Genética

Como se mostrou que o gene é feito de DNA: Avery, MacLeod e McCarty em 1944

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Genética

Em 1944, Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty purificaram de pneumococos uma fração que transformava bactérias sem cápsula em encapsuladas e que, até onde os métodos alcançavam, era DNA, sem proteína detectável. Preparações que degradavam DNA a inativavam; enzimas que atacam proteína ou RNA, não. Parte dos pesquisadores reagiu com ceticismo, porque a objeção de proteína em quantidade mínima não estava afastada.

Hereditariedade é a transmissão de características de uma geração à seguinte, e o gene é a unidade que a explica. Nos anos 1930, o DNA era conhecido como componente importante dos cromossomos, mas ninguém o ligava aos genes: a visão predominante era que os genes fossem proteínas, moléculas de enorme variedade, enquanto o DNA, feito de quatro bases supostamente em proporções iguais, parecia monótono demais. O sistema de estudo foi o pneumococo (Streptococcus pneumoniae), bactéria que causa pneumonia e existe em tipos distintos de cápsula. Transformação é a mudança herdável de uma bactéria ao receber material de outra. Era esse fenômeno que Avery e colegas queriam explicar quimicamente.

Dezessete anos depois, ainda havia dúvida

Segundo o historiador Matthew Cobb, em 1961, 17 anos depois do artigo de Avery e nove depois do experimento de Hershey e Chase, um artigo na revista Nature ainda reconhecia a possibilidade de que genes fossem proteínas. A aceitação do DNA foi gradual.

A pista: o experimento de Griffith, em 1928

Frederick Griffith, em Londres, injetou em camundongos pneumococos avirulentos junto com pneumococos virulentos mortos pelo calor. Os animais morriam, e as bactérias recuperadas deles eram do tipo virulento. Algo vindo das células mortas havia passado às vivas e alterado uma característica herdável delas. Esse agente ficou conhecido como princípio transformante, mas ninguém sabia do que era feito. Foi a pergunta que Avery levou cerca de uma década para responder.

Como a equipe de Avery identificou a substância

Partindo de pneumococos tipo III, a equipe purificou o extrato até obter uma fração ativa em quantidades mínimas. A composição química era a do DNA; o teste de Dische para DNA foi positivo e os de Biuret e Millon para proteína, negativos. Ribonuclease e proteases não eliminaram a atividade. Soros e extratos de órgãos que degradavam DNA eliminaram. O raciocínio é por exclusão: se fosse proteína ou RNA, o tratamento correspondente teria acabado com a transformação.

A objeção das impurezas e a barreira conceitual

'Nenhuma proteína demonstrável' não é 'nenhuma proteína'. Os próprios autores escreveram que a atividade podia vir de quantidades mínimas de outra substância, e Alfred Mirsky, colega no Rockefeller, defendeu que se tratava de contaminação por proteína. Em 1946, McCarty e Avery refinaram a purificação e mostraram que uma DNase purificada inativava a transformação. Havia ainda uma barreira conceitual: o DNA parecia monótono demais, com quatro bases, para carregar tanta informação.

Hershey e Chase (1952): o que mostraram e o que não mostraram

Hershey e Chase marcaram o fago T2 com enxofre radioativo (proteína) e fósforo radioativo (DNA). Agitadas em liquidificador, as células infectadas perderam 75% do enxofre do fago e só 15% do fósforo; a progênie herdou menos de 1% do enxofre parental e 30% ou mais do fósforo parental. Os autores foram cautelosos, e Cobb lembra que o experimento teve muita contaminação. Foi mais uma peça de um conjunto de evidências, não o ponto final.

Como sabemos

Os resultados de Avery e de Hershey e Chase vêm dos resumos dos artigos originais e as objeções e o contexto, de dois textos históricos abertos lidos por inteiro; os artigos de 1928 e de 1946 não foram lidos diretamente.

Em debate: Os livros-texto costumam apresentar o experimento do liquidificador como a prova final de que o DNA é o material genético. Segundo Cobb (2016), o experimento tinha muita contaminação e Hershey não o apresentou assim; em 1953 ele ainda via o DNA como provavelmente não o único determinante da hereditariedade. O resumo do artigo de 1952 diz que o DNA tem alguma função e pede cautela nas inferências.

Fontes

  1. The Journal of Experimental Medicine (Rockefeller Institute for Medical Research) — Studies on the chemical nature of the substance inducing transformation of pneumococcal types: induction of transformation by a desoxyribonucleic acid fraction isolated from Pneumococcus type III
    Avery, O. T.; MacLeod, C. M.; McCarty, M. · 1944-02-01 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1084/jem.79.2.137
  2. The Journal of Experimental Medicine (Rockefeller University) — From the discovery of DNA to current tools for DNA editing
    Maguin, P.; Marraffini, L. A. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1084/jem.20201791
  3. PLOS Biology (University of Manchester) — A Speculative History of DNA: What If Oswald Avery Had Died in 1934?
    Cobb, M. · 2016-12 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pbio.2001197
  4. The Journal of General Physiology (Carnegie Institution of Washington) — Independent functions of viral protein and nucleic acid in growth of bacteriophage
    Hershey, A. D.; Chase, M. · 1952-09-20 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1085/jgp.36.1.39
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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