Fenômenos naturais

Por que o Atlântico Sul quase não tem furacões: vento forte em altitude e, em geral, nenhuma ZCIT sobre o mar

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Os furacões são raros no Atlântico Sul porque o cisalhamento do vento (a variação do vento com a altitude) é forte demais e, em geral, não há sobre o oceano uma zona de convergência intertropical (ZCIT) que forneça giro e trovoadas iniciais. Segundo a NOAA, mar frio não é o motivo principal. A exceção foi o Catarina, em março de 2004: um bloqueio atmosférico reduziu o cisalhamento e a tempestade chegou ao Sul do Brasil.

O post sobre as condições de formação lista o que um ciclone tropical precisa; aqui o foco é o que falta ao Atlântico Sul. Cisalhamento é a diferença de vento entre a superfície e o alto da troposfera: valores acima de uns 10 m/s desmontam a organização das trovoadas. A ZCIT é a faixa onde os ventos alísios dos dois hemisférios se encontram; no Atlântico ela costuma ficar ao norte do equador e é de lá que vêm os distúrbios que podem virar furacões. No Atlântico Sul falham os dois ingredientes ao mesmo tempo, e a temperatura do mar, a explicação que muita gente supõe, não é a razão principal.

O Catarina nasceu sobre mar mais frio que o normal

Segundo a análise publicada em 2006, o centro do Catarina estava sobre água de cerca de 25 °C, 0,5 °C abaixo da média do local, menos que os 26,5 °C usados como limiar. O ar frio em altitude, parte do bloqueio, compensou o mar morno demais.

Cisalhamento: o vento que desmonta a tempestade

Para um ciclone se organizar, o vento não pode mudar muito com a altura; senão ele inclina e esvazia a coluna de trovoadas. O limiar empírico é de cerca de 10 m/s entre a superfície e o alto da troposfera. Na análise de 2006 sobre o Catarina, os autores lembram que, na climatologia de Gray, o cisalhamento médio de abril ao largo do litoral sul do Brasil chega perto de 20 m/s, bem acima desse limiar. Por isso a NOAA põe o cisalhamento forte como razão primária.

Sem ZCIT, falta a semente

A ZCIT é a faixa onde os alísios dos dois hemisférios convergem, com muita convecção e giro. Uma revisão de 1998 registra que ela fica ao norte do equador sobre o Atlântico e o Pacífico leste; a NOAA acrescenta que em geral não há ZCIT sobre o Atlântico Sul e que faltam ondas de leste vindas da África. Sem um distúrbio prévio com giro e trovoadas, o cisalhamento forte sequer precisa agir: a gênese fica de muito difícil a quase impossível.

E o mar frio?

A explicação mais comum é a do mar frio demais, mas a NOAA a trata como secundária. Segundo a análise de 2006, o próprio Gray (1968) reconhecia que a flutuabilidade potencial na região é favorável à convecção profunda: o problema é o vento, não o calor. O contraste mais forte é o do Catarina, que se organizou sobre cerca de 25 °C, abaixo do limiar clássico de 26,5 °C, porque o ar frio em altitude elevou a intensidade potencial e o cisalhamento baixou.

A exceção de 2004 e as outras

Em março de 2004, um bloqueio em dipolo a leste da América do Sul empurrou o precursor de volta à costa e criou uma região de cisalhamento fraco; o Catarina chegou ao litoral sul como furacão de categoria 1 nominal, segundo a análise publicada. Houve antes uma depressão tropical em 1991, no leste do oceano, e depois o Anita (2010) e o Arani (2011). Desde 2011 há uma lista de nomes para o Atlântico Sul, em sua maioria brasileiros. O Catarina em detalhe ficará em post próprio.

Como sabemos: uma regra climática e uma exceção que a testa

A regra vem da climatologia: Gray (1968) comparou médias de cisalhamento e ZCIT entre bacias, e o limiar de 10 m/s foi derivado empiricamente. A exceção a põe à prova: no Catarina, os autores mapearam cisalhamento, temperatura do mar e intensidade potencial com reanálises e satélite e viram o cisalhamento cair com o bloqueio. Limites: um só evento, sem medida direta do vento, e uma busca de análogos de 30 anos que achou só seis bloqueios longos. A ligação entre bloqueio e furacão é hipótese dos autores.

Como sabemos

As causas (cisalhamento, falta de ZCIT) vêm da NOAA e de um artigo de 2006 lido no texto integral; as exceções vêm de cinco fontes institucionais; Gray (1968) e Pezza e Simmonds (2005) não foram lidos diretamente.

Fontes

  1. NOAA / AOML / Hurricane Research Division — Hurricane Research Division: Frequently Asked Questions (Why Doesn't the South Atlantic Ocean Experience Tropical Cyclones?; nomes de tempestades)
    NOAA / AOML Hurricane Research Division · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Monthly Weather Review (American Meteorological Society); cópia no servidor do MIT — Analysis of Hurricane Catarina (2004)
    McTaggart-Cowan, R.; Bosart, L. F.; Davis, C. A.; Atallah, E. H.; Gyakum, J. R.; Emanuel, K. A. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1175/MWR3330.1
  3. International Pacific Research Center, University of Hawai'i (UCLA Tropical Meteorology Newsletter, n. 22) — What Keeps the ITCZ North of the Equator? An Interim Review
    Xie, S.-P. · 1998 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. NASA Earth Observatory — "Hurricane" Catarina hits Brazil
    NASA Earth Observatory · 2004-04-05 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. NOAA / AOML / Hurricane Research Division — 10th Anniversary of Cyclone Catarina
    NOAA / AOML Hurricane Research Division · 2014 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos