização holandesa de Maurício começou em 1598; o último avistamento confiável do dodô foi em 1662, possivelmente 1680. Cães, gatos, porcos e ratos introduzidos mataram aves e provavelmente comiam seus ovos. [4]
A data do último avistamento é debatida (1662 ou cerca de 1680). - Evidência forte: Em um estudo com mais de 8.000 espécimes de cerca de 1.400 espécies, aves voadoras de ilhas apresentaram músculos de voo menores e pernas mais longas que parentes continentais. [5]
- Evidência forte: A redução dos músculos de voo foi mais acentuada em ilhas com menos aves de rapina e predadores mamíferos. [5]
Correlação em dados de museu; a pesquisadora aponta a ausência de predadores como fator principal.
Fontes
- Australian National University — Ancient DNA reveals elephant birds and kiwi are sister taxa and clarifies ratite bird evolution (Mitchell et al., Science, 2014)
consultada em 06/10/2026 - National Geographic — The surprising closest relative of the huge elephant birds
consultada em 06/10/2026 - USGS — A genetic signature of the evolution of loss of flight in the Galapagos cormorant (Burga et al., Science, 2017)
consultada em 06/10/2026 - Natural History Museum, Londres — The dodo bird: the real facts about this icon of extinction
consultada em 06/10/2026 - ScienceDaily (resumo do estudo) — Birds on islands are evolving toward flightlessness (Wright et al., PNAS, 2016)
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
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