Fenômenos naturais
Atribuição de eventos extremos: a razão de probabilidade compara o clima de hoje com um mundo sem emissões
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Tempo e clima
Atribuição de eventos extremos não pergunta se a mudança do clima "causou" um evento, e sim quanto ela alterou sua probabilidade ou intensidade. Compara-se a chance de um evento ao menos tão forte no clima atual (p1) com a de um mundo contrafactual, sem emissões humanas (p0). A razão p1/p0 é a razão de probabilidade. Em 2004, um estudo estimou ser muito provável que a influência humana tenha pelo menos dobrado o risco da onda de calor europeia de 2003.
Um evento extremo é raro por definição, e eventos raros também acontecem sem ajuda humana. Por isso "o clima causou isso?" não tem resposta direta. A atribuição reformula a pergunta: qual era a probabilidade de um evento ao menos tão forte no clima de hoje e num clima contrafactual, um mundo hipotético, simulado ou aproximado por um clima passado, em que o fator estudado não existe? O quociente das duas probabilidades é a razão de probabilidade. Outra forma é comparar a intensidade de um evento com a mesma probabilidade nos dois mundos. A probabilidade anual de 1% equivale a um período de retorno de 100 anos (conta nossa, 1/p).
Do "dobrou" ao 0,5
Uma razão de probabilidade de 2 corresponde a uma fração do risco atribuível (FAR) de 0,5: (2 − 1)/2. É a conta (nossa) por trás de "pelo menos dobrou o risco", expressão do estudo de 2004 sobre a onda de calor de 2003.
Dois mundos, uma razão
A ideia de Allen (2003) é rodar um modelo duas vezes: com as condições atuais e com um mundo contrafactual, sem emissões humanas, isto é, com concentrações pré-industriais de gases de efeito estufa e de aerossóis. Conta-se, em cada conjunto de simulações ou ajustando uma distribuição de valores extremos, a chance de passar de um limiar. A razão das duas chances é a razão de probabilidade, com intervalo de confiança calculado a partir das duas probabilidades. A mesma lógica pode ser aplicada às observações, comparando o clima atual com o de décadas atrás.
Como sabemos: o protocolo de oito passos
O protocolo do World Weather Attribution foi descrito por Philip e colegas em 2020, depois de cerca de duas dúzias de estudos rápidos e lentos. Começa por decidir se o evento será analisado e fixa sua definição (variável, área, duração), estima a tendência nas observações, avalia os modelos e só então calcula a atribuição, combinando vários métodos. A síntese reúne observações e modelos, e há passos próprios para vulnerabilidade e exposição e para a comunicação.
Onde o método depende de escolhas
O número muda com a definição do evento: médias em grande escala e eventos longos tendem a mostrar razões maiores, porque a variabilidade natural pesa menos. A confiança também varia com o tipo de evento. Em 2016, a Academia Nacional de Ciências dos EUA a considerava maior para calor e frio extremos, depois seca hidrológica e chuva intensa, e pequena ou nula para tempestades convectivas e ciclones extratropicais. Perto do limite físico de uma distribuição, como em ondas de calor, pequenas mudanças no limiar mudam muito a razão.
O que a razão não diz
A razão de probabilidade descreve o perigo meteorológico, não o desastre. O risco total depende também de exposição e vulnerabilidade, e o próprio protocolo cita a seca de São Paulo, em que não houve tendência no perigo, mas houve aumento de usuários e de consumo por pessoa. Estudos de eventos individuais também não devem ser tomados como retrato de todos os extremos, porque os eventos escolhidos não formam amostra representativa. O caso das chuvas de 2024 no Rio Grande do Sul recebe análise própria, que aplica este método.
Como sabemos
Método e definições conferidos em IPCC AR6, NASEM 2016 e no protocolo do WWA; o artigo de Allen (2003) não foi lido (restrito) e Stott et al. (2004) só pelo resumo.
- Consenso científico: Os cientistas não respondem diretamente se um evento específico foi causado pela mudança do clima, porque extremos também ocorrem naturalmente e cada evento resulta de uma mistura de fatores humanos e naturais. O que se faz é quantificar a importância relativa das influências humanas e naturais sobre a magnitude ou a probabilidade do evento. [1] FAQ 11.3
Contexto: Avaliação do IPCC (AR6, Grupo de Trabalho 1, capítulo 11), sobre eventos extremos de tempo e clima em geral. · Limitações: O IPCC fala de atribuir aspectos de eventos a causas, não o evento inteiro; exposição e vulnerabilidade também pesam nos desastres. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No enquadramento por probabilidade, estimam-se as distribuições de probabilidade do índice que descreve o evento no clima de hoje e num clima contrafactual. A razão de probabilidade (PR) é p1/p0: p1 é a probabilidade de um evento tão forte quanto o observado ou mais forte no clima atual, e p0 a probabilidade num clima contrafactual sem emissões humanas, que pode ser aproximado por um clima passado, como o do fim do século 19. As probabilidades costumam ser expressas como períodos de retorno (1/p). [1] Seção 11.2.3 [4] Seção 3
Contexto: Enquadramento "baseado em probabilidade" (ou "em risco"), usado pelo World Weather Attribution e descrito no IPCC AR6. · Limitações: A literatura também chama a PR de razão de risco; o protocolo prefere "probabilidade" porque reserva "risco" para o impacto total do evento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Além da razão de probabilidade (RR = p1/p0), usa-se a fração do risco atribuível, FAR = (p1 − p0)/p1. Se a razão de probabilidade é 2, FAR = (2 − 1)/2 = 0,5. A relação entre as duas é conta nossa. [2] Resumo, "Methods of Event Attribution"
Contexto: Definições do relatório da Academia Nacional de Ciências dos EUA (2016). · Limitações: A passagem de RR = 2 para FAR = 0,5 é cálculo nosso, por substituição na fórmula: (2 − 1)/2. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A proposta original de atribuição de eventos, de Myles Allen (2003), previa dois experimentos de modelo: um com as condições atuais e outro com um mundo contrafactual, sem emissões humanas, ou seja, com as concentrações pré-industriais de CO2 e outros gases de efeito estufa e de aerossóis. A FAR foi introduzida na atribuição de eventos por esse trabalho. O limiar do evento é fixado igualando o período de retorno nas simulações do clima atual ao obtido nas observações. [4] Seção 6 [3] Seção "Causal framing"
Contexto: Descrição histórica feita por fontes que citam Allen (2003, Nature 421, 891-892); o artigo original é de acesso restrito e não foi lido por nós. · Limitações: Segundo Philip et al. e a Academia Nacional de Ciências dos EUA, e não pela leitura direta de Allen (2003). O NASEM acrescenta que o argumento de Allen para aplicar a FAR a um evento individual era jurídico, não físico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Stott, Stone e Allen (2004) estimaram, usando um limiar de temperatura média de verão excedido em 2003 e em nenhum outro ano desde o início do registro instrumental, em 1851, que é muito provável (confiança acima de 90%) que a influência humana tenha pelo menos dobrado o risco de uma onda de calor acima desse limiar na região da Europa continental estudada. [5] Resumo
Contexto: Temperatura média de verão numa ampla região da Europa continental; verão de 2003. · Limitações: Leitura só do resumo (PubMed); o método detalhado e o erro publicado em 2005 (Nature 436, 1200) não foram lidos. Em termos de FAR, dobrar o risco corresponde a FAR de pelo menos 0,5 (cálculo nosso). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No mesmo estudo, Stott e colegas escrevem que perguntar se a onda de calor de 2003 foi causada, em sentido determinista simples, pela mudança nas influências externas sobre o clima é uma pergunta mal formulada, porque quase qualquer evento desse tipo poderia ocorrer por acaso num clima não modificado. Em vez disso, estima-se quanto as atividades humanas podem ter aumentado o risco de ocorrência. [5] Resumo
Contexto: Argumento conceitual do estudo de 2004; a redação em português é nossa. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O protocolo do World Weather Attribution tem oito passos: gatilho da análise, definição do evento, detecção de tendência, avaliação dos modelos, atribuição com vários métodos e modelos, síntese do perigo, análise de vulnerabilidade e exposição, e comunicação. [4] Introdução
Contexto: Protocolo descrito por Philip et al. (2020) a partir de cerca de duas dúzias de estudos rápidos e lentos do grupo. · Limitações: É o protocolo de um grupo, não o único modo de fazer atribuição; o próprio artigo diz que partes da síntese são área de pesquisa ativa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O resultado depende de como o evento é definido (variável, área, duração) e do enquadramento. Médias em grande escala e eventos longos tendem a dar mudanças atribuídas maiores, porque as médias suavizam o ruído da variabilidade natural. Por isso a definição do evento é escrita explicitamente no protocolo antes de qualquer cálculo. [1] Seção 11.2.3 [4] Seção 3
Contexto: Vale para o enquadramento por probabilidade; a última frase sobre o protocolo resume o passo 2 do WWA. · Limitações: Razões de probabilidade maiores em escalas maiores não significam que o evento local tenha sido mais afetado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Antes de usar um modelo, o protocolo exige verificar se ele reproduz o tipo de evento em estudo, comparando a distribuição dos extremos simulados com a observada, com correção de viés (aditiva para temperatura, multiplicativa para chuva e vento). Se menos de dois modelos passam no teste, a atribuição não é aceita como robusta, porque um único modelo costuma ser excessivamente confiante. [4] Seção 5
Contexto: Critério do protocolo WWA, não regra universal de todos os grupos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O IPCC (AR6) afirma que, para eventos cuja dinâmica da atmosfera está além do que os modelos atuais representam, a abordagem por probabilidade fica limitada, e a abordagem por "storyline" é uma alternativa que não depende de o modelo reproduzir bem a circulação. Os limites inferiores das razões de risco podem ser pouco sensíveis a incertezas de observação e de modelo, o que dá mais confiança a afirmações conservadoras. [1] Seção 11.3.4
Contexto: Storyline: abordagem em que se fixa a situação meteorológica e se pergunta o que a mudança do clima acrescentou a ela; o IPCC a descreve como altamente condicional. · Limitações: A definição de storyline nesta frase é nossa, a partir da descrição do IPCC ("highly conditional"). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Segundo o relatório da Academia Nacional de Ciências dos EUA de 2016, a confiança em análises de eventos específicos é maior para calor e frio extremos, seguidos por seca hidrológica e precipitação intensa; é pequena ou nula para tempestades convectivas severas e ciclones extratropicais. A confiança tende a crescer com o entendimento do efeito da mudança do clima sobre o tipo de evento. [2] Conclusões
Contexto: Avaliação de 2016; o IPCC (2021) reavaliou vários tipos de evento depois disso. · Limitações: É um retrato de 2016: o campo evoluiu, e o IPCC AR6 trata caso a caso as classes de eventos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Se o evento está perto do limite superior físico da distribuição (como em ondas de calor, que seguem uma distribuição de valores extremos com limite), pequenas mudanças no limiar mudam muito os períodos de retorno e a razão de probabilidade. Para chuva intensa, em geral, a razão de probabilidade é menos sensível a pequenas mudanças do limiar. [4] Seção 7
Contexto: Descrição de Philip et al. (2020) sobre distribuições de valores extremos com e sem limite superior. · Limitações: Para ondas de calor o artigo sugere dar mais ênfase ao limite inferior da razão de probabilidade na comunicação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O que a razão de probabilidade mede é o perigo meteorológico, não o desastre. O risco total é o produto do perigo, da exposição e da vulnerabilidade, e detalhar o contexto de exposição e vulnerabilidade é diferente de atribuir os impactos de um desastre. Na seca de São Paulo, estudada pelo WWA, não se achou tendência no perigo de pouca chuva; o aumento de usuários e do consumo por pessoa explicou a falta de água. [4] Seção 8
Contexto: Passo 7 do protocolo; o exemplo de São Paulo refere-se a um estudo anterior do grupo (Otto et al., 2015), citado por Philip et al. · Limitações: O exemplo de São Paulo vem de segunda mão (Philip et al. citando Otto et al.). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Estudos de atribuição de eventos individuais não devem ser usados para tirar conclusões gerais sobre extremos como um todo, porque os eventos escolhidos não são uma amostra representativa. Eventos que ficam menos prováveis com a mudança do clima, como extremos de frio, são estudados menos vezes. [2] Conclusões
Contexto: Relatório da Academia Nacional de Ciências dos EUA (2016). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Em 2016, a Academia Nacional de Ciências dos EUA escreveu que a resposta típica de um climatologista, "não podemos atribuir nenhum evento isolado à mudança do clima", deixou de valer como afirmação geral: em muitos casos já é possível fazer afirmações quantitativas sobre o efeito da mudança do clima na magnitude ou na probabilidade de tipos específicos de evento. [2] Conclusões
Contexto: Avaliação de 2016. · Limitações: A palavra "tipos" reflete a ressalva do relatório ("specific types of events or event classes"). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- IPCC, Working Group I, Sixth Assessment Report — Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Chapter 11: Weather and Climate Extreme Events in a Changing Climate
Seneviratne, S. I., Zhang, X. et al. · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - National Academies Press — Attribution of Extreme Weather Events in the Context of Climate Change: Summary
National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (Committee on Extreme Weather Events and Climate Change Attribution) · 2016 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.17226/21852 - National Academies Press — Attribution of Extreme Weather Events in the Context of Climate Change: 2 Framing
National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine · 2016 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.17226/21852 - Advances in Statistical Climatology, Meteorology and Oceanography (Copernicus) — A protocol for probabilistic extreme event attribution analyses
Philip, S. et al. (World Weather Attribution) · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/ascmo-6-177-2020 - Nature — Human contribution to the European heatwave of 2003
Stott, P. A., Stone, D. A., Allen, M. R. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature03089
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)