Oceanografia

Por que o Atlântico é mais salgado que o Pacífico: vapor, chuva e circulação, e o debate sobre as causas

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A superfície do Atlântico é, em média, cerca de 1 g/L mais salgada que a do Pacífico, porque o Atlântico perde mais água para a atmosfera do que recebe de chuva e rios. Parte desse vapor cruza a América Central e cai no Pacífico. O sal extra deixa a água do Atlântico Norte densa o bastante para afundar; a do Pacífico Norte, mais doce, não afunda. Quanto cabe ao vapor e quanto ao transporte oceânico ainda se discute.

Salinidade é a quantidade de sais dissolvidos na água do mar. Em cada bacia ela resulta de um balanço: a chuva (P), os rios e o gelo derretido adicionam água doce; a evaporação (E) retira água e deixa o sal. Quando E supera P, a bacia é evaporativa e ganha salinidade, que as correntes redistribuem. O vapor retirado de uma bacia pode cair em outra, levado pelos ventos: é essa água doce "exportada" pelo ar que muda o balanço. Fluxos de água grandes são medidos em sverdrups (Sv; 1 Sv = 1 milhão de m³ por segundo). A salinidade importa porque, junto com a temperatura, define a densidade: água mais salgada é mais pesada e afunda com mais facilidade. Por isso a salinidade de uma bacia ajuda a decidir se ela forma água profunda.

O sal que o vapor deixa precisa sair

Segundo Broecker (1991), o Atlântico não fica cada vez mais salgado porque a parte profunda da circulação exporta o excesso de sal, equilibrando o que a perda de vapor acumula. Ele estimou que a perda de vapor, de apenas 0,35 Sv, bastaria para sustentar uma corrente oceânica de cerca de 20 Sv.

Do vapor ao sal: o balanço de água de uma bacia

A água doce que chega a uma bacia oceânica é a chuva menos a evaporação sobre ela, mais os rios. Quando a evaporação vence, o mar fica mais salgado. O Atlântico perde água assim, e o vento de leste dos trópicos leva parte do vapor para o Pacífico por cima da América Central, estreita e baixa. Em Broecker (1991), essa perda de vapor é de cerca de 0,35 Sv, o dobro da vazão do Amazonas. A água doce "viaja" pelo ar, e o sal fica.

Como sabemos: balanços, modelos e traçadores

Três caminhos são usados. Um é o balanço de umidade: somar o vapor que cruza as bordas da bacia, com dados de reanálise (1979 a 2009 em Singh et al.), o que dá 0,46 Sv saindo pela América Central. Outro são modelos de oceano ajustados para manter as diferenças de salinidade (0,20 a 0,45 Sv em Broecker). O terceiro são modelos climáticos com água marcada na origem, que seguem cada gota até a chuva. Nenhum é medida direta, e o balanço sozinho não revela o caminho do vapor.

Por que o sal decide quem afunda

A água do mar afunda quando fica mais densa que a de baixo, por esfriar ou por ter mais sal. No Atlântico Norte, a água subtropical salgada chega às altas latitudes e, ao esfriar, afunda. No Pacífico Norte, a superfície é bem mais doce (32,8 contra 34,7 no norte do Atlântico, nos números de Warren citados por Emile-Geay et al.) e, mesmo no ponto de congelamento, para a algumas centenas de metros. O mecanismo da circulação que sustenta tudo isso está em outro texto, sobre a esteira transportadora.

O que ainda se discute

Não há resposta única. Warren (1983) apontou o vento e a evaporação; Broecker e Singh et al., o vapor tropical que cruza a América Central; Emile-Geay et al. (2003) e Craig et al. (2019), a chuva a mais no Pacífico, ligada à monção asiática e ao fluxo sobre o Sudeste Asiático. Ferreira et al. (2018) resumem: quanto vem da atmosfera e quanto do oceano está em aberto. A pauta pressupunha a América Central como a causa; as fontes mostram que isso é uma das hipóteses.

Como sabemos

O contraste de salinidade e o papel da exportação de vapor estão bem documentados, mas a causa dominante e a rota do vapor seguem em debate entre fontes lidas.

Em debate: Broecker e Singh et al. destacam o vapor tropical que atravessa a América Central; Ferreira et al. (2010), citados por Singh, apontam as latitudes médias; Craig et al. (2019) destacam o fluxo sobre o Sudeste Asiático.

Em debate: Segundo Ferreira et al. (2018), não está estabelecido quanto do contraste de salinidade vem de processos atmosféricos (mais evaporação líquida no Atlântico) e quanto de processos oceânicos (transporte de sal para o Atlântico).

Fontes

  1. Geophysical Research Letters (cópia no repositório institucional da NOAA) — Greater aerial moisture transport distances with warming amplify interbasin salinity contrasts
    Singh, H. K. A.; Donohoe, A.; Bitz, C. M.; Nusbaumer, J.; Noone, D. C. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1002/2016GL069796
  2. Oceanography (The Oceanography Society), v. 4, n. 2, p. 79-89 — The Great Ocean Conveyor
    Broecker, W. S. · 1991 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Journal of Geophysical Research (cópia da Universidade Columbia, Lamont-Doherty Earth Observatory) — Warren revisited: Atmospheric freshwater fluxes and "Why is no deep water formed in the North Pacific"
    Emile-Geay, J.; Cane, M. A.; Naik, N.; Seager, R.; Clement, A. C.; van Geen, A. · 2003 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1029/2001JC001058
  4. EGU General Assembly 2019, Geophysical Research Abstracts v. 21 (Universidade de Reading) — The Atlantic/Pacific atmospheric moisture budget asymmetry
    Craig, P.; Ferreira, D.; Methven, J. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  5. NASA — NASA's 'Salt of the Earth' Aquarius Reveals First Map
    NASA · 2011 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  6. Annual Review of Earth and Planetary Sciences, v. 46 (registro no portal de pesquisa das universidades de Israel (IUCC)) — Atlantic-Pacific asymmetry in deep water formation
    Ferreira, D.; Cessi, P.; Coxall, H. K.; De Boer, A.; Dijkstra, H. A.; Drijfhout, S. S.; Eldevik, T.; Harnik, N.; McManus, J. F.; Marshall, D. P.; Nilsson, J.; Roquet, F.; Schneider, T.; Wills, R. C. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1146/annurev-earth-082517-010045
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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